A mesa portuguesa do presidente francês

Emmanuel Macron recebe altas individualidades no Palácio do Eliseu junto a uma mesa de fabrico e design nacional. A peça de mobiliário contemporâneo é da autoria de Toni Grilo para a empresa Riluc. É uma de sete mesas da marca encomendadas pelo governo francês.

Texto de Marina Almeida

Toni Grilo não imaginou ter uma mesa desenhada por si no Palácio do Eliseu. Das mãos do designer lusodescendente saem peças contemporâneas mas a elegante mesa em aço inox, latão e mármore, está no ambiente clássico da residência oficial do presidente francês Emmanuel Macron. Foi uma surpresa – e a consagração da qualidade portuguesa.

«Eu sabia que o Mobilier National [organismo, sob tutela do Ministério da Cultura, que compra peças de coleção para museus ou organismos franceses de renome ] tinha feito uma encomenda. Pensei ‘uau, o Mobilier National compra português, que passo gigante’. Na altura tinha tido uma estagiária francesa e ela voltou para França e mandou-me um mail com uma fotografia de uma reportagem da televisão. ‘É a mesa, é a mesa!’, diz ela», conta Toni Grilo. A mesa é a Basic Low Table, da coleção de 2017 da Riluc e custa 3600 euros. Como não pertence a nenhuma edição limitada, continua à venda.

O designer de 39 anos nasceu em Nancy, cresceu no sul de França e estudou em Paris, na Boulle, uma reputada escola superior de artes aplicadas, que considera muito importante para a sua formação porque «ensina a arte de fazer.» Esta paixão pelas manualidades marcaria o percurso que desenvolveu, primeiro em França, onde foi designer na Christofle e, desde 2001, em Portugal, onde vive. Tem atelier em Matosinhos (atualmente em fase de renovação).

França gosta das mesas portuguesas

A Riluc é uma das marcas para quem trabalha. A colaboração entre o designer e os fabricantes de mobiliário de metal sediados em Santo Tirso começou em 2008. A mesa de apoio que Macron tem na sua sala de trabalho no Eliseu foi encomendada em 2017 com mais três mesas (duas Basic Side Table, da mesma linha, e uma Fenda Round Table). O governo francês terá gostado tanto do produto português que este ano o Mobilier National fez nova encomenda de mesas: mais uma Basic Low Table e duas Basic Side Table. Toni Grilo desconhece onde foram colocadas todas estas peças. Apenas a uma delas não foi difícil seguir o rasto, porque surge em destaque em fotografias e vídeos de audiências do presidente francês.

A Basic Low Table é uma mesa de apoio, de linhas modernas em latão, aço inox e mármore, e está no Salão Dourado, no coração do Palácio do Eliseu. Gabinete de trabalho de todos os presidentes franceses (com exceção de Giscard d’Estaing), o salão oitocentista apresenta uma decoração clássica, pontuada por muita presença da cor dourada – como, aliás, o nome sugere. A mesa desenhada por Toni Grilo foi ali colocada no âmbito de uma remodelação da sala de trabalho do presidente francês, eleito em maio de 2017, conforme é possível perceber pelas imagens do espaço. A mesa de trabalho de Macron, anteriormente posicionada junto a uma enorme lareira do salão, passou a estar colocada junto à janela. Do lado oposto, foi criado um espaço para receber os convidados onde está a mesa portuguesa, envolvida por vários cadeirões dourados de design clássico onde já se sentaram altos dignitários como Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, ou Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, entre outros.

Um designer «viciado em materiais»

As peças do designer português juntam-se a outras de nomes como Philip Stark, Jasper Morrison ou Marcel Wanders, entre outros, lê-se no site do Mobilier National.

A encomenda que chegou ao Eliseu foi apreciada. A Riluc recebeu «uma nota com os parabéns à empresa portuguesa pela qualidade do fabrico, a entrega, a logística.» O designer não sabe se o reparo veio do presidente francês ou da empresa. Em qualquer dos casos, é o reconhecimento da excelência de uma «pequenina empresa portuguesa», diz, satisfeito.

O designer já foi diretor criativo da Topázio, empresa com que continua a colaborar, assim como com a Blackcork, Haymann, Roche Bobois e, futuramente, com a Vista Alegre. Toni Grilo confessa que gostava de ir ao Palácio do Eliseu ver as suas mesas em contexto. No entanto, estas não foram as únicas peças da sua autoria a chegar a «situações de prestígio». Reserva a discrição do destino, deixando apenas saber que algumas peças estão em grandes coleções internacionais e que a família Picasso lhe comprou um espelho.

«Viciado em materiais», gosta de trabalhar em pedra, madeira, cerâmica, vidro ou cortiça. «Um bocadinho de tudo o que temos em Portugal», diz o designer que desde cedo aprendeu o gosto e a importância do detalhe e da manufatura. Visita as fábricas, suja as mãos, não descansa enquanto não aprende como fazer aquilo que a sua imaginação põe em desenho.

«O meu pai é que me incutiu este gosto de fazer bem à mão. Ele dizia ‘tu pensas mas tens de saber fazer se não não podes dizer às outras pessoas para fazer desta maneira’», conta. O pai era jardineiro: «não tem nada a ver mas eu trabalhava com ele e aprendi a importância do fazer.» É no atelier de Matosinhos, atualmente em obras, que trabalha. Está a repensar o processo criativo mas não pensa mudar os materiais de eleição. «Vou apostar mais no lado artesanal.»