Charlize Theron: atriz fala de depressão, envelhecimento e a realidade da parentalidade

É loira e bonita, mas Charlize Theron é também uma pessoa igual às outras. A atriz distinguida com o Óscar e deusa loura do perfume da Dior J’adore há já 14 anos, apesar de parecer a personificação da perfeição, também ela se fartou.

Texto de Kate Bussman/The Interview People/Tradução de Ana Glória Lucas

Desde que se iniciou o período letivo do outono de 2018, a grande tendência do regresso à escola patente nas redes sociais não têm sido tanto as fotografias dos miúdos à porta da escola com um uniforme grande demais para eles e um sorriso «vamos lá a despachar isto», mas sim as lancheiras. Perfeitas, evidentemente: elaboradas caixas bento, com acepipes veganos cuidadosamente mantidos em quarentena, sanduíches com a forma de um urso e cenouras cortadas em forma de corações. E apesar de Charlize Theron – a atriz distinguida com o Óscar e deusa loura do perfume da Dior J’adore há já 14 anos – parecer a personificação da perfeição, também ela se fartou.

«Se vejo mais um blogger do Instagram que seja a preparar aquelas lancheiras inacreditáveis, mato-me!», afirma a atriz, mãe de dois filhos. Faz uma pausa para mandar calar um dos seus gigantescos cães de salvamento («Ei, Berk, será que posso dar a entrevista sossegada?») e continua: «É difícil ser mãe. E penso que esta é uma coisa sobre a qual não se fala o suficiente.»

Não é preciso passar muito tempo com Charlize Theron para compreender a sua atitude para com a vida. Não existem artifícios, nem pretensiosismo. «Tive sempre um verdadeiro interesse e avidez pela sinceridade brutal em relação à humanidade e à vida e penso que isso se acentuou mais desde que fui mãe», afirma. «Agora, quero explorar ainda mais essas coisas. Quero respostas que tornem as coisas melhores para os meus filhos.»

Apesar da sua anterior carreira de modelo, Charlize sempre esteve, e continua a estar, mais interessada em dar um sentido ao difícil lado oculto da vida do que em tentar patinar na superfície da Insta-perfeição – facto que se compreende plenamente quando conhecemos mais alguns factos da sua infância na África do Sul (ver mais adiante).

Para Charlize, a perfeição é uma ilusão – e muito mais ainda quando se trata da parentalidade. Mãe solteira por opção (adotou sozinha os filhos Jackson, de seis anos, e August, de três), admite prontamente que aceita toda a ajuda que puder ter. «Tenho a sorte de ter uma ama a quem posso recorrer e de a minha mãe viver a 10 minutos de distância. E tenho umas tias e uns tios incríveis presentes na vida dos meus filhos e que estão sempre disponíveis para eles e para mim», refere.

«Em última análise, sei que sou uma mãe fantástica quando me encontro num bom lugar. Mas existe um enorme estigma em torno da ideia de [pedir] ajuda, ou de não ser capaz de fazer tudo sozinha, ou de ter de ser perfeita. Temos de eliminar esse estigma e de dizer que não existe vergonha nenhuma nesse tipo de situações.»

Esta maneira de ser sem vergonhas nem pretensiosismos é uma caraterística que parece dominar a vida de Charlize. Está presente em tudo, desde a sua rotina matinal de beleza «não-existente» («Ouça, eu tenho dois filhos»), até à sua facilidade em praguejar (a pedido, profere descontraidamente uns quantos palavrões em afrikaans, a sua primeira língua), até à expressão do seu rosto na nova campanha comercial do J’adore, quando marcha à frente de um grupo de mulheres envergando vestidos cintilantes, com um sorriso ligeiro como se soubesse uma anedota que não vai partilhar com ninguém.

Está igualmente presente, como é óbvio, nas escolhas dos filmes em que participa – o próximo, por exemplo, é Fair and Balanced, o primeiro filme acerca do movimento #MeToo. Nele, Charlize interpreta o papel da vedeta da Fox News Megyn Kelly, uma das muitas mulheres que acusaram o seu presidente Roger Ailes de exercer sobre elas chantagem sexual. Se bem que a carreira da atriz possa ter começado com uma série de «papéis decorativos», como lhe chamou um crítico, ela tem demonstrado a sua profundidade – e ânsia por papéis mais negros. Para o filme de 2003 Monstro, que conta a história real da prostituta sem-abrigo Aileen Wuornos, que matou a tiro o seu violador e depois voltou a matar mais oito vezes, Charlize ganhou mais de 13,5 quilos, usou dentes falsos pontiagudos e uma caraterização que lhe ocultava a cútis de boneca de porcelana – e ganhou um Óscar.

Voltou a aumentar de peso para o recente filme Tully (outro possível candidato ao Óscar), em que desempenha o papel de uma mulher exausta após o nascimento do terceiro filho, tendo ganho desta vez quase 16 quilos. Existe uma cena na qual ela despe uma T-shirt manchada e fica sentada à mesa do pequeno-almoço com um flácido soutien de amamentação e um ar desleixado. «Mamã, mas o que é que se passa com o teu corpo?», pergunta-lhe a filha do filme, chocada.

