Campo de Ourique é o bairro dos franceses, mas eles querem-no português

Lisboa, 12/04/2019 - Reportagem comunidade francesa em Campo de Ourique. Dacquoise, Rita e Ivo Camões ( Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens )

Naquele que já era conhecido como bairro dos franceses, foram aparecendo lojas de baguetes, queijos, pastelaria fina e, mais recentemente, um talho em que se corta a carne “à francesa”. Campo de Ourique tem a maior comunidade francesa da cidade. E há décadas que se renova e desencadeia transformações sociais.

 

Texto de Marina Almeida
Fotografia de Nuno Pinto Fernandes (Global Imagens)

 

A fama de bairro francês de Lisboa escuta-se nas ruas. Mães com filhos, famílias, casais, rua fora, no Jardim da Parada, no mercado, no café. Um palrar que se mistura com o dos outros habitantes, turistas e residentes chegados de outras paragens. “De há uns tempos para cá, o que se nota é que há muita gente a falar francês na rua”, diz Pedro Cegonho, revelando que a Junta de Freguesia de Campo de Ourique, a que preside, já teve de aumentar a oferta de aulas daquela língua na universidade sénior: “Há muita gente a querer reciclar o francês para poder comunicar com o vizinho.”

Números oficiais mostram que há “cerca de mil” cidadãos franceses residentes no bairro. São os inscritos na secção consular da Embaixada de França e representam “pouco menos de um terço dos franceses residentes no município de Lisboa”. No entanto, a representação oficial admite que “o número poderá ser um pouco superior”, porque o registo consular não é obrigatório.

Campo de Ourique é um dos bairros de eleição para os franceses que vivem em Lisboa.

A Biblioteca e Espaço Cultural Cinema Europa tem 20 leitores franceses inscritos, mas também este número peca por defeito. No centro de Saúde do Santo Condestável, são 68, e nas quatro unidades de saúde que servem aquela zona, somam-se 757 utentes de nacionalidade francesa, segundo dados da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Ninguém tem o número exato, mas há uma certeza: Campo de Ourique é um dos bairros de eleição para os franceses que vivem em Lisboa. Uma das explicações é evidente: a proximidade do Liceu Francês Charles Lepierre.

A família Bruder está há três anos e meio a viver em Campo de Ourique.

Alice Bruder, 48 anos, diz que esse foi o primeiro critério para se fixar ali com o marido, François, e o filho, Alexis, de 17 anos. A família vive há nove fora do país natal, acompanhando a atividade profissional do marido numa multinacional automóvel. Estão há três anos e meio em Campo de Ourique. Alice recebe-nos na casa que, por sorte, encontraram num bouche-à-oreille, porque outra família francesa partiu. Faz toda a vida a pé e conhece os vizinhos: “Todos são gentis, dizem bonjour, falamos um pouco.” Este contacto é ainda mais valorizado porque antes viveu na Alemanha, numa zona em que tinha de recorrer muito ao carro e a língua era um obstáculo – “na Alemanha não podemos inventar palavras”. A chegada a Portugal foi “fácil, compreendemo-nos verdadeiramente na forma de viver latina”.

Annie Maitrot e Jean-Luc Cid mudaram-se há seis anos. Percebem quase tudo o que dizemos, mas ainda tropeçam nas palavras do seu país de origem. Apaixonaram-se pelo país durante umas férias. “Decidimos vir em 2013 para fazer um projeto de negócio. O Jean-Luc conhece muito bem o vinho francês e eu bebo muito [risos]. Iniciámos um negócio de vinhos franceses”, explica Annie. Escolheram Campo de Ourique, porque algumas pessoas com quem se aconselharam disseram que era um bom bairro para o negócio.

La Pétillante, loja de vinhos e champanhes franceses em Campo de Ourique dos franceses Annie Maitrot e Jean-Luc Cid.

Nasceu La Pétillante, loja de vinhos e champanhes franceses. São importadores diretos, trabalham com pequenos produtores e querem oferecer produtos franceses a preços acessíveis. Os vinhos variam entre os 6,60 e os 87 euros, já o champanhe começa nos 26 euros. “Temos vinhos para beber”, sublinha ela. “Não é um investimento, é para beber.”

O negócio corre bem. Os clientes são metade portugueses, metade estrangeiros, não necessariamente compatriotas. Há também ingleses, gente do Norte da Europa, italianos, espanhóis e brasileiros, explica Jean-Luc antes de nos dar uma rápida lição sobre as quatro regiões do terroir de Champagne.

“No início os portugueses só queriam grandes marcas. Agora vêm e querem os pequenos produtores. E não é só uma garrafa, são caixas!”, diz. Já o casal faz outras opções. “Vendemos vinhos franceses, bebemos vinhos portugueses.” Annie faz uma careta quando falamos do número crescente de compatriotas que procuram o bairro. “Há muito francês, muitas mudanças, mas ainda é um bairro muito agradável. Vivemos aqui e fazemos tudo aqui, só saímos para ir à Ericeira.”

