No início, havia uma mala com pratas. Hoje, há uma marca de joias exclusivas

Quando começou, pouco ou nada entendia de joias. Aquele era um mundo praticamente desconhecido para Eugénio. Filho de um casal ligado ao calçado, resolveu dar passos noutro sentido. Percorreu o país de Norte a Sul em busca de compradores. A mala ia cheia de joias. A mente, de sonhos. Assim nascia, em 1987, a empresa que hoje gere com a mulher e a filha.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Pedro Granadeiro / Global Imagens

«Quando comecei, não fazia a mínima ideia do sucesso que poderia alcançar. Era um setor praticamente desconhecido para mim, ao qual me fui ajustando», começa por contar Eugénio Campos. Mas naquela altura, ao contrário do que se vive hoje, não eram os produtos diferenciadores e inovadores os que mais se procuravam. «Há 30 anos vendia-se muito do mesmo. Mas mesmo naquela altura tentava ter algo que me diferenciasse. Tentei sempre criar uma estratégia que me levasse a maior diferenciação de mercado», acrescenta.

Naquela altura não havia marcas nacionais. Só se vendiam produtos internacionais. Por isso, introduzir uma marca nacional nas ourivesarias não era fácil. «O setor não estava habituado nem preparado. Foi um processo lento. A marca demorou mais a implementar porque não era uma marca com nome estrangeiro. Era um português, com uma marca portuguesa e com um nome português. Era português a mais para um setor que era tradicional, pouco inovador», recorda olhando para o final dos anos 80.

Neste percurso, desde então, Eugénio contou sempre com uma ajuda tão preciosa como as joias que se propunha vender. «Conheci a Rosa Maria em 1984, antes de fundar a marca», atira Eugénio. Sentada ao seu lado, Rosa Maria continua: «O início foi muito giro, éramos muito jovens, com 20 anos. Ele tem uma veia comercial muito forte. Começou a correr o país com uma mala de pratas, que eu ajudava a selecionar», conta.

Eugénio seguia de ourivesaria em ourivesaria, onde apresentava os produtos para vender. «Foi muito difícil para alguém jovem que conhecia a cidade do Porto e pouco mais», diz Eugénio. Hoje, quase 32 anos depois, a marca está mais do que consolidada.

 

A marca tem oferta para todos os setores, desde a classe média ao setor dito mais premium. (Pedro Granadeiro / Global Imagens)

A Eugénio Campos Jewels é uma marca para todos os bolsos. Vai desde as peças acessíveis à classe média em que o design de moda tem um papel fundamental às peças de alta joalharia, exclusivas e feitas à medida, como por exemplo um colar de 70 mil euros que foi desenhado pelo empresário.

O processo de conceção das joias acontece ali, no renovado armazém no Candal Park, em Vila Nova de Gaia. «Toda a parte do design, criatividade e desenvolvimento conceptual é aqui. A produção pode ser aqui ou em casa das artesãs, no caso da filigrana», explica. Todas estas peças têm sempre a aprovação de Eugénio e de Rosa Maria. E cada vez mais também da filha Rafaela, que gere a comunicação e marketing da empresa. «Desde pequenina que venho para aqui nas férias. Cresci com a marca. Não caí aqui de repente. Fui sempre acompanhando o processo», confessa a jovem de 25 anos.

«Peço cada vez mais opinião à minha mulher e à minha filha, embora ache que a empresa continua muito centralizada em mim. Espero que isso comece a mudar rapidamente. Não quero que gire tanto à minha volta. Quero responsabilizar mais a minha filha. Faz sentido esta passagem de testemunho no sentido de delegar, mas acompanhando», admite Eugénio. A reação de Rafaela é imediata: «É uma responsabilidade muito grande. Temos de ir com calma. Sei que um dia isso vai acontecer, quando estiver mais preparada. Acho que estamos a trabalhar para isso.»

A juventude de Rafaela vem trazer um outro olhar e inovação à marca. Quando foi integrada na empresa, em 2017, a marca lançou duas joias em estado líquido. «Foi um ano muito especial para a marca, celebrámos 30 anos, estamos num novo espaço e criámos algo que fica para a vida. Uma joia seria mais uma no meio de outras. Um perfume é um marco», diz Eugénio.

Ter uma grande variedade de produtos é um dos segredos da marca. Carteiras, sapatos, perfumes são algumas das linhas que fogem ao comum. Até porque «hoje em dia não é fácil definir o que as pessoas efetivamente mais consomem», defende Eugénio. O mesmo cliente pode comprar o escapulário, como o que Rafaela traz no pescoço – e que diz ser especial pois é personalizado -, como uma joia da coleção «Ama-te», lançada recentemente pela marca. «Definir hoje o que o cliente procura é cada vez mais difícil. O importante é oferecer algo que vá ao encontro do gosto do cliente e tentar sempre surpreender», explica Eugénio.

O sucesso da Eugénio Campos Jewels resulta cada vez mais do trabalho de equipa. «Saber trabalhar em equipa não é fácil. E ainda para mais com este ritmo. Mas, cada joia tem o toque feminino da Rosa Maria e da Rafaela, o gosto refinado e a sofisticação da minha mulher. São qualidades de que a marca também bebe», diz Eugénio, acrescentando que a filha, Rafaela, «é claramente uma líder». «É uma das maiores qualidades que desvendei nela. Tem um sentido profissional muito apurado», atira.

Entre a troca de elogios, quisemos saber se os negócios viajam do Candal Park para a mesa do jantar. «Às vezes, sim. Há assuntos mais urgentes que têm de ser tratados e às vezes aproveitamos momento em casa», diz Rafaela. O pai contrapõe: «Tentamos não o fazer. Há períodos do ano em que a quantidade e fluxo de trabalho é tanto que temos de o fazer. Fazemos míni reuniões, mas não nos massacramos a trabalhar em casa», conclui.