“É altura de quem produz e fabrica peças de design em Portugal arriscar e sair da sombra das marcas estrangeiras”

(Rui Oliveira/Global Imagens)

Depois trabalhar vários anos em Paris, o designer alemão Christian Haas decidiu mudar-se para o Porto há cinco anos onde criou o seu estúdio. A partir de lá – e a trabalhar com designers portugueses – tem criado peças para os quatro cantos do globo.

Entrevista por Filipe Gil | Fotografias de Rui Oliveira/Global Imagens

Em nome próprio ou através de marcas de luxo como a Rosenthal ou a Villeroy and Boch em áreas como a cerâmica, iluminação ou mobiliário. No Porto é possível encontrar o seus trabalhos (ver galeria) no Banema Studio, por exemplo.

Recentemente, participou na conferência Luxury Design & Craftsmanship Summit, organizado pela Covet House, em Gondomar onde explicou a importância das artes e ofícios portugueses e como os fabricantes de peças de design têm de arriscar em nome próprio.

Há interesse no design e artes e ofícios portugueses por causa da sua história e herança, ou sente que o mercado procura uma abordagem nova, fresca e original do que é produzido em Portugal?
Há sempre mercado para as coisas mais clássicas. Dito isto, é necessário que existam novas expressões. Nos últimos cinco, seis anos vemos que surgem no mercado internacional cada vez mais produtos novos mas que usam técnicas tradicionais. E isso também está a acontecer em Portugal.É claro que o design mais clássico é sempre interessante, mas há que ter em conta os novos consumidores e as novas necessidades.

Essa nova abordagem com técnicas antigas é uma forma do design português ganhar voz a nível internacional?
Sim, sem dúvida. Mas os fabricantes portugueses têm que apostar mais em levantar a voz e criarem marcas. Hoje em dia ouve-se falar muito do que se faz em Portugal mas é altura de quem produz e fabrica peças de design arriscar e sair da sombra das marcas estrangeiras para quem fabricam. São essas marcas que ganham o crédito do que é feito em Portugal.

No projeto Doppia Firma da Michelangelo Foundation [que juntou designers e artesãos a produzirem peças em conjunto], esteve envolvido com artesãos portugueses. O que sentiu da criatividade portuguesa e da sua qualidade nesses trabalhos e no que vai conhecendo do que se faz por cá?
Há designers brilhantes em Portugal. Conheço especialmente os do Porto, e não tanto os de Lisboa. Nomes como Hugo Passos, Gonçalo Campos, Toni Grilo, etc., todos eles têm um excelente trabalho. No que toca às artes e ofícios, Portugal tem a vantagem de ter preservado conhecimentos que em outros países já desapareceram. Por isso, há que potenciar ambos os campos. E depois há que pensar para lá do produto, e utilizar várias ferramentas, como o marketing para ajudarem a construir histórias coerentes para os objetos, como fazem os países escandinavos, por exemplo. O story telling é muito importante e aqui em Portugal é muito autêntico, mas ainda não está a ser feito aqui a um nível satisfatório. Há também que juntar mais mentes criativas para influenciar e darem os seus contributos nos processos e não é apenas o produtor ou o designer.

A cidade do Porto é um local único na Europa, porque tem o tamanho certo. Há uma escala humana em quase tudo, o que é muito importante para mim.

Recentemente disse à revista Monocle que veio para o Porto para fazer coisas que não conseguiu fazer outros locais, como Paris onde viveu vários anos, porquê?
Sou da Baviera, na Alemanha, vivi em Munique onde estudei e tive um estúdio, mais tarde por razões particulares fui para Paris. É uma cidade agradável para viver mas onde não se consegue evoluir como designer. Pelo contrário, Portugal deu-me essa oportunidade. Por cá tenho conseguido alargar um pouco mais o meu campo de trabalho, de trabalhar e contratar designers portugueses, que são muito talentosos. E temos tido mais trabalho nível internacional a partir daqui. A cidade do Porto é um local único na Europa, porque tem o tamanho certo. Há uma escala humana em quase tudo, o que é muito importante para mim.

A cidade inspira-o no seu trabalho?
Inspira-me de modo a que a minha vida é mais relaxada e ao mesmo tempo mais eficiente. A mentalidade do sul da Europa em que as coisas são levadas a sério, mas não em demasia, em que a hora de almoço é importante, e ao fim-de-semana temos tempo para nós e para estar com amigos ou família tem proporcionado um equilibro entre a vida profissional e profissional muito saudável. E isso inspira-me a trabalhar mais e a ter mais projetos e a tentar novas técnicas e a poder experimentar. O que não é possível em Paris. Lá há a pressão para pagar as rendas altas e só nos focamos em pagar as contas. Aqui em Portugal também há contas para pagar, claro, mas há espaço para a criatividade. Encontrei a minha forma de trabalhar aqui no Porto.

E projetos para o futuro?
Em breve, em setembro, vou ter uma grande exposição em Berlim numa loja conceptual muito prestigiada, a Andreas Murkudis, onde vamos apresentar e vender os nossos objetos. Depois temos a decorrer vários projetos com marcas japonesas.

 


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