Annie e Jean-Luc são amigos de Christian Bayon, o bretão que faz violinos em Lisboa há três décadas. São naturais da mesma região de França, mas descobriram por acaso que eram vizinhos em Campo de Ourique quando se cruzaram numa das ruas do bairro. “É a máfia da Brrretanha”, diz Annie bem-disposta.

Christian Bayon, o bretão que faz violinos em Lisboa há três décadas.

Encontramos Christian Bayon no seu ateliê. Recebe-nos de sorriso aberto. “Vim por ambição profissional, uma coisa em que nenhum português acredita”, diz. Explica que, na altura, em 1989, o mercado francês de luthiers estava dominado por dois ou três nomes, os outros “não existiam”. E Christian queria existir, construir violinos, fazer da madeira música. Começara o ofício sozinho, com a ajuda de um livro. Aprendeu tão bem que ganhou um prémio muito importante no seu país e teve a oportunidade de aprender ainda mais com os grandes mestres. “Comecei a fazer instrumentos em 1976. Nesses anos toda a gente queria fazer trabalhos manuais”, conta.

Trabalhou com Stradivarius, para músicos famosos como Rostropovich. Em 1986 abriu o segundo ateliê em Rennes, onde fazia restauro de violinos, mas o que queria era construí-los. “Comecei a procurar um sítio com uma vida musical interessante. Na altura nenhum francês pensava em Portugal. Tive várias ideias, mas por acaso eu assinava uma revista francesa que já não existe, e havia avisos para audições para a Regie Sinfónica do Porto, em 1989. Decidi vir passar uma semana em maio de 1989 em Lisboa para fazer o estudo de mercado”, conta Bayon.

“Tenho um amigo português que diz que Campo de Ourique é a capital de Lisboa. Eu adoro! Tem vida própria.”

Conheceu músicos da Gulbenkian e do São Carlos. No final desse ano, vendeu a sua empresa e mudou-se para Portugal. Nos meses em que permaneceu em França, teve aulas de português quatro vezes por semana. Quando chegou, falava bem a língua, mas não percebia nada.

Christian senta-se na cadeira alta de madeira no meio do luminoso ateliê. Não tem mãos a medir. Há 16 anos que só faz instrumentos musicais. Cada violino, feito a partir de pedaços de madeira que deixa a envelhecer durante décadas, como numa cave de vinhos, custa 25 mil euros e leva, em média, um mês de trabalho. “Essa transformação da madeira para a música desde sempre me fascinou e, 43 anos depois, continuo a achar mágico. Parece que saímos da coisa mais terrena para a música de Bach, parece que somos um elo entre o mais corrente e o mais espiritual. É um lugar simpático.”

Agora o sítio onde vive já não tem importância para o trabalho, mas Christian não pensa em sair do bairro. “Tenho um amigo português que diz que Campo de Ourique é a capital de Lisboa. Eu adoro! Tem vida própria. Antigamente era uma mistura, havia imensos velhotes e de cada vez que um morria vinha um casal da classe média com filhos e três carros…” Agora chegam famílias francesas, “uma chatice. As minhas filhas não gostam nada disso”, diz. “Cheguei antes da moda, ainda bem para o preço do meu apartamento, valorizou sem ter feito nada por isso.”

Ulysse Jasinsky, 29 anos, apaixonou-se pela cidade durante um Erasmus em Gestão Internacional, durante o qual trabalhou no Liceu Francês para ajudar a pagar as contas. Todos os dias passava à porta do número 30 da Rua Ferreira Borges. Um dia, viu que a loja de roupa que ali existia estava fechada. “Cheguei à proprietária e poucos dias depois fechámos contrato. Foi há dois anos”, conta na Maitre Renard, a fromagerie pejada de queijos e de cheiros diversos. Escolheu abrir uma queijaria, especializada em queijos de pequenos produtores da região de onde é originário – Poitou-Charentes, “mais abaixo da Bretanha” – porque era aquilo de que tinha saudades, até pela tradição familiar de comer queijo todos os dias.

Ulysse Jasinsky, 29 anos, apaixonou-se por Lisboa durante um Erasmus em Gestão Internacional

A pequena loja tem mais de 80 variedades. No tempo frio ultrapassa a centena – “porque durante o inverno as pessoas querem comer mais gorrrdo. Durante o verão e primavera a gente come mais salada, menos gorrrdo. No inverno, é o período das festas, Natal, Ano Novo. Vendemos muito para fazer grandes tábuas de queijos.”

Chegou a ter queijo português, porque os clientes nacionais lhe falaram nisso, mas depois apenas compravam o francês. Atualmente, a Maitre Renard tem queijos franceses e alguns estrangeiros. Já os clientes não são só compatriotas. “Não, não, não! Não quero fazerrr isso. Não quero ter uma loja só para franceses. Atualmente metade dos meus clientes são portugueses, 30% são franceses e o resto é brasileiro, inglês, etc., que vêm de propósito aqui”, conta. Fornece embaixadas, restaurantes e muitos casamentos de portugueses.

