É português, vestiu o premiado «homem-peixe» e esteve nomeado para os Óscares

Foi com um orçamento limitado que «The Shape of Water» mergulhou no mundo dos Óscares. Ainda assim, de lá, a história do «homem-peixe» trouxe quatro estatuetas. A de Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Banda Sonora e Melhor Cenografia. E o sucesso teve dedo – ou melhor dedal – de um português. Luís Sequeira, responsável pelo guarda-roupa do filme, seguiu a profissão por influência da mãe, que desenhava vestidos de casamento em Portugal. O DN/Ócio esteve à conversa com o figurinista – que está por cá para participar no MOTELX 2018 – e ficou a saber que adora trabalhar em filmes de época, que gostava de gravar um filme em Portugal e que tem sempre um par de sapatos extra na mala do carro.

Texto de Patrícia Tadeia

O que recorda agora, quando olha para trás, do «The Shape of Water»?
Foi tanto um projeto desafiador, quanto gratificante. Desafiante porque tínhamos um orçamento limitado, eu queria fazer o melhor trabalho possível para o Guillermo [del Toro] e tudo importava. Gratificante porque a natureza coesa de todas as forças criativas se juntou e resultou num trabalho tão bem-sucedido. Não estou a pensar em prémios ou elogios, mas simplesmente pelo amor à arte do cinema.

Como é que surgiu o contacto para fazer o guarda-roupa deste filme?
Fui abordado pelo Guillermo enquanto trabalhávamos na série «The Strain», da FX, que eu projetei para 3 temporadas. Durante uma de nossas reuniões de produção, perguntou-me se eu estaria interessado em trabalhar no seu filme «fish» (o título não oficial antes da «Shape of Water»). Eu disse «Claro» e lembro-me de estar incrivelmente empolgado no meu escritório. Sou um grande fã dos filmes do Guillermo – desde as suas primeiras obras-primas como «The Devels Backbone», «Pan’s Labyrinth» e «Crimson Peak». Cada projeto emana uma criatividade total. Ser escolhido pessoalmente para fazer o guarda-roupa de um dos seus filmes… Eu estava super feliz!

Quando viu o guião e a ideia do filme, qual foi a primeira coisa em que pensou?
Quando me falaram pela primeira vez sobre o projeto, era para ser um «film noir», ou seja, a preto e branco. É claro que agora, com o filme concluído, dificilmente consegue imaginá-lo sem o uso memorável da cor. Mas quando li o guião, pela primeira vez, com o B&W em mente, pensei em como seria maravilhoso estudar o impacto disso na textura, no tecido e no contraste. Um bom script evoca imagens enquanto as lemos. Com este roteiro, a minha mente percorreu ao longo de imensas possibilidades de design, o que foi realmente emocionante.

Como foi preparar o guarda-roupa do filme? Quais os maiores desafios? E o que lhe pareceu mais fácil?
A pesquisa é o primeiro passo no meu processo. Ver coleções fotográficas, pesquisar fotojornalismo, filmes e documentários de época… Moda e catálogos completam as referências visuais. Comecei também a reunir tecidos de NYC / Londres / Los Angeles / Montreal e Toronto para criar a nossa biblioteca de tecidos. Como o orçamento era apertado, tínhamos de fazer escolhas muito sucintas, obtendo a melhor qualidade possível com o dinheiro que tínhamos e sem afetar a «aparência» do filme. Eu tinha uma equipa incrível que me ajudou, como uma excelente equipa de costureiras e, é claro, os artistas têxteis que me ajudaram a chegar ao último tecido com a cor perfeita para complementar o tom de pele e os sets dos atores.

Qual a importância do «Costume Design» para o sucesso ou não de um filme?
Acho que os figurinos são parte integrante do filme e podem ajudar a cimentar a presença do filme ou prejudicá-lo, dependendo do sucesso das escolhas. Guillermo del Toro disse-me uma vez que «o guarda-roupa é o ‘set dressing’ do ator, quando nos aproximamos, não há nada além do rosto e da roupa». Nunca me esqueci disso. Desde então, uso esse mantra no meu trabalho de forma consistente. Conheço muitos atores que acreditam firmemente que só encontram o seu personagem na sala de montagem ou na cadeira de maquilhagem. São aspetos importantes quando crias qualquer tipo de transformação, seja para um outro período, ou estilo.

O que sentiu quando soube da nomeação para os Óscares?
Bem, a indicação para os Óscares foi a terceira grande indicação que recebi. Tinha sido indicado tanto para os BAFTA como para o «Costume Designer» nos Screen Actors Guild Awards. Por isso, nesse momento, estava esperançoso de receber essa indicação também. Mas, mantendo os pés no chão. Quando aconteceu, lembro-me de o meu telefone se ter passado com tantas mensagens de texto de parabéns. Senti-me nas nuvens, durante aquele dia no trabalho. Foi completamente surreal, mesmo durante semanas.

Alguma vez se tinha imaginado ali, naquela posição, de nomeado para os Óscares?
Sinceramente, sonhei que um dia teria a sorte de ser nomeado, mas para mim o mais importante é que fiquei muito emocionado pelo fato de o filme ter recebido tanta atenção e agradeço muito o meu trabalho ter sido reconhecido desta forma. Tantas pessoas trabalham toda a sua carreira, fazendo um trabalho incrível, sem um pingo de reconhecimento. Eu sou um homem de sorte por ter tido essa atenção.

Depois da primeira nomeação, já pensa na segunda?
Bem, vamos ver. Espero um dia poder ter outra nomeação. Até lá, continuarei a fazer o melhor que puder, agradando ao meu realizador, atores e produtores. Realmente amo meu trabalho. Então, tudo fica mais fácil.

