De sapatos a malas: a cortiça transformada em peças de design

Já serviu para fazer colheres e bases de tachos, ainda serve para rolhas (são essas as melhores), mas é também comum vemo-la em paredes, tetos e demais lugares de destaque nas nossas casas, incluindo sapateiras e roupeiros. Há um admirável mundo novo da cortiça ainda por descobrir.

Texto de Ana Pago

Há apenas duas décadas, se não víssemos com os nossos próprios olhos turistas alemães a usar Birkenstock – os famosos chinelos com sola de cortiça e látex que o sapateiro Konrad Birkenstock criou em 1902 -, talvez não acreditássemos que o material servia para muito mais do que fazer rolhas e isolamentos térmicos e acústicos. Mais tarde, ao assistir ao desfile drapejante de Suzaan Heyns em 2013, o mundo ficou a saber que a cortiça também se pode vestir, com a reputada estilista sul-africana a lançar uma linha completa de roupa, calçado e acessórios. Saias feitas de casca de sobreiro. Quem diria? A cortiça estava-nos a dar a volta à cabeça.

“É um material premium conhecido desde o Antigo Egito, com um boom nos últimos anos por se começar a reconhecê-la em múltiplas aplicações além da rolha de cortiça, que tem sido o seu grande monopólio comercial”, explica a designer de equipamentos Ana Mestre, fundadora e diretora de arte da Corque Design – uma das pioneiras no mercado português de design ecológico e das primeiras marcas mundiais dedicadas em exclusivo ao design em cortiça (desde 2009).

Sobretudo na última década, diz, foi notável a evolução deste “casamento” entre a matéria-prima e os artistas que a experimentam. “As qualidades plásticas, ambientais e sensoriais únicas da cortiça – muito suave e agradável ao tato – permitiram-nos introduzir um conceito de desenhar objetos com vida”, aponta a investigadora em sustentabilidade, que aos poucos se foi tornando uma referência no design de interiores e mobiliário em cortiça. Não é à toa que Ana Mestre já foi notícia no The New York Times e as suas peças acabaram expostas em Milão, Helsínquia, Xangai, Madrid e no MoMa (o visitadíssimo Museu de Arte Moderna), em Nova Iorque, e Tóquio.

Na última década, a cortiça tem sido utilizada como matéria-prima de designers e artistas, pelas suas qualidades plásticas, sensoriais e ambientais.

Quem também lá foi parar foi Sandra Correia, a empresária fundadora da Pelcor que transformou a cortiça em moda quando ainda ninguém a via com esses olhos. “Tenho a noção de que abri caminho. Hoje temos bastantes marcas de artigos de cortiça, mas a Pelcor foi a primeira e continua a ser o Rolls Royce, o Ferrari da cortiça”, revelou em entrevista ao DN, orgulhosa. Desde miúda que ia brincar para a fábrica de rolhas do avô, no centro da vila em São Brás de Alportel, fascinada com os homens que desciam a cortiça para a cozerem na caldeira. Adorava aquele cheiro a floresta a soltar-se das cascas.

“Antes existiam umas carteirinhas, tudo muito feio. Quando comecei, perguntei-me porque é que nunca se tinha criado design, uma marca, feito moda com a cortiça”, conta Sandra Correia, que entretanto foi viver e fazer o secundário para Vilamoura decidida a conceber apenas coisas originais quando crescesse. Uma delas – um guarda-chuva de cortiça que expôs numa feira em Espanha ao lado de rolhas – marcou definitivamente a sua história: “As pessoas ficaram maravilhadas, nunca tinham visto nada igual. Percebi que tinha razão em querer mesmo tornar a cortiça uma moda”, recorda.

A cortiça é rugosa e não lisa como o plástico, o que ajuda a apurar o tato nos mais novos. Esta, entre outras características, faz da cortiça um bom material para brinquedos, como fez a Elou Cork Toys.

A técnica de converter cortiça em pele era já usada nos EUA desde 1930. Visionária, Sandra contratou uma equipa, criou a Pelcor em 2009 e em 2012 convidou a design de moda Eduarda Abbondanza para diretora criativa. “As coleções são desenhadas na empresa, se bem que acabem por surgir produtos muito parecidos, o que até é bom, ajudam a vender”, desdramatiza. Pelo caminho, a gestora ofereceu malas às cantoras Madonna e Pink e aviou uma encomenda de 1500 individuais destinados a enfeitar as mesas de sonho da princesa Jawaher Abdulaziz, da Arábia Saudita. Foi sem mágoa que em 2016 vendeu a Pelcor a um investidor angolano que preservou esta essência.

