Manolo Blahnik: «Não gosto de moda. É um milagre ainda estar neste negócio»

Nasceu nas Canárias, em Espanha, e abriu a primeira sapataria em Londres, há mais de quarenta anos. Muita coisa mudou desde então, mas Manolo Blahnik continua a ser um dos mais famosos designers de calçado do mundo – a par do francês Christian Louboutin e do malaio Jimmy Choo. Os sapatos de senhora que cria tornam-se obras de arte – e agora desenha também para homem.

Entrevista de Alain Elkann/The Interview People* | Fotografias Getty Images

Começou a pensar em sapatos quando era criança, a brincar com lagartos nas ilhas Canárias?
É verdade, em criança costumava fazer sapatos para os lagartos a partir das embalagens de chocolate. Só alguns anos mais tarde, quando conheci Diana Vreeland [diretora da Vogue, morreu em 1989], é que voltei aos sapatos.

O espanhol ainda é a sua língua?
O meu espanhol está enferrujado. Agora que não tenho pais ou amigos vivos, o inglês é a minha língua. Falo inglês com a minha sobrinha Cristina, que trata da operação empresarial.

Há quanto tempo está no mercado?
Comecei em 1971 em Nova Iorque porque a Diana Vreeland enviou-me ao [designer de malas e acessórios] Henri Bendel depois de ver os meus desenhos. Para ser honesto, eu queria fazer design de teatro, mas hélàs, ela disse-me que eu deveria fazer sapatos. Comecei em Londres com duas mil libras e a minha primeira loja foi na Old Church Street, em Chelsea.

Foi um sucesso?
Sim. Fui convidado pelo designer Ossie Clark a fazer sapatos para o seu desfile. Fiz sapatos com saltos altos. Fui ter com o Michael Turner, um fabricante, e perguntei-lhe: «Pode ajudar-me a fazer estes sapatos?»

Qual é o segredo do seu sucesso?
Tentei, tentei, tentei.

Algum dos seus sapatos é icónico?
É aquele a que se chama Hangisi. São sapatos clássicos.

Gosta de usar cores?
Sim, gosto muito de cores, de mudá-las, de misturá-las. Às vezes, não é muito prático. Neste momento, gosto de saltos mais baixos. Nos anos 1960, a [atriz e modelo] Peggy Moffitt, grande amiga do fotógrafo William Claxton, gostava de sapatos assim. Os árabes e as pessoas do Médio Oriente gostam especialmente de saltos altos. O que eles querem agora são sapatos com fivela.

Tem uma cor preferida?
Adoro azul-bebé.

Onde vende mais?
Nos EUA, em Los Angeles e Nova Iorque. Depois, em Hong Kong e na Europa.

Quantos sapatos produz num ano?
São seiscentos por estação, quatro desfiles por estação.

Quantas lojas tem?
Temos 309 pontos de venda, dezasseis lojas, e acabámos de abrir uma em Genebra.

Os seus sapatos são caros?
Não sei. Não sei sequer o meu número de telefone e não sei quem compra os meus sapatos. Claro que faço sapatos para [o pintor] David Hockney, [o músico] Brian Ferry, [o artista] Peter Schlesinger e por aí adiante.

Quanto custa um par dos seus sapatos?
Mais ou menos 500 libras [cerca de 560 euros], exceto se forem de crocodilo. As pessoas são julgadas pelos sapatos. Isabella Blow [editora de moda da revista Tatler], dois dias depois de comprar os sapatos… partiu-os. Adoro sapatos usados. As mulheres adoram saltos mais do que tudo.

Já tem sucesso há bastante tempo.
Daqui a dois anos será o meu 50.º aniversário de carreira. Não sigo modas, de maneira nenhuma. Não gosto de moda. Se vejo moda, farei o oposto. É um milagre ainda estar neste
negócio [risos].

Onde trabalha?
Desenho em casa. Ao lado da cama tenho tintas e lápis e desenho com um lápis Staedtler 3D.

