Cuidado! Esta BD conta a história da porcelana e… parte-se

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Chama-se Mare Clausum e é a primeira peça de uma coleção da Vista Alegre dedicada à banda desenhada. Da autoria de Penim Loureiro, mostra a importância dos portugueses na chegada da porcelana à Europa. É lançada no Amadora BD, pois claro.

Texto de Marina Almeida

É um pote – uma talha, na correta designação – que parece chinês, mas é bem português. A semelhança não é descabida, até porque a porcelana nasceu na China, e entra-nos na história e na vida em tons azuis. Foi esse tom, azul grande fogo, que Penim Loureiro escolheu para contar a história dessas peças de prestígio alvo de enorme desejo dos europeus no século XVI. E nasceu uma narrativa em espiral, sobre como os portugueses fazem chegar a porcelana ao ocidente.

Penim Loureiro, arquiteto e autor de banda desenhada, conta que o grande desafio foi precisamente desenhar sobre uma superfície esférica. “Em banda desenhada trabalhamos sempre sobre um plano e temos regras de leitura”. Levou para casa uma das talhas, branca, saída da fábrica de Ílhavo. “Fartei-me de desenhar em cima da loiça, desenhava e apagava”. Deste jogo tridimensional, saiu a ideia da espiral: há que rodar a peça, para seguir as aventuras do jovem Fernão, que sempre ouvira tantas histórias sobre a porcelana, e acaba por conseguir enganar os holandeses da Companhia das Índias Orientais e fazer chegar à Europa as primeiras peças.

O azul grande fogo e a narrativa escolhida provocam uma espécie de engano momentâneo em quem vê pela primeira vez a peça. Parece uma loiça chinesa convencional. Mas não é. “Encarei isto também como uma forma de trazer para a banda desenhada pessoas que tradicionalmente não leem banda desenhada. Não o podia fazer de uma maneira muito avant garde”, admite. Mare Clausum é uma BD “muda [sem diálogos] não tem qualquer valor enciclopédico, mas está lá tudo”, resume. Inclusive as boas regras de quem conta histórias em quadradinhos.

Penim Loureiro é o primeiro autor da coleção Je Kraak da Vista Alegre (DR)

A empresa centenária de Ílhavo estreia-se assim na banda desenhada sobre porcelana, com a coleção que batizou de Je Kraak (já lá vamos, a essa história) e que apresenta ao público no festival internacional de Banda Desenhada Amadora BD (que abre no próximo dia 24).

O diálogo entre os artistas contemporâneos e a tradição ancestral da porcelana faz-se agora na banda desenhada.

“Como a primeira peça da coleção seria minha, achei que a própria história por detrás das peças, como surgiram na Europa pela mão dos portugueses, podia ser o tema”, explica Penim Loureiro. E assim chegamos ao nome da coleção Je Kraak, corruptela da palavra portuguesa carraca. Trata-se das embarcações dos portugueses que tantas vezes caíram nas mãos dos holandeses, carregadas da preciosa carga.

É um pote? É uma BD? É Mare Clausum, banda desenhada em porcelana (DR)

O diálogo entre os artistas contemporâneos e a tradição ancestral da porcelana faz-se agora na banda desenhada. Penim Loureiro é o primeiro autor a juntar-se a outros nomes com que a marca centenária se vem reinventando – Siza Vieira, Joana Vasconcelos ou Pedro Cabrita Reis, entre muitos outros.

O autor e ilustrador confessa que ainda associava a Vista Alegre a algo mais antigo e convencional, mas quando chegou à fábrica para a primeira reunião de trabalho, percebeu que lá estavam “muito mais à frente” do que ele. Estudou, tomou o gosto pela loiça e hoje faz parte “do grupo que vira o prato ao contrário” para ver a origem, diz bem disposto. “Isto entranha-se.

Mare Clausum custa 395 euros e estará à venda nas lojas da marca em todo o país. Durante o Amadora BD, será possível ver a peça, bem como os estudos e esquissos originais de Penim Loureiro. Por lá talvez se encontrem também alguns álbuns de BD mais convencional Penim Loureiro: Cidade Suspensa (2014), Portugal 2055 (2015) ou Reportagem Especial-Adaptação às Alterações Climáticas em Portugal (2016).