“O facto de a cortiça ser uma matéria-prima nacional, natural, com qualidades muito peculiares, é do maior interesse para nós enquanto marca de acessórios e lifestyle, confirma o atual CEO da Pelcor, Rui Tati, inspirado por tanta versatilidade à sua volta. “Ao mesmo tempo que procuramos ir ao encontro dos reais interesses dos clientes e dos mercados, trabalhamos sempre no sentido de encontrar soluções mais sustentáveis de produção.” No final, acredita o responsável, é tudo isto no seu conjunto que resulta. “Há uma história a ser contada por detrás de cada produto da Pelcor.”

Os famosos tamancos da alemã Birkenstock usam a cortiça portuguesa.

Até mesmo os Birkenstock com que abrimos este artigo – os tais chinelos que meio mundo ama e a outra metade odeia sem, no entanto, haver quem lhes seja indiferente – são produzidos na Alemanha com cortiça essencialmente portuguesa, apreciada pela sua elasticidade, pela capacidade amortecedora e pelo isolamento contra frio, calor e humidade. Anatómicos e muito confortáveis (em grande parte devido ao fator cortiça), os tamancos tornaram-se mais apetecíveis depois de estrelas como Cindy Crawford, Julianne Moore, Whoopi Goldberg, Robin Williams, Leonardo DiCaprio, Ashton Kutcher, Anne Hathaway, Miranda Kerr, Jessica Alba ou Keira Knightley terem-se rendido a eles.

Também para a Elou Cork Toys, 100% natural e made in Portugal (com design desenvolvido em parceria com a Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos), cortiça é quanto basta para dar às crianças os brinquedos de que necessitam em todas as etapas de desenvolvimento, dos 0 aos 2 anos, com a mais-valia de serem leves, de linhas simples, resistentes a choques, sem pilhas. Se o material serve para isolar naves e foguetões da NASA e da Agência Espacial Europeia, porque não para brincar? “Ao contrário da madeira, a cortiça não implica abater árvores, o que é uma vantagem inegável”, sublinha António Xavier, diretor comercial da marca que se destaca já nos principais mercados internacionais pela reduzida pegada ambiental.

“As qualidades plásticas, ambientais e sensoriais únicas da cortiça – muito suave e agradável ao tato – permitiram-nos introduzir um conceito de desenhar objetos com vida”, aponta a investigadora Ana Mestre.

Por isso e por estar em linha com três valores fundamentais ao nível da aprendizagem, enumera o responsável comercial: “A cortiça é rugosa e não lisa como o plástico, o que apura o sentido do tato nos pequenos; tem uma temperatura estável, o que evita situações de irritabilidade ao mexer-lhe; tem um cheiro verde, não químico, que desenvolve o olfato.”

Segundo a investigadora em educação Catherine L’Ecuyer, a natureza é justamente uma das primeiras janelas de curiosidade dos miúdos, pelo que a Elou estará no caminho certo ao querer que eles mexam, encaixem, montem estruturas: “Pequenos estímulos despojados, que os incitem a explorar o mundo que os rodeia, só podem ser bons”, afirma a especialista em crianças.

A própria utilização da cortiça pela indústria aeroespacial vem confirmar essa leveza, resistência mecânica e engenharia da matéria. Não sendo misturada com compósitos sintéticos e altamente tóxicos como o poliuretano, é ecoeficiente, renovável, biodegradável. “Além disso, o sobreiro representa um grande contributo na preservação de um ecossistema tão importante para o país como é a floresta mediterrânica, com a possibilidade de gerar microeconomias importantes em torno da extração de cortiça”, acrescenta Ana Mestre. Daí a Corque promover um slow design em coleções limitadas, feitas à mão, incompatíveis com a produção em série das fábricas.

E, sim, há muito mais vida para lá de rolhas, colheres e bases para tachos que os nossos avós usavam, garante o designer António Andrada, da My Cork Design. “Essas eram peças com uma utilidade real no dia-a-dia das pessoas, já nessa altura a cortiça mostrava vantagens em relação a outros materiais.” Porém, está a ficar demasiado elegante para se guardar na gaveta. “Os hábitos foram-se alterando, alguns objetos deixaram de fazer sentido, outros passaram a fazer”, diz. Os clientes informam-se sobre os materiais e preferem pagar por peças que mais ninguém tem, amigas do ambiente. “Cheguei a experimentar cerâmica, mas a cortiça impôs-se e escolheu-me, como eu a escolhi”, confessa o autor de Évora, rendido. Um toque assim faz-nos facilmente saltar a tampa.