Trabalha com pessoas ligadas ao mundo da moda?
Sim, com a designer inglesa Grace Wales Bonner. Adoro trabalhar com gente nova, estão sempre entusiasmados.

Quem eram os seus costureiros preferidos?
Primeiro que todos, Yves St. Laurent, que foi sempre muito simpático comigo. E o [empresário e companheiro de St. Laurent] Pierre Bergé também. Outros são o Azzedine Alaia e o Christian Lacroix.

Os seus sapatos são para uma idade específica?
Os meus sapatos são para todas as idades. Os miúdos adoram sapatos [clássicos] tweed, porque o tweed está sempre na moda. Gosto dos fatos tweed que mandei fazer há quarenta anos na [alfaiataria] Anderson & Sheppard e espero vesti-los até conseguir pagar um novo.

Faz os seus próprios sapatos?
Sim, uso oxfords e derbys e sandálias no verão. Sapatos coloridos, amarelos, azuis, rosa. E na Rússia usei uns vermelhos, com meias vermelhas, fato vermelho e camisa vermelha.

Está a abrir a sua primeira loja para homens no Burlington Arcade, em Londres. Que tipo de sapatos vende?
Um estilo é feito de ráfia, em Marrocos, o único lugar onde os fazem. Têm sapatos clássicos e sandálias. Sapatos de homem e de mulher não gostam de estar juntos. Os homens precisam de uma loja só para eles e de ter o seu espaço.

Tem um amor especial pela cidade de Londres?
Sim, ainda amo Londres, mas preocupo-me com o que vai acontecer seguir ao brexit.

O que irá acontecer?
Não sabemos, mas adoro a minha casa em Bath. Não quero sair de Inglaterra. Sou um residente permanente, mas sou espanhol. Claro que poderia ter um passaporte inglês, mas para quê? Estou velho, mas não me sinto nada velho.

Quem são os outros designers de sapatos que admira?
Adoro o Pietro Yantorny, um designer italiano. O meu maior amor de todos é o André Perugia e o Salvatore Ferragamo. Os italianos são de longe os melhores designers. Também há alguns novos como o Nicolò Beretta, da Giannico, que é muito bom. E ainda o francês Pierre Hardy, que faz sapatos para a Hermès.

O que é, para si, uma mulher elegante?
Não tem que ver com o que veste. Tudo tem que ver com a forma como se mexe, o corpo, o pescoço, as mãos.

Em última análise é um designer?
Sim, também faço design de livros. A [editora] Penguin pediu-me para fazer Balzac e Flaubert. Fiz o design para a capa de Madame Bovary, de Flaubert, para a Penguin. A partir daí toda a minha coleção foi sobre Madame Bovary. Noutro ano toda a minha coleção foi sobre Lampedusa.

Diz-se que gosta de cinema.
Sim, gosto de cinema e, especialmente, de filmes de Hollywood e italianos da década de 1960. Por exemplo, L’Avventura, de [Michelangelo] Antonioni. Também gosto do filme Io Sono l’Amore, de Luca Guadagnino, que foi rodado na Villa Necchi, em Milão. A protagonista é a linda Tilda Swinton, mas também lá está a fantástica Marisa Berenson. É uma das melhores atrizes europeias.

As coisas mudaram muito no seu negócio ao longo dos anos?
Claro que sim, agora há a Nike e a Adidas.

Tem concorrência?
Nos sapatos masculinos talvez venha a ter.

Para onde vai de férias?
Não gosto de fazer férias. Costumava ir a St. Tropez quando era novo, na companhia alguns amigos, mas agora já não gosto deles. Se tenho tempo, vou às ilhas Canárias, mas não vou muitas vezes. Gosto muito de ir a Madrid, onde tenho uma pequena loja.

Ainda gosta do que faz?
Gosto muito é de sapatos.

*Tradução de Ricardo Santos