Elements Flores: joalharia de autor na baixa do Porto

Transformam uma joia de família em duas ou escrutinam o mundo à procura da gema de eleição do cliente. Sabia que o há rubis e esmeraldas que podem custar mais que um diamante? Esta pesquisa é parte da vida de Nuno e Marco dos Santos, que acabam de se instalar na baixa do Porto.

Texto de Marina Almeida

A Estação de São Bento estende a seus pés a Rua das Flores. É uma artéria com história, cuja fama vem de tempos áureos da cidade, em que se perfilavam as lojas mais ricas da cidade. No seu lado direito, alinhavam-se os ourives – e chegou mesmo a ser conhecida pela rua do ouro do Porto. No número 249 existia uma ourivesaria tradicional. Há menos de um mês, o prédio de esquina tornou-se uma montra da joalharia contemporânea de autor com a abertura da Elements Flores.

O edifício de cinco andares, de 1920, que foi totalmente recuperado, junta agora várias valências: a representação de marcas internacionais exclusivas (como a Niessing, António Bernardo ou Vanrycke), a marca própria dos irmãos, Dos Santos, e o exclusivo serviço personalizado, feito à medida do cliente, num espaço mais reservado.

É no atelier de alta joalharia, que os dois irmãos transformam joias antigas ou trabalham um design exclusivo que o cliente deseje. “As pessoas que herdam peças antigas, a maior parte das vezes com desenhos e formas com que as pessoas não se identificam, mas que são compostas por pedras preciosas de muito valor. O que nós fazemos é, respeitando o trabalho dessas peças, e uma memória que está associada às joias (porque as pessoas que recorrem a este serviço é porque não querem desfazer-se delas), transformamos em peças mais modernas com as quais as pessoas se identifiquem mais” refere Marco dos Santos, 42 anos, o irmão mais velho.

Neste processo, pode acontecer mudar o uso da peça. “Por exemplo, transformamos um par de brincos num anel e um pendente para o pescoço. Às vezes até numa situação de partilhas é útil partir uma peça ao meio e transformar em duas novas”, explica.

Outra vertente deste serviço su misura é a criação de peças de raiz. E aqui que dão largas à imaginação ou aos desejos do cliente. “Ainda hoje tivemos o pedido de um cliente que gosta de um anel nosso, mas quer uma pedra mais importante. Todo esse anel vai ter de ser readaptado para receber uma pedra com outro tamanho e características. Vamos preparar um anel à medida dele, com um brilhante à medida daquilo que ele quer investir”, diz Marco.

Veste-se de azul escuro dos pés à cabeça: camisola de gola alta, calça e blazer – onde o azul só é discretamente interrompido por um lenço de lapela. A família dedicava-se à ourivesaria tradicional, e isso foi algo que os dois irmãos naturalmente receberam. “Aquilo que vamos absorvendo, transportamos connosco”, admite. Vai falando pelos dois – Nuno, mais novo cinco anos, estava ausente no estrangeiro –, e conta como a paixão pelos metais passou para as pedras preciosas. Após a formação académica em Portugal, os dois irmãos acabaram por se formar em gemologia pelo Gemological Institute of America (GIA) e na Hoge Raad Vor Diamant, de Antuérpia. “Fomos desenvolvendo um gosto, começámos a perceber que tínhamos gostos comuns e foi com alguma naturalidade que nos vimos envolvidos nesta área”, diz.

“Estamos a tentar encontrar para um rubi para um cliente que nos pediu de uma mina específica, na Birmânia. Dessa mina já não são extraídos mais rubis e temos de encontrar um para um colecionador que quer investir numa pedra que já não existe”.

Especialista em pedras preciosas, Marco explica que o diamante “continua a ser a rainha das gemas”, mas “a nível de nicho, de pessoas com uma certa formação e poder económico, para fins de investimento há pedras muito mais interessantes para investir, do que propriamente em diamante, porque a raridade não é uma característica muito associada ao diamante”. Os rubis ou as esmeraldas são exemplos de gemas altamente valorizadas, mais ainda se oriundas de minas que entretanto fecharam. “Há minas específicas nos países que têm fim, porque são minas relativamente pequenas e dessas minas não vão sair mais rubis. Estamos a tentar encontrar para um rubi para um cliente que nos pediu de uma mina específica, na Birmânia. Dessa mina já não são extraídos mais rubis e temos de encontrar um para um colecionador que quer investir numa pedra que já não existe”.