Metade dos clientes das lojas de produtos franceses são portugueses, disseram os lojistas contactados pelo DN. Nuno Dias, sociólogo especialista em migrações do ISCTE, ajuda a perceber o fenómeno: “Quando as populações se estabelecem e criam raízes, tendencialmente fazem-no através da criação de um conjunto de referências fortes, identitárias, culturais, de consumos, como os restaurantes, as padarias, etc. Pode ser de facto um momento interessante e mais um momento de transformação do bairro e da cidade.”

O especialista não conhece nenhum estudo que tenha sido feito especificamente sobre o bairro e refere que “estas correlações são sempre difíceis de provar, são fenómenos multidimensionais. Quando uma pessoa vai ver uma casa, quando procura um bairro, se há identificação com o comércio praticado, com o tipo de pessoas que passeiam na rua, essa relação é inegável. Começa a haver a perceção de que o bairro é um bairro de franceses, é uma espécie de profecia autocumprida. E entretanto o bairro começa mesmo a ter uma sub-representação de famílias francesas que o procuram porque está associado a isso”, refere. Neste processo, a localização do Liceu Francês pode funcionar como uma segunda embaixada do país, caucionando a fixação nas imediações.

Pedro Cegonho admite que o interesse da comunidade francesa vem já de antes da instalação da escola nas Amoreiras (em 1952). Terá que ver com a localização da embaixada, em Santos, e o facto de ser um bairro de ruas largas, com luz, e uma vida intensa.

“Estamos a falar de pessoas que hoje estão perfeitamente integradas na vida social do bairro, fazem as suas compras, têm as suas amizades. Nos últimos anos temos uma população diferente. Temos reformados que aproveitam as leis fiscais benéficas para quem queira fixar residência cá, mas temos também casais jovens que por alguma razão da sua vida decidiram tentar abrir um negócio em Portugal”, diz. A segurança do país, o cosmopolitismo de Lisboa e o maior poder de compra que aqui têm pesam na decisão.

O autarca, que está a preparar, com o vereador Hermano Sanches Ruivo, da Câmara de Paris, a geminação do bairro com “um arrondissement” da capital francesa, diz, a rir: “Nunca comi tantos croissants na vida como de há uns anos para cá. As baguetes e os croissants entraram completamente na nossa rotina. Temos restaurantes de moules [mexilhões], Campo de Ourique não era propriamente conhecido pelos moules, agora tem dos melhores.”

Remi Pinto de Sousa põe em prática em Campo de Ourique a arte de cortar carne, que aprendeu em França.

Alice Bruder não é cliente dos produtos franceses, a não ser em ocasiões excecionais. “Até fiquei constrangida quando me apercebi da quantidade de lojas francesas”, diz. “O meu filho disse logo: “Em Portugal é português.” Queremos comer produtos portugueses. Além disso, os franceses são mais caros e os portugueses são muito bons.” A única exceção é o talho, que tem carne maturada com corte especial, o recém-inaugurado talho francês, onde Remi Pinto de Sousa põe em prática a arte de cortar carne, que aprendeu em França.

Lusodescendente, sorriso aberto, explica que trabalha com carne nacional maturada – “o vitelo vem dos Açores, o porco e o borrego vêm do Alentejo” – e que a diferença é o corte. Os clientes são “portugueses, franceses, uma mixature. Está a correr muito bem.” No boucheur da Rua Correia Teles fazem ainda o fiambre, os patés e alguns preparados, como o frango com limão, uma especialidade que se “come às fatias fininhas”.

Na Dacquoise de Rita e Ivo Camões: a recém inaugurada pastelaria francesa do bairro.

Rita e Ivo Camões abriram a Dacquoise, pastelaria francesa de Campo de Ourique, há quatro meses. Regressaram ao país depois de quatro anos e meio em Saint-Tropez a trabalhar com um chef local para arriscar no seu próprio negócio. Ali os bolos são coloridos e variados, pequenas tartes, muita fruta. O chef pasteleiro, que entra todos os dias às três da madrugada, utiliza matéria-prima francesa e, além da pastelaria fina, faz também os tradicionais caracóis ou bolas-de-berlim. Os clientes são essencialmente portugueses.

No início foi difícil adaptar-se, essencialmente pela língua – “é um obstáculo muito grande” -, por isso hoje quer ajudar os outros.

Françoise Conestabile ainda não foi à Dacquoise. “Não, não sou gulosa.” Vive em Campo de Ourique há 22 anos e é a presidente da AFE (Assemblée des Français de l”Étranger), que só na zona de Lisboa tem 650 membros. Não tem mãos a medir no apoio aos recém-chegados, em reuniões e na divulgação da língua portuguesa, mas arranja tempo para participar nas atividades da junta de freguesia.

Françoise Conestabile está em Campo de Ourique há décadas e não pensa sair

No início foi difícil adaptar-se, essencialmente pela língua – “é um obstáculo muito grande” -, por isso hoje quer ajudar os outros. De resto, gosta da gastronomia portuguesa. “Não quero que seja só bairro francês, quero que fique muito português!”