IADE: a escola de portas abertas faz 50 anos

Se fosse um objeto, o IADE poderia ser uma máquina do tempo. A primeira escola de design em Portugal cumpre meio século. Do cruzeiro à ex-URSS onde o fundador António Quadros encontrou a inspiração para criar o instituto pioneiro, rodeando-se dos grandes mestres de pintura, arquitetura e desenho, até aos dias de hoje, com a tecnologia de jogos de computador, são cinquenta anos de experimentação, arrojo e inovação.

Texto de Marina Almeida

Quando o IADE abriu as inscrições, não havia nada dentro do Palácio Quintela, no número 70 da Rua do Alecrim, em Lisboa, mas a fila de gente que dormia na rua a guardar lugar chegava ao Cais do Sodré, umas dezenas de metros abaixo. “Os professores eram grandes nomes da arte, da arquitetura, e na altura não havia mais cursos. As inscrições esgotaram no mesmo dia.” Mafalda Ferro, filha do fundador António Quadros, ainda hoje se interroga como é que o pai conseguiu pôr o IADE a funcionar. “É um mistério”, repete.

“O meu pai entrava em casa, sentava-se à secretária a escrever, não ouvia a minha mãe, estava sempre no mundo dele. Como é que ele conseguiu pôr os pés no chão e fazer o IADE chegar onde chegou?” Trabalhava nas bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian, era um intelectual, não passava pela cabeça da família que “pudesse ser um empreendedor”, que conseguisse mover meio mundo, enfrentar burocracias, mobilizar os amigos, arranjar financiamento e criar uma escola. Mas conseguiu. Foi há cinquenta anos – e entretanto o Instituto de Arte e Decoração cresceu e multiplicou-se.

António Quadros, fundador do IADE

A ideia de criar uma escola de artes em Lisboa começou a germinar num cruzeiro à Rússia em 1969. António Quadros viajava sozinho, como toda a vida faria durante um mês por ano. Gostava de cruzeiros, porque o tempo das viagens de barco permitia-lhe pensar, refletir. Não era, também, homem de alimentar grandes conversas com desconhecidos. Mas foi nesta viagem que conheceu Francisco Carralero Saiz e António Perez de Castro, proprietários do IADE espanhol (a Institución Artes Decorativas, com filiais em Madrid, Barcelona, Bilbau, Granada e Canárias) e há de ter falado tanto com eles que, no regresso a Lisboa, começou a germinar a escola. Para isso viajou por outras escolas de artes e design internacionais, desafiou os amigos de várias áreas, como Lima de Freitas, Manuel Costa Cabral ou Manuel Lapa para dar as aulas. E também arregimentou sócios.

“O meu pai estava sempre no mundo dele”, diz Mafalda Ferro, filha do fundador António Quadros. “Como é que ele conseguiu pôr os pés no chão e fazer o IADE chegar onde chegou?” Era um intelectual, não passava pela cabeça da família que “pudesse ser um empreendedor”.

Manuel Sebastião de Almeida de Carvalho Daun e Lorena, bisneto de António Carvalho Monteiro e futuro nono marquês de Pombal, amigo de família, junta-se ao projeto arrendando o Palácio Quintela [atual Palácio Chiado, espaço de restauração] “a preço de amigo”. Manuel Ferreira Lima, advogado, tio de Mafalda, recebe as primeiras reuniões no seu escritório e ajuda a preparar os processos legais. Os espanhóis do IADE e a cunhada Conceição Roquette também integram o grupo inicial. Mafalda Ferro recorda-se de que cada um deveria contribuir com vinte contos (com exceção do marquês), mas o sucesso das inscrições foi tal que, provavelmente, já não foi necessário o investimento.

Os ecos do novíssimo Instituto de Arte e Decoração correram como um rastilho no Chiado, no boca a boca, em anúncios na imprensa e na telefonia. Ana Iglésias foi uma das que ouviram na rádio o anúncio do curso de decoração e foi saber o que era. Estava há seis anos na Escola António Arroio, e se seguisse Belas-Artes, “eram mais quatro anos da mesma pintura” que já dominava. “Custava uma pipa de massa, 600 escudos. Eu ganhava nas agências de publicidade em part-time mil escudos. Sobravam 400.” Mas inscreveu-se, fez o curso e ficou como professora. De 1972 até hoje.

O IADE abriu com o curso de decoração e três cursos livres: fotografia, cerâmica, desenho e pintura. Posteriormente arrancou o curso de Design de Interiores e Equipamento Geral, inspirado no modelo de Arts&Crafts anglo saxónico e na escola de Milão.

Tem 69 anos e energia para dar e vender. Lembra-se bem de António Quadros, o fundador e professor de História de Arte de várias gerações de iadistas. “O Dr. Quadros punha sempre os slides ao contrário e nós víamos assim”, conta inclinando-se na cadeira a mostrar como uma turma inteira via as imagens projetadas de lado. Eram as fotografias das viagens solitárias que o professor fazia pelo mundo e estão hoje na fundação com o seu nome, em Rio Maior. Milhares de slides que Mafalda Ferro gostaria um dia de ter devidamente catalogados.

Carlos Rosa, diretor do IADE. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

A professora Ana Iglésias, que neste semestre está a lecionar Desenho de Comunicação Visual, é uma espécie de história viva do IADE. Conheceu todos os professores, os mestres, que inauguraram a escola. “Eu tive o Lima de Freitas [primeiro diretor do IADE, autor do logótipo] como professor, que tinha como assistente o Manuel Costa Cabral. O Lima era muito acessível.” Também teve aulas com Artur Rosa, Eduardo Nery, o mestre [Manuel] Lapa ou Trigo de Sousa, um “arquiteto gorduchinho que não cabia entre as mesas”. Não havia cá doutores nem mestres de mestrado, diz Mafalda Ferro. João Vieira e David Mourão-Ferreira também integraram o corpo docente inicial, a que se juntariam mais tarde nomes internacionais como os designers italianos Bruno Munari ou Attilio Marcoli. Eram mestres de mestria, de excelência da arte, e essa porventura foi uma das grandes marcas do arranque do IADE.

Era gente com dinheiro

Ana Iglésias diz, meio a brincar, que as alunas eram “as senhoras velhas, com dinheiro, sem nada que fazer. Os psicanalistas ainda não existiam. Era o IADE que fazia isso. Era uma terapia, um curso de decoração, jarrinhas para pôr na mesa”. E ela, quando começou, era mais nova do que as suas alunas.

O IADE abriu com o curso de Decoração e três cursos livres: Fotografia, Cerâmica e Desenho e Pintura.

António Quadros (filho de António Ferro, responsável pela propaganda do regime de Salazar) dinamizou uma escola que se revelou de excelência e com uma longevidade que chega aos dias de hoje – após ter entretanto passado de mãos. Tinha sempre a porta do gabinete aberta, e isso também fez escola e marcou gerações. “O que ele queria era uma escola de artes com um estilo de ensino humanista”, diz a filha. Queria proporcionar aos alunos mais do que uma passagem curricular.”

O IADE abriu com o curso de Decoração e três cursos livres: Fotografia (coordenado por Manuel Costa Martins), Cerâmica (Rafael Salinas Calado), e Desenho e Pintura (Lima de Freitas e Manuel Lapa). Posteriormente arrancou o curso de Design de Interiores e Equipamento Geral, inspirado no modelo de Arts&Crafts anglo-saxónico e na escola de Milão, que Quadros também visitara. É um curso de três anos, de largo espectro, como reconhecem muitos dos alunos que por lá passaram.

José Maria Ribeirinho chegou ao Palácio Quintela no segundo curso do IADE. “Era o primeiro curso em Portugal que tinha cadeiras de Design. Eu tive uma cadeira de Design Visual e de Design de Equipamento.” Recorda os grandes mestres de artes e as aulas eram muito abertas, muito comunicativas.

“Trabalhávamos em grupo, que era uma coisa inédita na altura”, diz lembrando que ainda não tinha acontecido a revolução de abril de 1974. O curso passava muito pela arquitetura, recorda o diretor de arte do Diário de Notícias entre 1988 e 2004 – e foi por isso que escolheu ir para o IADE. Ma s veio a tropa, a arquitetura ficou esquecida e virou-se para o design de comunicação. “Pediam-me logótipos, maquetas de brochuras, de revistas, depois acabei nos jornais e nas revistas.” Ainda voltou ao IADE em 2009 para concluir a licenciatura (nos primeiros anos, esse grau académico não existia), onde esteve numa turma com alunos da sua época. Em 2012 foi distinguido com o Prémio Carreira do IADE.

“Dos 2500 alunos, cerca de 200 são internacionais residentes e 120 a 150 por semestre são de Erasmus”, diz o diretor, Carlos Rosa.

EM 1973, ANTÓNIO QUADROS assume a direção da escola, com a saída de Lima de Freitas e Manuel Costa Cabral, que vão fundar o Ar.co (Centro de Arte e Comunicação Visual) – continuaram amigos, assegura Mafalda Ferro. É neste ano que abre o IADE Porto. Quadros torna-se administrador, diretor, professor de História de Arte e de Cultura Portuguesa.

Em cinquenta anos de história, o IADE reflete o que se passa no país. Com o 25 de Abril, a escola do Porto foi tomada pelos professores, que aumentaram os salários, diminuíram as propinas – e o polo acabou por fechar. Em Lisboa, o IADE ficou sem alunos. A maior parte oriundos de famílias abastadas, emigraram para o Brasil e Espanha. “O Dr. Quadros despediu-nos a todos e eu, que já era revolucionária, disse que ele não podia despedir ninguém e fomos todos readmitidos, mas descontávamos 10 ou 15 por cento do ordenado para a escola”, conta Ana Iglésias. “Não tínhamos alunos e víamos as manifestações todas a passar na Rua do Alecrim à janela. Viravam-se para nós e chamavam-nos fascistas, porque julgavam que éramos donos do palácio!”

Em cinquenta anos de história, o IADE reflete o que se passa no país. Com o 25 de Abril, a escola do Porto foi tomada pelos professores, que aumentaram os salários, diminuíram as propinas – e o polo acabou por fechar. Em Lisboa, o IADE ficou sem alunos.

A máquina do tempo deixa-nos nos anos 1980, altura em que a decoradora natural da Madeira Nini Andrade e Silva chega ao IADE. Recorda os tempos em que subia e descia o Chiado para ir à escola. Veio estudar para Lisboa e foi viver com o irmão, que estudava Arquitetura Paisagista. “Éramos muito novos.” Vem para o famoso curso de Design de Interiores e Equipamento Geral, que abrangia várias áreas. Nini já tinha em mente o design de interiores, ideia que consolidou na escola. “As aulas nem pareciam aulas. Os professores eram fantásticos, a escola também. Se voltasse atrás fazia a mesma coisa”, diz a decoradora reconhecida dentro e fora do país, Prémio Carreira do IADE em 2010. “Lembro-me da aula de quando começámos a pintar o modelo nu, e para nós era uma grande confusão ter uma pessoa nua dentro da sala, mas é engraçado que nas aulas seguintes já não fez confusão nenhuma.”

Um ano antes, foi a carreira de Carlos Coelho que a escola reconheceu. O atual presidente da Ivity, especialista em gestão de marcas, confessa que o reconhecimento foi importante até porque não foi um prémio a que se candidatou – como muitos que já recebeu no percurso profissional. “Tem um sabor especial, até porque eu não era um aluno exemplar, chumbei um ano, era rebelde, punha em causa.” Frequentou o IADE entre 1981 e 85, numa altura em que “o design era uma ciência oculta” e despertou para a valorização do mundo das marcas. Ainda na escola, criou com um colega a primeira empresa. Dos professores, recorda António Quadros, mas também o arquiteto Duarte Nuno Simões, que dava uma cadeira de Arquitetura de Interiores, com quem não tinha uma relação especial, e que lhe ensinou algo que nunca mais esqueceu: “Para nós conseguirmos que alguma coisa tenha o sentido que nós quisermos, temos de dar pontos de referência suficientes aos outros. Se eu quiser que suba uma escada, tenho de fazer a escada e dar referências visuais suficientes para que os nossos olhos, a relação que temos com os espaços me permitam fazer essa trajetória com conforto, com simplicidade.” Transporta a teoria na atividade profissional desde sempre. “Não me esqueço.”

Aula de desenho com modelo nu. (Fotografia IADE)

Em 1986 é criado o Curso de Design de Moda, coordenado por Ernesto Melo e Castro, e o curso de Técnicas de Publicidade, com Fernando Garcia. Mafalda Ferro lembra que a escola começou a promover passagens de modelos em vários locais da cidade, como a Gulbenkian, Convento do Beato ou Planetário. Pelo curso de Design de Moda passaram nomes como Isilda Pelicano (Prémio Carreira do IADE em 2011), Alexandra Moura ou Filipe Faísca.

