“O futuro não são só carros voadores. É desligar da tecnologia”

Jarod Neece, um dos elementos do júri da Red Bull Futur/Io ( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

Jarod Neece, especialista em tacos (a ” trindade sagrada, de tortilha, recheio e molho”), é programador de cinema e está em Lisboa como jurado do Red Bull Futur/Io, um dos maiores concursos mundiais de ideias. Já viu centenas de vídeos, acredita que as histórias nunca passam de moda e tem uma certeza: em 2030 não vai ser só tecnologia.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Há 12 anos Jarod Neece teve uma ideia, uma ideia simples, mas que ainda hoje está cheia de dinamismo: contar a história dos tacos. A comida de origem mexicana, meio despachada, meio divertida. Ele e o amigo Mando Rayo saíram em busca de histórias, comeram centenas de tacos e criaram o blogue Taco Journalism. Desde então, já publicaram vários livros, roteiros, e alimentam a série digital The Tacos of Texas, na PBS.

Jarod senta-se na plateia do cineteatro Capitólio, ainda vazia, a poucos minutos da sessão inaugural da Red Bull Futur/Io, o evento que procura a melhor visão do futuro para 2030 e que, até domingo, junta os 22 finalistas da competição em Lisboa. Ali a poucos metros estão óculos de realidade virtual e microcâmaras capazes de acompanhar todas as cambalhotas dos aviões da equipa de desportos de ação sem estremecer, com uma qualidade de imagem impressionante. Há gente com os olhos vendados pela tecnologia a fazer gestos vazios no ar, atropelando gente deste mundo, enquanto um DJ debita música que não acaba.

( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

Começamos por falar de comida. Este texano, natural de Austin, acabara de chegar a Lisboa e ainda não conseguira provar a gastronomia local (o cocktail de pequenos acepipes regado a Red Bull não serve de exemplo e ele sabe-o). “Há 12 anos, antes de haver estes sites todos de comida, no início dos blogues, havia um tipo em LA a olhar para a comida que não era fine dinning e a tratar estas pessoas com respeito. Ia às roulottes, às janelinhas, e tratava-os com o mesmo respeito que um chef Michelin. E isso foi inspirador para mim. Dar voz às pessoas que, dia após dia, fazem a sua comida com amor e tradição, com a receita da avó”. E nasceu o Taco Journalism. “Há sempre uma história por detrás de um taco”, garante.

Espreitamos os episódios online. Jarod percorre todas as cidades do Texas, grandes e pequenas, cria o roteiro dos tacos, apresenta famílias inteiras, dá-nos a cheirar as frigideiras e a algazarra dos encontros à mesa. Este mergulho nas histórias já deu para vários livros. Explica-nos o que é um taco, e apostamos que ainda vai fazer uma tese académica sobre o assunto: “Consideramos o tradicional taco a trindade sagrada, de tortilha, recheio e molho. Há muitos primos do taco, como gostamos de dizer, na cultura grega por exemplo há o pão pita…” Mas… porque falamos de tacos numa academia de tecnologia e millennials? E porque é que Jarod é jurado destes miúdos de 15 nacionalidades que apresentam a sua visão do mundo em 2030 com trabalhos de três minutos em vídeo? Jarod também é programador sénior de cinema do Festival South by Southwest (SXSW) – e isso surge grafado no seu currículo, ao lado dos outros sete elementos do júri (muitos deles “futuristas”, no que parece ter-se tornado uma nova profissão). E é contador de histórias, que é o filet mignon de tudo isto.

Perguntamos-lhe como vão ser os tacos do futuro, em 2030, para largarmos a conversa de roulottes e botecos à beira da estrada. Ri-se. “Oh! Vemos já muitas tecnologias modernas nos tacos, mas sabes que as receitas dos tacos que comemos hoje têm centenas de anos já. Acho que vão continuar a ser estes tacos tradicionais, mas com proteínas alternativas, por exemplo”.

E que visões do futuro passaram pelas centenas de filmes que viu, no âmbito desta competição mundial da Red Bull em parceria com a Futur/Io? Muita tecnologia? “Não. Pensava que havia mais tecnologia, mais inteligência artificial, mais carros autónomos. Mas penso que muita gente vê como um futuro desejável ver-se livre da tecnologia, e voltar a relacionar-se com as suas comunidades. Foi muito fixe ver isso, não é só carros voadores”. Nem tacos voadores? “Não! Quer dizer, vai haver mudanças nas entregas… Mas aqueles vídeos que eu me detive mais, foram aqueles que olham para o futuro não só com tecnologia. É quase andar para trás, desligar da tecnologia e voltar às raízes”. E às histórias. “Sim!”.

“Muita gente vê como um futuro desejável ver-se livre da tecnologia, e voltar a relacionar-se com as suas comunidades.”

Durante duas horas desfilaram as visões de futuro dos 22 finalistas do concurso mundial. Há muitos miúdos preocupados com o ambiente, outros pedem igualdade, outros querem um mundo sem fronteiras. Houve mais de mil candidaturas (entre as quais, dois portugueses, que não passaram à fase final), avaliadas pelos oito elementos do júri. A cerimónia foi apresentada por Harald Neidhardt. O CEO do instituto Futur/io calçava ténis vermelhos e explicava que este “encontro de mentes criativas de todo o mundo” se destina a “encontrar as ideias para um futuro desejável”, que inspirem “os decision makers”. Os vídeos finalistas foram intercalados com palestras inspiradoras, uma espécie de Ted Talks sobre a importância da criatividade e da inovação. Em todos, uma palavra transversal: storytelling.

O vencedor da competição será conhecido no domingo, após dois dias em Lisboa, com várias atividades inspiradoras. O autor da melhor visão do mundo em 2030 vai produzir o seu filme na Red Bull Media House.

Durante duas horas desfilaram as visões de futuro dos 22 finalistas do concurso mundial. Há muitos miúdos preocupados com o ambiente, outros pedem igualdade, outros querem um mundo sem fronteiras.

O norueguês Geeohsnap subiu ao palco, de óculos escuros e camisola de capuz, para contar como se tornou um artista visual e influenciador cobiçado pelas grandes marcas (Red Bull incluída) depois de ter passado umas horas no aeroporto por causa de um atraso do voo. Começou a fazer brincadeiras com fotografias divertidas dos seus parceiros de espera na aplicação Snapchat. Agora tem o mundo aos pés. E deixou um conselho aos candidatos: “Parem de fazer o que toda a gente está a fazer!!!”

O Cineteatro Capitolio em Lisboa, acolheu a cerimónia inaugural do Red Bull Futur/Io ( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )