Conhecer a casa onde Le Corbusier morou

A penthouse onde o arquiteto e a sua mulher, Yvonne, viveram durante três décadas em Paris, está aberto ao público. Foi remodelado e está tal qual Le Corbusier o habitou em 1965. É uma das 17 obras do arquiteto classificadas como património mundial pela UNESCO.

Texto por Marina Almeida

Fica no número 24 da Rue Nungesser-et-Coli, 16º bairro, em Paris. No sétimo e oitavo andar do edifício Molitor viveram Le Corbusier, a mulher Yvonne e o cão Pinceau entre 1934 e 1965. O apartamento-atelier foi totalmente restaurado, ao longo de dois anos, e abriu as portas aos visitantes, pela mão da fundação com o seu nome. Está tal e qual o arquiteto o viveu (foi construído entre 1931 e 1934). Esta é uma das obras do pai da arquitetura moderna que foi totalmente restaurada de acordo com a época.

Ali o arquiteto nascido na Suíça Charles-Edouard Jeanneret-Gris em 1887, naturalizado francês, mais tarde adotando o pseudónimo Le Corbusier, fez alguns dos seus projetos icónicos. Foi ali também que desenvolveu a ideia do Modulor, o homem como medida para habitar. «Há proporção entre tudo», disse Le Corbusier sobre aquele espaço.

O apartamento, de 240 metros quadrados, aberto ao público pela Fundação Le Corbusier desde novembro, é visitável às segundas e terças-feiras das 14 às 18.00 e aos sábados todo o dia. A Fundação Le Corbusier entendeu restaurar o apartamento tal como este estava em 1965, para dar o testemunho das alterações que o arquiteto fez para este espaço de habitação e criação. O projeto foi feito por uma equipa multidisciplinar, liderada pelo atelier de François Chantillon, especializado em restauro de edifícios do século XX. «Com elementos de mobiliário fixos e móveis que estruturam o espaço, Le Corbusier construiu o seu universo peça a peça», referiu o arquiteto encarregue de recuperar a memória do espaço. «O apartamento caracteriza-se pela luminosidade e pela fluidez do espaço», acentuou. A marca de mobiliário italiana Cassina associou-se à empreitada e fez o restauro do mobiliário e do tapete de pele de vaca colocado sob a poltrona LC2 do mestre da arquitetura.

Coube a Marie-Odile Hubert fazer uma espécie de arqueologia cromática, pesquisando nas várias camadas de tinta do imóvel, quais as cores originais do apartamento e as opções subsequentes usadas pelo arquiteto – o resultado desta pesquisa, com as várias camadas de cores, está visível na obra final.

Este é um dos apartamentos de Le Corbusier que foi alvo de restauro nos últimos anos. Em junho deste ano o arquiteto alemão Philipp Mohr mostrou o resultado final da reabilitação de um dos 530 apartamentos da Unidade de Habitação de Berlim, que comprou em 2016, tal e qual o projeto de Le Corbusier. Inicialmente pensados para serem como a famosa Unidade de Habitação de Marselha, construídos cinco anos antes, os apartamentos de Berlim, edificados em 1958, acabaram por sofrer algumas adaptações. Mohr foi o mais fiel possível às ideias do mestre, desde a arquitetura do espaço ao mobiliário, passando pela policromia.

Em 2016, a UNESCO reconheceu a importância do legado corbusiano e inscreveu 17 obras na lista de Património Mundial, justificando-o com o «excecional valor universal».

A Fundação Le Corbusier tem ainda sob a sua gestão a villa Le Lac, na Suíça, a casa La Roche e a casa Jeanneret, ambas em França.