Os anos 1980 marcam ainda o início da passagem de testemunho de António Quadros para o filho António Roquette Ferro, que começa a trabalhar na escola. Em 1987 chegará a diretor adjunto, dois anos depois passa a diretor-geral e em 1992 assume a direção da instituição. Um ano depois, o pai morria, a 21 de março – que se tornaria anos mais tarde o Dia do IADE.

EM 1997 CHEGA CARLOS ROSA. Veio inaugurar o edifício da Avenida D. Carlos I, o “Totobola” da autoria de Tomás Taveira, que ainda é a atual morada da escola. Fez a licenciatura em Design, que conclui em 2000, “no boom da criatividade”. É convidado para dar aulas, que acumula com o trabalho nos ateliers. Hoje é o diretor do IADE. Entre as grandes diferenças do tempo de aluno para agora, assinala a presença de estudantes estrangeiros. “Nos 2500 alunos que tem, cerca de 200 são internacionais residentes e cerca de 120 a 150 por semestre são de Erasmus.” E a introdução do curso de fotografia (“até então havia duas grandes áreas que eram o design e o marketing e publicidade”) e os computadores. “Toda a gente tem computador, o portátil passa a ser uma extensão do corpo, como o telemóvel. O problema agora é o wifi. E o número de tomadas na parede. Hoje o pré-requisito para que todas as universidades funcionem bem é a rede e a eletricidade.”

A tecnologia trouxe novos desafios à estrutura dos cursos. Atualmente, o IADE – que em 2017 foi integrado na Universidade Europeia – tem uma oferta letiva de nove licenciaturas, seis mestrados, três pós-graduações e um doutoramento (em Design). Três das licenciaturas são globais, o que significa que são cursos que têm uma propina mais elevada, lecionados em inglês, com uma mobilidade obrigatória.

A estrutura curricular dos três anos de estudos é orientada para um projeto. “Funciona numa lógica de project base learning. Todas as cadeiras trabalham para a cadeira de projeto e os alunos têm períodos de imersão”, explica Carlos Rosa. A propina custa 6500 euros por ano e o curso tem uma abrangência diferente: “Quando cortamos a fatia sentimos os sabores todos do bolo.”

Os ecos do novíssimo Instituto de Arte e Decoração correram como um rastiho no Chiado, no boca a boca, e em anúncios na imprensa e na telefonia.

Numa aula do primeiro ano de Design Global, o professor Vasco Milne mostra os objetos que saem da oficina de prototipagem. Na sala ao lado, um alunos de programação de jogos apresenta o trabalho à turma. “Têm todos emprego garantido”, diz o diretor. Estes cursos com sabor são o de Design Global, Desenvolvimento de Jogos e Aplicações e Tecnologias Criativas – são cursos em expansão, diz Carlos Rosa. “Um colega nosso disse uma coisa de que me apropriei: há mais cadeiras do que rabos, chega de design de produto. Vamos pensar noutro tipo de formas de sentar, de estar, de habitar, de usufruir dos espaços e dos objetos.” O salto para as áreas tecnológicas acentuou-se com a integração na Universidade Europeia. E, quase no extremo oposto, apostaram na criação de ateliers de artes artesanais, como serigrafia, tipografia, gravura, fotografia ou cerâmica – que, garante, estão a ser um sucesso.

Carlos Rosa senta-se no gabinete com janelas quebradas pelo X do Totobola. Na parede tem o primeiro poster que saiu da oficina de serigrafia (a 16 de novembro de 2018), em cima da estante um conjunto de objetos tecnológicos arcaicos, como um Spectrum, um Machintosh de 1984 com a disquete de arranque ou um Gameboy que funciona, e onde Carlos joga Tetris para descomprimir. Na parede um manifesto, escrito em inglês e português, em que se grafa a missão de “criar profissionais globais”.

Quando o IADE abriu as inscrições, não havia nada dentro do Palácio Quintela, no número 70 da Rua do Alecrim, em Lisboa, mas a fila de gente que dormia na rua a guardar lugar chegava ao Cais do Sodré, umas dezenas de metros abaixo.

Nessa parede está um nariz, que Carlos admite que pudesse ser um objeto que simbolizaria o IADE. Depois reflete e disse: máquina do tempo! O IADE pode ser uma máquina do tempo. “Só eu é que estou a envelhecer, os alunos têm sempre a mesma idade, eu tenho sempre um ano a mais. E porque os miúdos entram e nós ajudamos a projetar o futuro deles, do país, do mundo dos objetos, aqui dentro.” Máquina do tempo? Agora é desenhá-la. “Sim, estamos na escola certa.”