A adoção foi o seu plano de sempre, insiste ela constantemente. Foi uns dois anos depois de a sua relação de nove anos com o ator irlandês Stuart Townsend ter terminado em 2010 que Jackson, um bebé negro que adotou na África do Sul, entrou na sua vida. (Namorou também durante um tempo curto com Sean Penn.) Considera que a adoção continua a ser mal compreendida. Arrepia-se, por exemplo, com a noção de os pais adotivos serem vistos como estando a fazer algo de «bom», a «salvar» crianças, e com a ideia de que não sermos parecidos com os nossos filhos é de alguma forma problemático. «Penso que os bebés nos escolhem a nós tanto como nós os escolhemos a eles. Por isso, a ideia de que essas encomendas vão ser exatamente iguais a nós é um mito. Acredito nisso. Em última análise, são as crianças que nos descobrem.»

Quem não conhece a sua vida antes de chegar a Los Angeles, com uns envergonhados 19 anos, 400 dólares no bolso e uma mala tão desconjuntada que estava presa com ganchos de cabelo, pode ter desculpa por pensar que a sua história foi uma daquelas típicas de Hollywood – a modelo que acabou por se tornar atriz, a ingénua que acabou por ser bem-sucedida. A beleza, afinal, abre muitas portas e o trabalho como modelo foi de facto um trampolim. Depois de sair da sua África do Sul natal aos 16 anos, de ter trabalhado em Milão e Paris, mudou-se para Nova Iorque, onde continuou a carreira de modelo, mas também se inscreveu na prestigiada Joffrey Ballet School, na esperança de continuar a formação que iniciara aos quatro anos – esperança que rapidamente se desvaneceu quando ambos os joelhos «cederam».

Iniciou a representação quando foi vista por um caçador de talentos, num banco, «suplicando e implorando» ao caixa que aceitasse o último cheque que tinha ganho como modelo. O caçador de talentos ocupou-se dela e os seus créditos como atriz em breve começaram a aumentar – passou do seu primeiro papel insignificante, dobrado, em A Revolta dos Filhos da Terra para papéis em que contracenava com Keanu Reeves e Al Pacino (O Advogado do Diabo, 1997) e com Johnny Depp (A Mulher do Astronauta, 1999). Ma nenhum destes papéis de namorada e de esposa mostrou realmente aquilo de que ela era capaz.

Monstro mudou tudo isto. A sua realizadora, Patty Jenkins (que a seguir faria Mulher Maravilha), viu para lá da beleza do rosto e escreveu o papel para Charlize. «Pensei, se ela se empenhar nisto, sei que se empenhará até ao fundo – porque eu já a tinha visto empenhada mesmo em papéis maus», disse na altura Jenkins.

Mas só depois da estreia do filme é que Charlize falou sobre a sua infância. Filha única, cresceu numa fazenda a cerca de 50 quilómetros de Joanesburgo, com a mãe, Gerda, e o pai, Charles, um alcoólico que maltratava ambas verbalmente. Aos 13 anos, frequentava um colégio interno especializado em artes e, durante uma das suas visitas a casa, já com 15 anos, Charles regressou a casa bêbedo, ameaçando matar as duas e disparando a caçadeira para dentro do quarto de Charlize. Gerda pegou na sua própria arma e matou-o. Foi ilibada e, durante anos, Charlize não mencionou o incidente, contando que o pai morrera num acidente de viação, enquanto a mãe a encorajava a prosseguir com a sua vida. «Penso que lidámos ambas bastante bem com o que sucedeu naquela noite», disse a atriz o ano passado. «Temos ainda de lidar com a vida que tínhamos – e isso é o que as pessoas não compreendem de facto. Não se trata apenas daquilo que aconteceu numa noite.»

Depois de Monstro começou a obter papéis de protagonista, como o da mineira alvo de assédio sexual em Terra Fria (2005), que lhe valeu mais uma nomeação para o Óscar, e em 2006 integrava já a lista das atrizes mais bem pagas da The Hollywood Reporter. Apesar disso, quando a Sony foi alvo de pirataria informática, revelando a disparidade de salários entre atores e atrizes em Hollywood, ela percebeu que estava a ser mal remunerada e, ao que consta, usou esse facto para negociar um aumento de 10 milhões de dólares no filme de 2016 O Caçador e a Rainha do Gelo.

«Sou a primeira a reconhecer que estou numa posição luxuosa incrível para poder dizer a um estúdio: “Ouçam, quero um pagamento igual, ou não faço o filme”. Esta não é a realidade de muitas mulheres. A luta tem de ser maior do que isso: precisamos de legislação para que as mulheres estejam protegidas», afirma.

«Temos de ultrapassar esta ideia de que as mulheres murcham e os homens se tornam no mais belo Bordéus. Isto precisa de mudar – e penso que, em última análise, vai-nos caber a nós fazê-lo.»

Se bem que ela cuide de si própria («Tiro algum tempo para mim depois de os miúdos já estarem deitados, para limpar, exfoliar e hidratar a pele convenientemente, para de manhã poder limitar-me a passar água e aplicar um protetor solar»), admite que algumas vezes acorda a sentir-se uma supermulher, do tipo «como é que estou a encarar tão bem isto do envelhecimento?».

«E há dias que são mais do tipo “isto está a acontecer tão depressa, não sei se estou a sentir-me bem com esse facto”. Mas todas estas coisas se tornam mais fáceis quando mudamos tudo lá fora, no mundo que vemos e ouvimos. E, se eu puder fazer parte disso, romper esse ciclo, é sempre a minha linha de orientação.»