Como surgiu a sua carreira? Sei que a sua mãe teve influência na área que seguiu…
Sim, minha mãe foi uma forte influência. Quando era criança, as primeiras memórias que tenho é de botões, padrões, tecidos e acessórios. Uma vez ela disse-me: «Não sei por que quiseste trabalhar com roupas e tecidos» e eu respondi «Estás a brincar comigo?» Sempre fez parte de nossas vidas. Comecei a minha carreira profissional como designer de moda, mas rapidamente senti a necessidade me incluir na comunidade da indústria cinematográfica. Este início na moda foi fundamental para o meu sucesso no cinema.

Como é que Portugal ainda surge na sua vida? Vem cá com frequência?
Amo Portugal. Tenho uma casa numa pequena aldeia perto de Aveiro, em São João de Loure, onde venho uma ou duas vezes por ano para recarregar as baterias. Adoro visitar o Porto e Lisboa e aproveitar a vida na cidade ao mesmo tempo que relaxo na aldeia.

Agora está de novo de regresso para dar uma Masterclass no MOTELX 2018.
A Masterclass consistirá em falar sobre a abordagem do figurino / especificamente para o género de Terror – dado o contexto do MOTELX. Vai ser juntamente com a Catarina Rito, jornalista de moda. Juntos, vamos abordar a relação entre a fantasia do filme e da moda. Também discutirei como os figurinos desempenham um papel importante no cinema. Por fim, compartilharei algumas histórias interessantes da minha carreira nos últimos 30 anos.

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Em que projeto está a trabalhar atualmente?
No momento, estou a trabalhar novamente com o diretor Andres Muschietti, com quem já trabalhei em alguns projetos, incluindo o hit de 2012 «Mama». O projeto é o «IT 2». Estou muito feliz por estar a trabalhar novamente com o Andy. Existe um nível notável de confiança e colaboração.

Os atores costumam reagir ao guarda-roupa?
Já me cruzei com milhares de atores ao longo da minha carreira e o momento mais memorável para mim é quando eu vejo um ator sentir realmente o seu personagem através do figurino. Isso pode acontecer com uma simples musselina, que é o protótipo inicial do que vai vestir. Mas, claro, isso acontece com mais frequência, na adaptação final, quando os tecidos são transformados em roupas que o personagem vai usar. Aquando do «The Shape of Water», e já quando a Sally [Hawkins, atriz principal do filme] usava o vestido, enquanto adaptação final, ela cobriu o rosto quando se olhou pela primeira vez no espelho e disse: «Oh meu Deus, é tão bonito… não sou digna de usar este vestido». Adoro quando as minhas roupas causam qualquer tipo de reação, mas este momento foi muito emocional. Significa que fiz bem o meu trabalho.

Qual o género de filme em que mais gosta de trabalhar?
Amo filmes de época. Recriar um tempo e um lugar diferentes é extremamente gratificante. Todo o estudo do ajuste de roupas, dos tecidos e da paleta de cores é fascinante. Outro género que gosto é o futuro próximo. É igualmente revigorante fazer pesquisas específicas sobre o desenvolvimento de têxteis, o estudo da sociedade, a perceção da história futura. Acho que você pode ver isso para mim – o meu trabalho é muito mais do que escolher uma roupa bonita!

Uma pessoa que trabalha em guarda-roupa também tem dificuldade em escolher a roupa que usa no dia-a-dia?
A verdade é que as pessoas que trabalham em guarda-roupa gastam tanto tempo quanto qualquer outra pessoa para decidir o que vestir. No mundo do cinema, o nosso dia de trabalho não tem menos de 12 horas e, na maioria das vezes, mais de 15. Por isso, o conforto é essencial. Quanto ao meu estilo pessoal, sou mais quase de uniformes. Se gosto de algo, compro mais do que uma peça. Prefiro tons neutros, linhas limpas, tecidos naturais. Gosto do conceito de camadas, é importante haver flexibilidade. Ah e tenho sempre um par de sapatos extra no porta-malas do meu carro!

A que marcas é mais fiel?
No meu trabalho, pode ser qualquer coisa, desde a Gap à Gucci. É mais sobre a peça e como ela se relaciona com o personagem, e não a marca. Também adoro peças vintage simplesmente como inspiração. Pessoalmente, amo John Varvatos, Vince, Eleventy, The Kooples, Dries Van Noten, Paul Smith e Tiger da Sweeden. Qualidade versus quantidade é o meu lema. É um estilo elegante e descontraído.

Quem é o seu «style icon»?
Uma pessoa que eu segui e sempre adorei foi Alexander McQueen. O seu trabalho e a atenção que dá aos detalhes. A sua morte foi uma das maiores tragédias do mundo da moda. Muitas vezes me pergunto onde a moda mundial estaria agora se não fosse ele. Ele construiu um caminho para o futuro que influenciou não apenas o mundo da moda, mas também influenciou o cinema, a música e a cultura popular.

Como olha atualmente para o cinema português?
Tenho de admitir que não tenho visto cinema português, porque não está muito disponível no Canadá. Mas estou feliz porque a indústria está a começar a crescer com incentivos fiscais do governo português aos cineastas. Depois de 30 anos na indústria, sei que esses créditos fiscais funcionam muito bem não só para aumentar a indústria, mas pelo impacto financeiro. Espero um dia poder trazer um filme para Portugal. Temos locais históricos e modernos incríveis, com uma magnífica beleza natural, e o mundo devia ver mais do nosso país nos cinemas.