De músico a chef: Miguel Gameiro serviu-nos os sabores do Oeste e os sons do passado

Lisboa, 07/11/2018 - Viagem de comboio exclusiva com o trajeto Lisboa – Torres Vedras – Lisboa e jantar no antigo Instituto da Vinha e do Vinho – IVV de Torres Vedras. O jantar foi confeccionado pelo chef Miguel Gameiro, músico e embaixador da Cidade Europeia do Vinho 2018. ( Global Imagens )

Se, com os Pólo Norte, estava a aprender a ser feliz, hoje Miguel Gameiro já o é. Foi numa carruagem da linha do Oeste que a DN Ócio viajou ao passado, ao som de algumas das baladas desta banda, pela voz do músico lisboeta. Mas foi também Miguel, que nos serviu um menu inspirado nos produtos da região. Menu esse regado a vinho de Torres Vedras e Alenquer, numa iniciativa que integra o programa da Cidade Europeia do Vinho 2018.

Reportagem de Patrícia Tadeia | Fotorreportagem de Gustavo Bom / Global Imagens

Uma viagem pelos aromas da região e pelos sons do passado. Foi assim que se viveu uma tarde diferente protagonizada por Miguel Gameiro e pelos vinhos e produtos da região. O músico é também um reconhecido chef de cozinha que vai abrir um novo restaurante no próximo mês. A cozinha é uma paixão que sempre teve e que já vinha muito antes dos 18 anos, idade com que viria a fundar os Pólo Norte.

«Já cozinhava muito antes disso, desde miúdo. Mas acho que antigamente estorvava mais do que cozinhava. Estorvava a minha avó e a minha mãe. Em adolescente, comecei a cozinhar cada vez mais. Há cerca de 8 anos decidi fazer formação. Estive na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril estive em França três meses na Ecole de Cusine Alain Ducasse e depois estive em vários restaurantes, entre concertos», explica Miguel Gameiro depois de um dia em cheio.

Já passava da meia-noite quando nos fez o balanço de uma noite em que foi chef e músico em poucas horas. Mas voltemos ao início. A partida de Lisboa, rumo a Torres Vedras, – onde Miguel nos esperava – deu-se por volta das 17h30. Uma viagem num dos comboios da CP, com direito a uma Merenda de Acordeão, brindada com vinhos da região Alenquer e Torres Vedras.

À chegada, esperava-nos uma exposição muito especial. «Grape Land: uma viagem através da identidade do vinho – Vinhos de Lisboa» está patente nas antigas instalações do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), em Torres Vedras. A exposição, inserida no programa da Cidade Europeia do Vinho, conta com dois núcleos, um em cada uma destas localidades, e mantém-se aberta ao público até 31 de dezembro.

A mostra «centra-se no património comum da vinha e do vinho, proveniente da relação do Homem com o seu território durante milénios, e que expressa a sua identidade no conhecimento, saberes, técnicas e crenças ligadas à cultura da vinha e produção do vinho», informa a organização. É nesta exposição, com objetos de história como arados, charruas, cestos, um escarificador, ou um esmagador manual de uvas que ficamos a saber que foi em 1874 que o primeiro vinho português esteve em destaque em Londres.

Seguiu-se uma degustação de um gin artesanal da região: «INseparable», tradicionalmente destilado em alambiques de cobre, é fruto de uma combinação de 36 botânicos e cujo ingrediente primordial é a amizade entre os amigos que fundaram o projeto.

Aproximava-se a hora de jantar e numa das salas do IVV já nos esperava o chef Miguel Gameiro. O menu intitulado «Ir & Vinhas» sugeria um Creme de Cogumelos com Cebolinho, uma Empada de Cachaço de Porco com Castanha, Abóbora, e Creme de Ervilhas; Robalo de Outono, Cozido à Portuguesa e Pera Rocha Bêbada ao vinho Velhos Tempos. A acompanhar, o jantar contou com os vinhos da Cidade Europeia, claro, e o digestivo Old Nosey.

«Grape Land: uma viagem através da identidade do vinho – Vinhos de Lisboa» está patente nas antigas instalações do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), em Torres Vedras.

Depois do jantar, era tempo de rumar de volta à capital, desta vez com uma banda sonora diferente. O acordeão deu lugar à guitarra e à voz de Miguel Gameiro. «Dá-me um abraço», «Lisboa», «Aprender a ser feliz» e «Grito» foram alguns dos temas que o músico tocou no centro da carruagem, na viagem de regresso. «Estou cansado mas feliz – confessou já na capital –, quando posso juntar os meus dois mundos favoritos fico sempre muito feliz.»

«As pessoas perguntam-me muito se a música acabou, pensam que não conseguimos fazer mais do que uma coisa. É possível. Sempre o fiz, os meus estágios profissionais sempre foram no verão. Curiosamente entre concertos. Recordo-me de estar a estagiar com o Rui Paula e o carro passava para me apanhar e seguia para os concertos a Norte», recorda o músico que vive em Torres Vedras há já dois anos. «Apaixonei-me pela terra e pelas pessoas. É uma cidade grande mas onde ainda há a proximidade, a humanização, não se perdeu o sentido das pessoas e eu gosto disso», confessa.

«Apaixonei-me pela terra e pelas pessoas. É uma cidade grande mas onde ainda há a proximidade, a humanização, não se perdeu o sentido das pessoas e eu gosto disso.»

Ainda assim, prepara novos projetos na capital para o início de dezembro. «Vou abrir em breve um restaurante no Casino Estoril. O conceito é casual, boa disposição, ‘Alegria’, daí o nome. Um sítio onde as pessoas se encontram para serem felizes. Mensalmente irei fazer concertos, jantares acústicos, um menu fechado com miniconcerto com convidados», diz. No que toca à música, Miguel prepara um concerto para dia 22 de novembro. «Estarei no Tivoli a apresentar o álbum que lancei em março. Chama-se ‘Maria’, e são duetos com mulheres com quem já trabalhei ou sempre admirei. A Susana Felix, Mafalda Veiga, Mariza, Katia Guerreiro», conclui no fim de mais uma atividade da Cidade Europeia do Vinho.

«São mais de 80 as atividades ao longo deste ano com o objetivo de promover o território e os nossos vinhos. Hoje tivemos aqui um conjunto de amigos e convidados, para um final de tarde diferente na linha do Oeste, linha essa que tem todas as condições para ser uma linha turística», referiu Carlos Bernardes, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras. Já Pedro Folgado, autarca de Alenquer, acrescentou: «Quando pensámos nesta candidatura pensámos em promover o território e um produto milenar e que está cada vez melhor. Tivemos mais atividades ao longo do ano do que tínhamos pensado. Antigamente o vinho era só bebido às refeições, hoje é um néctar que usamos em qualquer altura do dia. E o vinho surge como potenciador das regiões.»