Collectiva: Mulheres joalheiras ao poder

Ana João, Sara Coutinho, Marta Pinto Ribeiro e Ana Bragança, quatro das joalheiras representadas na Collectiva. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

É um viveiro de criatividade, feito de metais preciosos e de outras matérias surpreendentes. Na Collectiva junta-se a arte de 14 joalheiras, quase todas elas com a formação inicial noutras áreas, num desafio ao gosto (e às carteiras) dos visitantes. É uma loja/exposição mutante no Centro Comercial Bombarda, no Porto.

Reportagem de Marina Almeida

A história começa com seis fundadoras e autoras residentes que convidam outras criadoras para a elas se juntarem e divulgarem a sua arte. No fundo, o que estas mulheres joalheiras criaram foi uma delicada armadilha: na Collectiva, loja/exposição no Centro Comercial Bombarda, pode entrar-se pelo projeto ou por uma das criadoras, mas sai-se com os olhos (e, por vezes, a mala) cheios de coisas bonitas, fruto de incursão em novos territórios.

Eis Ana João. Ocupa um dos cantos da enorme mesa que domina o espaço. «Eu sou formada em design de produto, não sou joalheira de formação. Iniciei a minha carreira profissional no setor do mobiliário e decoração, mas a joalharia sempre foi uma área que me interessou e tive oportunidade de fazer um estágio profissional numa empresa centenária ligada à ourivesaria». Foi aí que percebeu que queria ser joalheira e há dois anos que trabalha na área. Usa essencialmente prata (e pedras naturais), mas este ano já começou a trabalhar com ouro. Ali está a linha Bubbles, feita a partir de desenho 3D em computador. «Aliei um bocado o desenho de produto à joalharia».

Tem 31 anos, é natural de Matosinhos, e conta que começou por fazer peças mais contemporâneas, mas enveredou por algumas linhas «mais comerciais», como a Bubble ou a Nest, devido ao mercado que encontrou. Uma das surpresas do seu trabalho é a bomboneira Pineaple Monster, em latão lacado, que se tornou a sua imagem de marca. Ou o provocador anel e bomboneira Frida, que guarda numa gaveta porque são das tais peças que tem tido menos procura.

A bomboneira Pineaple Monster de Ana João

Seguimos pela mesa guiados por Ana João, uma das convidadas especiais da Collectiva – a que se foram juntando outras autoras. Na realidade, ser fundadora ou visitante é apenas um formalismo e a prova de que a união faz a força. «Quem toma as decisões e quem está mais no terreno são as autoras residentes mas toda a gente é chamada a participar», diz a geniquenta Sara Coutinho, autora da marca Mater.

Sara Coutinho também vem do design de produto mas «reduziu a escala» quando experimentou a joalharia. «O que eu tento passar é que as peças contem uma história», quer seja do foro humano, quer seja uma história de todos que Sara estiliza e contemporaniza. Na Collectiva tem essencialmente peças em prata, por enquanto. «Como a loja está muito ligada com materiais alternativos, não senti ainda que o ouro fizesse falta aqui», diz.

Algumas peças da Mater

Na mesa da Collectiva está também o trabalho da convidada Paula Castro. Esta criadora inspira-se nas montanhas e faz peças únicas, utilizando elementos naturais. «Cada peça é única porque é fundição direta», enquadra Sara enquanto observamos peças de joalharia com pedaços de natureza, como um galho por exemplo. Parece que a pregadeira saiu da montanha, tal o aspeto tosco que tem – Paula cultiva as imperfeições e as assimetrias, lemos na sua página online Little Nothing. Formada em psicologia, aos 50 anos mudou-se para a joalharia de autor.

A Collectiva abriu em setembro de 2017. Há uma enorme vitalidade, quer pela diversidade de propostas (as convidadas ficam por quatro meses, podendo ou não renovar a presença), quer pelo desafio constante a presenças internacionais – e está lá uma estimulante provocação da argentina que vive na Suíça Isabel Sabato: colares e pulseiras em silicone prensado, que tomam a forma do corpo.

«A maior parte das artistas que estão cá não são joalheiras de formação», diz Ana João, quando paramos em frente às peças de Lia Gonçalves, a única criadora que fez formação inicial em joalharia. Ana Dias e a Telma DA são arquitetas (aliás, Ana Dias apresenta-se como architectural jewellery), Cecília Ribeiro vem do design industrial, Susana Teixeira é formada em matemática. As peças e as coleções refletem essa mesma genealogia distinta e diversa forma de encarar o mundo e os materiais. «Somos concorrentes umas das outras, mas não há concorrência direta porque as peças são muito diferentes», diz Ana João. «Sim, até jogamos com isso a nosso favor. Uma de nós traz cá uma pessoa, que acaba por conhecer as outras», diz Marta Pinto Ribeiro, outra das mulheres joalheiras.

São uma espécie de matrioskas, portanto. Conhece-se o trabalho de uma, descobrem as abordagens de outras. Marta, 38 anos, tem história de ourivesaria na família – embora as peças tradicionais do avô ourives de Gondomar não lhe dissessem «nada». Fez o curso de escultura na Faculdade de Belas Artes do Porto e só depois de terminar a formação começou a olhar para a joalharia. «O meu avô era da ourivesaria tradicional, fazia os anéis com as pedras enormes, os anéis de curso, mas na realidade não era nada que eu gostasse muito, não eram peças que eu usasse e portanto acabava por nunca ligar muito…», conta. «Nós todas invejamos a oficina dela», diz Sara, lembrando que de todas as criadoras, Marta é a única que tem uma ligação familiar à arte. Marta ri-se. «É uma bela oficina, em Gondomar», acede.

Foi depois de terminar o curso que decidiu começar a trabalhar em joalharia, e juntou-se ao avô. Há três anos criou a marca. «Eu gosto muito de trabalhar à banca, gosto de estar com o material e estar a experimentar. Todo esse processo é muito importante e as peças também refletem isso», diz. E foi assim que levou uma linguagem contemporânea e muita geometria à oficina tradicional. Mais recentemente, criou uma linha muito orgânica inspirada numa rosa do deserto que comprou numa feita de minerais – e que naquele dia ocupava a montra da loja/galeria. Marta é, a par de Ana Bragança, Joana Santos, Lia Gonçalves e Susana Teixeira uma das fundadoras da Collectiva.

Há dezenas de objetos espalhados pela loja do CCB e, pelo menos aos sábados, estão lá sempre algumas criadoras. «As pessoas já se habituaram a isso, já sabem que vão encontrar uma autora na passagem pela loja», diz Sara, brincando com a situação de ver os clientes a observar as fotografias que acompanham o mini curriculum de cada uma delas junto às peças, e a comparar com quem está na loja. Deste contacto surgem muitas vezes outras peças. É possível personalizar ou pedir uma determinada peça noutro metal precioso. Não falta o que fazer na Collectiva.