90 anos de arquitetura brasileira para ver em Matosinhos até setembro

(Pedro Correia/Global Imagens)

Ainda tem um mês para ir até à Casa da Arquitetura, em Matosinhos, conhecer 90 anos da arquitetura brasileira. Mais do que história, a exposição Infinito Vão é o resultado de um hercúleo trabalho de pesquisa, acervo e arquivo que se mostra, ao som de Chico, Caetano, Jobim ou Gilberto Gil, que inspirou o nome da mostra, numa canção de desamor.

Texto de Marina Almeida

Não há catálogo que substitua uma visita à Casa da Arquitectura (assim mesmo, com c, sem acordo ortográfico). Catálogo não canta debaixo dos infinitos vãos, esses marcos da visita à exposição que relata a história da arquitetura brasileira ao longo de 90 anos. Catálogo não abana a anca, enquanto vê os projetos, as fotos, os esquissos ou as maquetes do fabuloso Oscar Niemeyer (porventura o mais conhecido dos arquitetos brasileiros), nem de de Paulo Mendes da Rocha. Catálogo não mostra a possante moldura de vidro assente em madeira – ali mesmo, parece suspensa – desenhada por Lina Bo Bardi para o icónico Museu de Arte de São Paulo (1968). A exposição Infinito Vão mostra. E dança.

Inaugurada em setembro de 2018, Infinito Vão viu a sua exibição prolongada até 8 de setembro de 2019. Esta é a primeira grande mostra do arquivo da arquitetura brasileira da instituição sediada em Matosinhos, que mais que mostrar, quer também arquivar e dar a conhecer todo o trabalho dos arquitetos. Para o seu diretor, Nuno Sampaio, é um bom exemplo do que ali se pretende fazer: Infinito Vão resulta de três anos de trabalho no terreno, com uma equipa sedeada em São Paulo, dois curadores – Guilherme Wisnik e Fernando Serapião – e advogados. “Foram aos ateliers ver o conteúdo material e depois uma outra equipa fez a inventariação de tudo para levar ao governo brasileiro para que o material pudesse vir para Portugal, deixasse de ser um objeto brasileiro e passasse a ser um documento português. Fizemos os necessários contratos com todos os arquitetos ou famílias dos arquitetos. Foram mais de 200 contratos que nós assinámos. Os nossos advogados reconheceram a minha assinatura em notário mais de 225 vezes!”, conta Nuno Sampaio.

Apesar da ambição desta exposição, com 90 anos de arquitetura, 90 projetos em exposição e referência a 136 arquitetos, Infinito Vão representa uma ínfima parte da coleção que atravessou o Atlântico. “O que mostramos é apenas 1,5% de todo o material que está aqui guardado”, explica.

A vocação de arquivo vivo da Casa aqui fala e canta brasileiro. Cada módulo da exposição, que está dividida em seis núcleos – de 1924 a 2018 – é pontuado com vídeos de época e música a preceito. Aliás, o nome da exposição vem do tema Drão de Gilberto Gil: “O verdadeiro amor é vão/Estende-de infinito/Imenso monolito/Nossa arquitetura”. Nuno Sampaio explica-o quando fazemos a curva de betão, que leva à exposição no primeiro piso.

“A Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitetura para além de arquivar o arquiteto A, B. C, quer arquivar perspetivas transversais sobre um determinado território, num determinado tipo de arquitetura e com curadoria. E o primeiro é no Brasil. A música de desamor do Gilberto Gil que abre a exposição, a partir da qual saiu o nome Infinito Vão, diz que todo o amor é vão, imenso monolito, nossa arquitetura”, explica.

Inaugurada em novembro de 2017, a Casa da Arquitectura instalou-se nos edifícios da Real Vinícola, em Matosinhos. O espaço foi alvo de intervenção para receber o museu e arquivo, um projeto do arquiteto Guilherme Machado Vaz. A Câmara Municipal de Matosinhos tem sido a única entidade pública a financiar a instituição. Em junho, a ministra da Cultura anunciou anunciou um apoio de 250 mil euros à Casa da Arquitectura no âmbito da promoção da arquitetura contemporânea portuguesa.

Infinito Vão – 90 anos de arquitetura brasileira
Casa da Arquitectura
Avenida Menéres, nº 456
4450 – 189 Matosinhos . Portugal
Até 8 de setembro
Terça a sexta das 10.00 às 19.00
Sábado, domingo e feriados das 10.00 às 20.00