Os irmãos gemólogos transformaram-se assim numa espécie de caçadores de tesouros. “É um bocadinho isso, é a parte mais fascinante e mais misteriosa, de pôr em campo os nossos contactos, os conhecimentos, saber onde procurar”, admite Marco. “Claro que o nosso mercado é sempre um pouco limitado mas temos sentido um aumento da procura. Pessoas que canalizavam investimentos para áreas mais tradicionais, o imobiliário, a banca, começam a ver nestes bens uma boa oportunidade para investir”, revela.

Entre as esmeraldas, há uma raridade: “Uma turmalina específica, que só existe numa mina no Brasil no estado da Paraíba. As paraíbas que existem têm um azul neon e as que são originárias dessa mina tem um valor mais elevado que a maioria dos diamantes”, explica sem divulgar montantes precisos. «Muitas dezenas de milhares de euros».

A história conjunta dos irmãos no mundo das joias tem uma década, agora coroada com a primeira loja de rua. A Elements tem loja no Centro Comercial Península, no Porto, e no Centro Comercial das Amoreiras, em Lisboa

A autenticidade é essencial neste negócio, e a maior parte das gemas tem documentação produzida por institutos que o atestam, «essencialmente a nível químico». As pedras preciosas vêm de fora da Europa: África, Américas, Oceania e Sudoeste Asiático. “Há quase um microcosmos do mundo no interior das pedras preciosas, é muito interessante e há muitas variantes que influenciam a beleza e, consequentemente, o preço das pedras”, enfatiza. O serviço su misura representa cerca de 20% da faturação da empresa, sendo o cliente nacional o que mais o procura.

A história conjunta dos irmãos no mundo das joias tem uma década, agora coroada com a primeira loja de rua. A Elements tem loja no Centro Comercial Península, no Porto, e no Centro Comercial das Amoreiras, em Lisboa – onde estão disponíveis todos os serviços e ofertas da marca.

A Elements Flores é uma espécie de metáfora da vida de Nuno e Marco: era uma ourivesaria tradicional, agora é uma montra de joalharia contemporânea de autor. Após a formação, os dois iniciaram um percurso profissional, que os distanciou da ourivesaria tradicional. «Um dia tivemos que tomar uma decisão, tivemos de romper porque a nossa sensibilidade não encaixava com aquilo que existia», assume. Procuraram trazer para Portugal marcas de joalharia contemporânea e criaram a sua própria marca: Dos Santos. “Criámos um conceito com que nos identificamos. Hoje temos liberdade para fazermos o que quisermos. Não estamos reféns de nenhum grupo de marcas ou de luxo”, diz Marco.

No piso térreo, há três vitrinas suspensas numa das paredes, com joias no seu interior. Os móveis no ar, talvez para deixar ver o belíssimo chão em todo o seu esplendor. O irmão mais velho conta que o pavimento de pedra, a par do teto trabalhado, foi uma bela surpresa que tiveram depois de comprarem o edifício sem lá entrar – mal souberam que estava à venda, perceberam que era aquele o local que procuravam para expandir o negócio e não havia tempo a perder. Admite que gostava de encontrar um espaço com características semelhantes em Lisboa.

Vão no final do mês para Hong Kong. «Entendemos desde sempre que a Ásia e Médio Oriente seriam mercados mais sensíveis às manualidades», capazes de valorizar a técnica.

Marco mostra-nos as peças da marca Dos Santos e enfatiza a mestria artesanal que Portugal ainda consegue pôr na joalharia. «Queremos colar o nosso nome muito às tradições portuguesas. Eu acho que há ainda muito espaço para explorarmos a nossa história, que é riquíssima, culturalmente falando, nesta área em específico, e ir buscar elementos, desenhos, técnicas com a possibilidade de encontrarmos artesãos e técnicos capazes de executar. Isso valoriza imenso e temos ainda ao nosso dispor técnicos com uma mestria enorme.»

E essa excelência é uma das chaves da internacionalização da marca para os países asiáticos, a dar os primeiros passos. Vão no final do mês para Hong Kong. «Entendemos desde sempre que a Ásia e Médio Oriente seriam mercados mais sensíveis às manualidades», capazes de valorizar a técnica.

Rua das Flores tem tradição secular na arte da ourivesaria
( Adelino Meireles / Global Imagens)

A Elements Flores ainda cheira a novo, mas já mostrou que há um novo público para a joalharia de autor: oito em cada dez clientes da loja são estrangeiros, refere Marco. A Rua das Flores funciona como um corredor entre São Bento e a Ribeira e está cheia de turistas. «É uma montra para o mundo», admite. «O sucesso que o Porto está a ter, é um esforço conjunto, não é só do Turismo de Portugal. Obviamente que fico orgulhoso quando vejo os turistas a tirar fotos ao nosso prédio, é um património único, que dá caráter à visita».


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