Na Rua da Betesga começa a revolução do luxo em Lisboa

Uma montra pop-up de Fernanda Lamelas instalou-se na montra da Ourivesaria Portugal, na rua mais pequena de Lisboa. Enquanto o quarteirão da pastelaria Suíça não entra em obras, procura-se o lenço de seda entre uma amálgama de objetos brancos, numa instalação de Dino Alves. Uma janela para aquilo em que poderá transformar-se aquela zona da cidade.

Texto de Marina Almeida
Fotografias de Filipe Amorim/Global Imagens

Onde está o lenço? Está na montra da ourivesaria. A instalação chegou há poucos dias e inundou de luz a montra lateral da Ourivesaria Portugal, na Rua da Betesga em Lisboa. O lenço é o Neptuno, um pedaço de desenho em seda inspirado nas vizinhas fontes monumentais do Rossio – um dos muitos que Fernanda Lamelas criou nos últimos meses, quando deixou os seus desenhos de Urban Sketcher sair dos cadernos. O resultado são já oito coleções de lenços de seda, mas também gravatas, almofadas, pequenas bolsas e, acabadinhos de chegar, laços. Um conjunto de produtos posicionados para o segmento de luxo, que deverá instalar-se no renovado quarteirão.

Quem o diz é António Moura, sócio e marido de Fernanda. Desde miúdo a caminhar para o escritório do pai, em plena Praça da Figueira, onde atualmente funciona a empresa de ambos e o atelier loja de Fernanda, vê Lisboa a mudar – e quer fazer parte da mudança. “A montra da Ourivesaria Portugal é uma oportunidade que estamos a querer construir. Há uma negociação grande dentro do quarteirão da Suíça, que vai mudar a visão que as pessoas têm da Baixa de Lisboa. Ainda não nos apercebemos da enorme transformação que aqui ocorreu porque este quarteirão continua neste estado de abandono. Quando abrir com um conjunto de lojas modernas à volta e estiver vivo no seu interior, as pessoas vão realmente descobrir que toda a zona da baixa desde o Castelo até Bairro Alto toda mudou”, diz.

Com larga experiência no mundo do luxo pela sua ligação à relojoaria – “foi aqui que nasceu a Omega em Portugal”, lembrou Fernanda a dado momento da conversa – António Moura admite que muitas lojas da Avenida da Liberdade vão reposicionar-se no Rossio. “Este quarteirão é o quarteirão mais emblemático da cidade. Quando aparecer com comércios bonitos, não vai ser com comércios toscos, de repente isto vai ser o ponto central e nós vamos perceber que o verdadeiro centro vai ser o Rossio que sempre foi, depois continuando a subir pelo Chiado. Vamos voltar a ter o passeio que tínhamos há 30 anos ou mais em que o passeio interessante de Lisboa era do Chiado até ao Rossio. Tudo isso envelheceu, o incêndio ajudou à degradação, mas muito já foi recuperado, só falta o Rossio”.

A montra pop-up da Rua da Betesga é, por isso, tudo menos inocente. É uma espécie de farol do que para o que se desenha para o emblemático quarteirão de 12 mil metros quadrados, com comércio de luxo nos pisos térreos e habitação nos pisos superiores. Ali a dois passos deverá nascer um hotel de cinco estrelas, a juntar à já abundante oferta hoteleira da Baixa.

Pormenor de um dos lenços da coleção Serralves de Fernanda Lamelas (Filipe Amorim / Global Imagens)

Bem perto, no primeiro andar do número quatro da Praça da Figueira já começaram pequeninas revoluções. É aqui que Fernanda Lamelas cria as suas coleções de lenços de seda e, desde novembro, recebe mediante marcação os clientes. O espaço foi alvo de obras, que o tornaram mais luminoso e colocaram à vista um pedaço dos frescos da construção original, tapados por anos de estuque. Fernanda artista convocou a Fernanda arquiteta para renovar o espaço.

“Este espaço estava escamoteado, com tetos falsos, e nunca tinha sido usado sem ser para escritório. Havendo esta sala, com uma luz fantástica virado para a Praça da Figueira, pensámos em fazer um conceito de atelier-loja, um espaço que fosse confortável, onde eu me sentisse bem, que ajudasse ao processo criativo, e onde recebesse as pessoas”, conta. Uma das peças centrais é o enorme estirador de madeira, colocado de frente para os janelões. A peça foi do pai de Fernanda, também arquiteto, e depois passou para Fernanda Lamelas. “É o ponto de partida para isto tudo”, diz, enfatizando a forma como ali se juntam as histórias das duas famílias.

A arquiteta, urban sketcher e artista no estirador, local onde cria as suas peças de seda (Filipe Amorim / Global Imagens)

Nas paredes brancas “como um museu”, estão emoldurados alguns lenços de seda. Fernanda Lamelas já criou coleções para o MAAT, para Serralves e, mais recentemente, para o Grémio Literário e para a Loja das Meias. Os desenhos são detalhes de peças ou da arquitetura dos lugares, que desenha em aguarela e depois digitaliza, trabalhando várias combinações de cores. “Sentimos que está aqui um conjunto de lenços que têm a personalidade Fernanda Lamelas. Nós já quase podemos mostrar estes lenços e tapar a marcam, que as pessoas já sabem que é Fernanda Lamelas Arts“, diz António Moura.

Uma das últimas criações da urban sketcher de seda é a vista do Miradouro do Monte Agudo, que se junta aos desenhos da Avenida da Liberdade, do Hotel Valverde, do Palácio das Necessidades e do Palácio Foz na coleção Lisboa. É a coleção mais próxima dos diários gráficos de Fernanda e alguns dos desenhos estão disponíveis em 90X90 (custam 165 euros). A maior parte dos lenços são em 60X60 (120 euros). A artista já tem também disponíveis gravatas (95 euros) e laços de seda.

Lenços Palácio Foz e Valverde expostos nas paredes do atelier da Praça da Figueira (Filipe Amorim / Global Imagens)

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