Joana Lemos e os sapatos que estão a conquistar o mundo

A tradição já não é o que era. Os sapatos clássicos – como os conhecíamos – deram lugar ao reinventado e personalizável. Mais divertidos, e acima de tudo únicos. Assim é o Freakloset, de Joana Lemos.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Paulo Spranger/Global imagens

Foram muitos os quilómetros que Joana teve de percorrer até poder usar o primeiro par do Freakloset. Aliás, foram milhas, porque afinal, a ideia que nasceu em Barcelona foi crescendo com a fundadora, na passagem por Nova Iorque, para depois ser colocada em prática no regresso a Portugal.

«Abri a empresa em setembro de 2014, mas já estava a fazer o projeto há cerca de um ano, juntamente com o meu mentor. A minha formação base é Gestão, nunca foi moda ou design de calçado. Mas sempre adorei sapatos», começa por contar Joana Lemos que embora ainda não o soubesse na altura, tem uma forte ligação à área do calçado: «Quando apresentei o projeto à minha família foi numa conversa com o meu avô que percebi que o meu bisavô e trisavô eram sapateiros. Não fazia ideia. Nunca tive uma ligação especial à área, achava eu, e agora acabou por se tornar na minha vida

Uma vida que já leva quase quatro anos de sucesso. Se foi na Europa que o conceito nasceu, quando Joana preparava a tese de mestrado/plano de negócio no curso de Marketing na ESADE, em Barcelona, foi para o mundo que se expandiu.

«Já vendemos para mais de 25 países. Temos ainda o showroom aqui em Lisboa, e estamos em lojas em Paris, Polónia, Roterdão e Seattle. Estamos neste momento a negociar também com lojas na Austrália», enumera a fundadora e CEO da marca.

Para a divulgação da marca fora de portas contribuiu em muito a presença na Semana de Moda de Londres, em janeiro de 2017. «A receção foi incrível, a marca com quem fizemos a parceria, a Sibling, não tinha calçado, e para eles foi fantástico ter uma marca em que podiam customizar tudo. Os nossos sapatos tinham as cores da coleção deles. Foi aí que demos o salto internacional. Até aí vendíamos mais para Portugal. Agora essas percentagens já estão invertidas, vendemos 60% para o estrangeiro. Mas Portugal continua a ter uma fatia bastante grande das nossas vendas mensais», conta

Joana que fez o percurso inverso ao de qualquer jovem trabalhador. Começou a trabalhar, fundando logo uma empresa. E claro que no início, o medo era uma constante: «Foi um pouco duro, foi um percurso solitário, não conhecia ninguém na área do calçado. Tive muitas dúvidas, mas aprendi muito sozinha. Estes últimos quatro anos valem muito mais que todos os cursos que fiz

«Foi numa conversa com o meu avô que percebi que o avô dele e o pai dele eram sapateiros. Não fazia ideia. Nunca tive uma ligação especial à área, achava eu.»

Mas vamos ao que interessa. Que sapatos são estes que são já um sucesso lá por fora? «O conceito do Freakloset é reinventar os clássicos, mas com um traço mais contemporâneo e confortável. Sentia que não havia oferta suficiente na customização de calçado. Sempre gostei de peças diferentes, mas sobretudo sentia alguma dificuldade quando queria conjugar sapatos com peças que já tinha antes. E visitava frequentemente sites de personalização de calçado, mas sentia sempre que ou tinham demasiadas escolhas e era um processo demasiado confuso, ou os tempos de entrega eram enormes. Nos sites, os softwares eram pouco fiáveis, não conseguia ter ideias realistas de como seria o sapato», conta Joana, que assim traçou um projeto: «Juntei todas as falhas que encontrava no mercado e criei uma marca que desse resposta a isso mesmo, o Freakloset

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Assim nascia uma marca que, com software simples, «user-friendly» e intuitivo, permite, em poucos segundos, criar um sapato customizado, escolhendo as cores de cada material. A partir daí o cliente espera entre 10 a 15 dias úteis até receber os sapatos em casa.

Sapatos esses que, de acordo com Joana, têm como primeira mais-valia a customização. «A pessoa poder criar um sapato só para si, relacionado com o seu estilo, com a maneira como se veste, as cores que mais usa é a principal mais-valia. Depois é o conforto. Os nossos sapatos – e agora temos as sapatilhas – eram construídos quase como ‘sneakers’, daí os calcanhares de neoprene e acolchoados. A ideia era criar um look clássico mas a pessoa poder andar todo o dia com o sapato, ser um sapato que para além de ser versátil a nível de estética, fosse também versátil a nível de usabilidade», explica a fundadora da marca.

«Juntei todas as falhas que encontrava no mercado e criei uma marca que desse resposta a isso mesmo, o Freakloset.»

Aliás foi o triângulo junto ao calcanhar do sapato, criado com a intenção de o tornar confortável, que se tornou a imagem da marca. «Queria que o design do produto falasse por si, um bom produto com bom design não precisa ter o logótipo estampado. E quando o design é pensado, acaba por ser reconhecido. Sem ter de dizer que é Freakloset as pessoas reconhecem, e isso era o grande objetivo era que o design da peça falasse por si», diz Joana.

A marca Freakloset apresenta-se com uma linha muito simples, mas ao mesmo tempo muito característica: «Ao mesmo tempo que somos uma tela em branco para o nosso cliente, acabamos por manter a nossa identidade.»

«Quando o design é pensado, acaba por ser reconhecido. Sem ter de dizer que é Freakloset as pessoas reconhecem.»

E a criatividade não descansa nesta empresa. Joana está sempre a idealizar novos modelos. «Estamos a desenvolver um chinelo ‘sneaker’, que em princípio ainda vai sair este verão. Vão também sair duas novas botas no final do ano, e vamos também fazer uma linha de sapatos com sola em couro», enumera. E para os novos modelos, o mesmo processo.

Joana confirma que há um contacto diário com a fábrica em São João da Madeira, e que, quando tem um modelo novo finalizado, o mesmo é enviado para o Norte a fim de obter o primeiro protótipo. É aí que toda a equipa do Freakloset testa os sapatos: «É testado por nós, pedimos a membros da nossa família, testamos o conforto, altura, palminhas, peles, tudo… quando achamos que temos o produto finalizado, a fábrica faz o protótipo final. E iniciamos a produção.» Um processo que se tem repetido ao longo dos últimos quatro anos e que em breve pode ser replicado para peças de roupa. Passo a passo. Pé ante pé. Rumo ao sucesso do que é único e personalizável.