NOL: a joalharia de autor chegou ao Chiado

O anel de ouro e diamantes demorou dois meses a ser produzido . Nuno e Luísa trabalham agora nos brincos (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Antes de se apaixonarem um pelo outro, Luísa e Nuno já faziam joias em conjunto. Começaram em 1995 a partilhar uma bancada, apostaram na joalharia de autor personalizada e acabam de inaugurar a NOL Jewellers no Chiado, em Lisboa. O que eles andaram para aqui chegar.

Reportagem de Marina Almeida | Fotografias de Paulo Spranger/Global Imagens

A loja ainda cheira a novo, os veludos e o mármore brilham quase tanto quanto as joias dentro das vitrinas. Abriu em março na Rua António Maria Cardoso a NOL Jewellers, o projeto de Luísa Bernardes e Nuno Pestana, joalheiros que há mais de duas décadas desenvolvem um trabalho de autor que leva várias gerações, da bisavó à neta, a procurar as suas joias.

“Fazer joias para três, quatro gerações é incrível. É uma grande prova de confiança que aquela família nos está a depositar”, diz Nuno Pestana. “Temos várias famílias com três gerações e há muitos avós a fazer já a pensar nos netos, ou nas futuras netas” conta sentado ao lado da mulher, Luísa Bernardes. Este contacto personalizado com várias gerações da mesma família faz parte do ADN da NOL. Foi assim que começaram. Quem faz a viagem no tempo até à bancada que ambos usavam à vez, em Santa Catarina, é Luísa: “Começámos em 1995. Tínhamos um atelier muito pequenino, fazíamos atendimento privado e por marcação com as amigas das mães, depois as amigas das amigas, as mães, as avós, de repente tínhamos três gerações de clientes. A avó, a filha, a neta, depois a sobrinha procuravam-nos para tudo, desde casamentos, depois peças especiais, para alterações de peças de família que tinham de ser mudadas, e todo o nosso trabalho foi sendo assim desenvolvido”.

Na altura Nuno e Luísa eram amigos e colegas de trabalho. Chegaram a entrar em Arquitetura, mas deixaram o curso para se dedicarem à joalharia. Fizeram um curso profissional e depois várias formações específicas, com alto grau de especialização técnico. “Temos um percurso em conjunto desde os 15 anos, temos 20 anos de união e 25 anos de empresa”, refere Nuno. Nenhum tem historial familiar nesta área e o mais próximo que haverá na juventude eram os pais de uns colegas dele: “Lembro-me de ter amigos cujos pais eram ourives e eu ia às oficinas e aquilo sempre me fascinou. Realmente quando entrei na escola e vi uma oficina percebi que era aquilo que queria. Foi um clique, não sei muito bem explicar porquê, ainda hoje não sei perceber, foi a parte artesanal e manual, a complexidade, foi algo que sempre me seduziu.”

Nas vitrinas da NOL apresentam-se as coleções, muitas delas com peças únicas (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

É para o casal de joalheiros muito importante dominar a parte técnica, para chegar às peças únicas que agora se mostram nas montras da loja do Chiado. Depois da formação inicial, Nuno aperfeiçoou a formação em várias área. “Tirei um curso de prataria que me demorou dois anos a tirar, só técnico, porque desenhamos peças de prata grandes e eu queria perceber a complexidade, a técnica de desenhar as peças e as mandar executar. Não tenho muito tempo para estar duas semanas agarrado a um martelo a fazer as peças, já não dá”, diz. Entretanto a marca cresceu. A NOL Jewellers tem atualmente uma oficina na Lapa com tecnologia de ponta, com seis colaboradores na produção área da produção, todos na casa dos 40 anos. Apesar da aposta que foi feita na tecnologia, os acabamentos são sempre manuais, acentua Luísa. “Isso dá à peça um outro tipo de acabamento, mais real, com mais valor, e que a diferencia em tudo”.

A primeira loja física NOL está de portas abertas, embora só seja inaugurada oficialmente em setembro. É uma nova fase do negócio da empresa, que deu os primeiros passos numa fase muito difícil. “Na altura os jovens eram aprendizes ou empregados, nunca poderiam trabalhar por conta própria. O mercado estava selado”, diz Nuno. “A joalharia de autor estava muito fechada”, completa Luísa.

No piso de entrada da loja do Chiado estão expostas algumas das coleções da marca, como a Heritage ou a Uphondo, no piso superior funciona uma zona mais reservada para o atendimento personalizado. O pouco tempo de loja de rua mostra que os clientes continuam a procurar o serviço à medida. “Cerca de 90 por cento do que tem sido feito neste novo espaço continua a ser o bespoke, continua a haver tendência de fazer algo para o cliente”, refere. Há muito que o casal sonhava com uma loja, mas não queria ser “mais uma” na Avenida da Liberdade nem na Rua Garrett. Queriam o Chiado, e quando surgiu a oportunidade de ocupar aquele espaço, entre a Hermés e o Consulado do Brasil, não hesitaram.

O anel de ouro e diamantes demorou dois meses a ser produzido . Nuno e Luísa trabalham agora nos brincos (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

Na mesa de trabalho do casal está um imponente anel de ouro e diamantes com pedras preciosas, que é uma peça única e demorou dois meses a produzir. Estão agora a trabalhar nos brincos do set. Nuno e Luísa já nem precisam de falar entre si para dar continuidade ao trabalho de um e outro. “Como nós sempre trabalhámos juntos temos uma dinâmica muito própria, não precisamos de falar muito. Desenvolvemos as ideias mutuamente, não há uma peça que seja da Luísa ou seja do Nuno“, diz ele. Luísa explica que no processo criativo “o material vem sempre antes. A conceção vem sempre de um material que já está escolhido, seja uma gema seja um material orgânico, e daí surge a joia.

Apesar de serem dois joalheiros e casados, nenhum dos dois usa aliança há 15 anos. Riem-se. Luísa conta que a primeira a deixar foi ela, porque a aliança deixou de lhe servir e não quis fazer outra porque aquela é que tinha sido benzida. “Eu aproveitei e deixei de usar porque quando estamos sentados à bancada eu não gosto de usar metais”, diz Nuno. Naquele dia Luísa trazia um par de brincos da NOL. “Ela tem uma enorme caixa de joias”, brinca o marido.

Luísa Bernardes e Nuno Pestana na NOL Jewellers do Chiado (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

A NOL Jewellers está na Rua António Maria Cardoso 39 D, no Chiado.


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