Gilles Lipovetsky:”O luxo do futuro vai ser o luxo do amor por aquilo que fazemos”

O filósofo francês Gilles Lipovetsky fotografado no atelier da artista portuguesa Joana Vasconcelos. (PAULO SPRANGER/Global Imagens)

(artigo publicado originalmente em outubro de 2019)

O filósofo francês Gilles Lipovetsky esteve em Lisboa à conversa com Joana Vasconcelos. Um fim de tarde desafiante para a plateia plena e atenta no atelier da artista, onde se falou de beleza, de prazer, de sonho. E de como o luxo está sempre presente nas nossas vidas.

Texto de Marina Almeida | Fotografias de Paulo Spranger/Global Imagens

Há décadas que Gilles Lipovetsky pensa os tempos que vivemos. Ele vê coisas antes dos outros, escreve-as, conta-as. Este ser que ao mesmo tempo vive e assiste ao correr das sociedades, tenta entender fenómenos. Como o do luxo, o pretexto que o trouxe aqui, a Lisboa, mais precisamente ao atelier da artista plástica Joana Vasconcelos.

Numa conversa promovida no âmbito do lançamento das 11ª e 12ª edições do Programa Executivo de Gestão do Luxo da Católica Lisbon Business & Economics (que se iniciam a 27 de setembro em Lisboa e a 3 de Outubro no Porto), moderada pela diretora Mónica Seabra Mendes, Gilles e Joana partilharam cumplicidades. E o mestre, deu uma lição.

“Se tivermos uma abordagem antropológica e histórica, não conhecemos nenhuma sociedade sem formas de luxo. Todas as comunidades desenvolveram formas de gastar muito dinheiro de alguma forma”, refere Lipovetsky

Contou que o luxo sempre existiu, e que há várias formas de o encarar. Para um “espírito moralista, o desaparecimento do luxo seria positivo porque alguns têm tudo e mais que tudo, e gastam fortunas enquanto outros morrem à fome. O luxo é escandaloso”. Mas Lipovetsky acrescenta uma nova camada de análise: “se tivermos uma abordagem antropológica e histórica, não conhecemos nenhuma sociedade sem formas de luxo. Todas as comunidades desenvolveram formas de gastar muito dinheiro de alguma forma”, refere, dando como exemplo os quadros, as esculturas, as catedrais. “Enquanto o povo morria à fome, havia este tipo de luxo”.

 

Gilles Lipovetskye Joana Vasconcelos conversaram sobre Luxo, Moda e Arte

Por isso, para o filósofo francês, que por estes dias cumpre 75 anos, o importante não é eliminar o luxo – que implicaria eliminar igrejas ou velhas cidades, como Veneza, que é “uma demonstração de luxo”. Nem sequer a arte e a sua “inutilidade” – “neste amor pela arte celebramos a virtude da criação humana, do Homem fazer coisas que não têm utilidade material imediata. Isto é uma fome de luxo”. O importante é que toda a gente tenha a acesso à arte. E isto parte da inversão daquilo que é o luxo aos olhos da sociedade de consumo, da posse de um objeto. “O importante não é a posse das obras. A felicidade é mesmo a partilha, a felicidade de todos os consumidores que vão aos museus. Devemos trabalhar para que esse amor pelo luxo dentro da arte seja acessível a cada vez mais pessoas”, disse o pensador. Na sala, várias peças da artista. Na primeira fila da plateia, a ministra da Cultura, Graça Fonseca.

Para Gilles Lipovetsky, “o luxo do objeto vai continuar, mas vai haver o espaço e o tempo, a relação com nós próprios. Estas perspetivas vão tornar-se uma experiência de luxo”

Joana Vasconcelos considera que “o luxo é uma necessidade essencial do ser humano que não pode existir sem o ideal de beleza, sem a representação do sonho”. A artista portuguesa e o filósofo francês concordam em muita coisa, como foram pontuando. “O luxo é muito importante na ideia de desejo, de algo que não existe no dia a dia”, disse Joana Vasconcelos. A diferença é que “alguns extratos sociais podem comprar o sonho. Alguns podem sonhar em comprar esse luxo. Mas queremos todos viver noutro mundo”.

A conversa foi intensa e saborosa. A moderadora foi recebendo questões da audiência. E qual será o futuro do luxo? Para Gilles Lipovetsky, “o luxo do objeto vai continuar, mas vai haver o espaço e o tempo, a relação com nós próprios. Estas perspetivas vão tornar-se uma experiência de luxo”, referiu lembrando que “há pessoas que gastam fortunas para parar, em retiros, para parar o telemóvel e o SMS”.

“Estamos numa sociedade da velocidade e isso é esgotante. O luxo está associado a uma certa lentidão, a um estado existencial“, referiu o filósofo. “Já assistimos hoje a pequenos fenómenos interessantes, a multiplicação de aulas privadas para aprender pintura, cerâmica. Isto é um luxo. O luxo do futuro vai ser o luxo do amor por aquilo que fazemos. Devemos encorajar a capacidade das pessoas realizarem aquilo de que gostam”, acentuou Gilles Lipovetsky revelando que está a escrever um livro sobre autenticidade, “o maior luxo que existe”.

A conversa fluiu para outros temas. Joana sempre em sintonia com Gilles: “Eu faço aquilo que o Gilles pensa. Eu traduzo um espírito contemporâneo, partilho o espírito do Gilles e represento-o”. O pensador ainda falou sobre a mulher e o movimento #MeToo. “Algumas artistas mulheres estão sempre a desenvolver uma situação de vítimas. Eu não encontro isso no trabalho da Joana. Ela faz Valquírias, e as Valquírias não têm medo, não se estão sempre a vitimizar”, disse o filósofo francês, para quem o movimento MeToo vai “longe de mais na vitimização”.

“A fealdade vende-se mal. O feio não é um bom negócio. Os consumidores não são brutos”

E sim, o capitalismo: “não devemos diaboliza-lo, devemos fazer com que evolua. Devemos divulgar a arte nos cursos de Gestão. Precisamos de sensibilidade e gestores que a entendam!” – entusiasma-se. “Vejam a Apple! Tornou-se a marca mais valorizada do mundo numa opção pelo design, pelo pormenor!”. Não tardaria a dizer: “A fealdade vende-se mal. O feio não é um bom negócio. Os consumidores não são brutos”.

Quase a terminar, números para os gestores pensarem: “O mercado de Hollywood e da música ultrapassam juntos o volume da Boeing. O mercado da sensibilidade dá mais dinheiro nos EUA do que os aviões. É o impacto das indústrias culturais! Há algo de superior, não se trata só de comida, é algo mais. E é extraordinário.”


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