Leiloeira Bonhams veio a Portugal à procura de preciosidades chinesas. E vai levá-las à semana da arte asiática em Londres

O raro par de jarras da dinastia da família rosa, dinastia Qiag, com origem em Portugal foi vendido em leilão por mais de 60 mil euros (FOTO: Bonham's)

O especialista em arte asiática da leiloeira britânica Bonhams esteve em Lisboa a avaliar peças que estão em mãos portuguesas. Edward Luper admite que uma delas é «muito importante» e vai ser disputada em maio na semana da Arte Asiática. Em 2018 vendeu um par de jarras por 64 mil euros.

Texto de Marina Almeida

O anúncio foi posto no jornal. Durante um dia de janeiro o especialista de arte asiática da Bonhams estaria em Lisboa a avaliar peças. Foram 20 os que compareceram à chamada, e foram recebidos, à vez numa sala luminosa da sede portuguesa da leiloeira britânica. Surgiram pessoas com todo o tipo de peças, como porcelana, terracota, bronze ou mobiliário. Uma delas será, muito provavelmente, um dos destaques da semana da Arte Asiática de maio, admite Edward Luper.

O especialista em Arte Chinesa viaja duas vezes por ano até Lisboa em busca destas preciosidades. «Portugal tem uma longa e interessante história. Lisboa foi o centro de um enorme império marítimo, do Brasil até Goa, Macau e Japão nos séculos XV e XVI. Não trocavam apenas ouro e prata, mas também porcelanas, seda, caixas, trabalhos de lacre, todos os tipos de obras de arte. E essas peças ainda estão aqui hoje, as famílias guardaram-nas. E eu encontrei no ano passado um par de jarras família rosa da dinastia Qing muito raro, do século XVIII, que foi vendido por 58 500 libras, cerca de 64 mil euros em leilão», conta. «São coisas muito raras, muito bonitas. Portugal tem muitas destas coisas», salienta.

Edward Luper está no seu impecável fato e gravata. A vida dele é isto: percorrer a Europa em busca de tesouros da arte chinesa com sobriedade, discrição, e paixão. «O mercado atual é dominado por clientes chineses. São cerca de 80% e o seu principal interesse é porcelana imperial com o selo imperial, e são estes os clientes que atualmente fazem os preços», refere. O especialista da Bonhams, fluente em chinês, com doutoramento feito em Harvard em História e Cultura da China, é um apaixonado por esta realidade. E os momentos de «caça ao tesouro» são um dos que o encantam especialmente: descobrir algo raro, «ter a história nas mãos».

Em seis meses, analisa mais de três mil objetos. Chegam-lhe através do contacto presencial ou de fotos que as pessoas lhe mandam, e das suas viagens. «Só uma pequena percentagem, umas 20 peças são selecionadas por mim para leilão. São objetos que têm de valer mais de cinco mil libras», revela.

Sobre o resultado da jornada lisboeta é discreto e reservado. «Acho que, não posso dizer muito já mas há a possibilidade de uma peça muito importante surgir em breve», diz sem adiantar mais detalhes.

Luper enquadra a situação atual do mercado: «Na arte chinesa hoje em dia há essencialmente duas vertentes do mercado: há a porcelana imperial e obras de arte feitas para o mercado chinês, e há obras de arte chinesas feitas para exportação, para o gosto europeu, para Espanha, Portugal, Holanda. E Portugal tem muito disso, famílias ricas do século XVI encomendaram serviços de jantar muito caros com os seus brasões. São enormes, por vezes tinham cem peças!»

Depois de uma fase em que se privilegiava as peças feitas para dentro do país, estas atingiram o topo a nível de preços e atualmente os intermediários já procuram outra oferta. «Eu creio que isso atingiu um pico, os preços para essas peças são tão altos, que agora os negociantes procuram outras coisas em que investir, e peças como esta [aponta para o par de jarras leiloado em 2018, proveniente de Portugal] são muito interessantes. Elas ficam muito bem se tiver uma grande casa e as pessoas agora na China querem impressionar, querem possuir algo que seja surpreendente, e estas peças estão a tornar-se mais populares», refere.

Em 2012 a Bonhams vendeu por 3 milhões de euros uma coleção de um colecionador privado português. Era um serviço completo em porcelana. «É o tipo de coisa que tem uma elevada procura e fez 25 milhões de dólares de Hong Kong, é cerca de 2,7 milhões de libras [3 milhões de euros]. Portugal ainda tem tesouros raros, só temos de os encontrar», frisou.

Filipa Rebelo de Andrade, representante da Bonhams em Portugal, recorda um queimador de incenso em cloisonée que foi vendido por 1,3 libras (1,4 milhões de euros) no mesmo ano. «Nesse catálogo todos os items são muito importantes, top quality, todos provenientes do mesmo dono», acentuou. A peça «é enorme e o que é interessante é que foi o segundo conhecido no mundo. O par está no museu Victoria & Albert, em Londres, e foram feitos para o Palácio de Pequim. É um tesouro», refere.

«Em Portugal, devido à sua história e às ligações marítimas, faz sentido que aqui se encontrem boas peças. Se calhar encontrar uma boa peça em Portugal, se tem essa história e uma boa proveniência, de uma família que a possui há cem ou 200 anos, isso torna-a mais importante. Valoriza-a aos olhos do comprador, por haver uma história pessoa, e dá-lhe segurança para comprar», enfatiza Edward Luper. Admitindo, no entanto, que as falsificações são um desafio que enfrenta na sua profissão, a proveniências das peças pode ser uma boa garantia de autenticidade, sustenta.

A Bonhams está em Portugal desde 2009. A empresa não revela valores de transação desde que abriu a delegação no País mas adianta que muitos portugueses que são colecionadores. «Os portugueses têm um gosto conservador», diz Luper, admitindo que também há um interesse por peças de arte chinesa, ligadas à história do país. Mas de Portugal chega aos leilões britânicos outro tipo de peças, como um Aston Martin de 1969, que superou os 900 mil euros em leilão.

O especialista inglês preparava-se para regressar a Londres para fazer o que mais gosta em todo o processo de caça ao tesouro: investigar a história das peças que descobriu em Lisboa. «O que mais gosto de fazer é estudar a história das peças. Tenho um doutoramento e adoro investigar. Adoro poder pegar numa peça, algo que num museu não podemos fazer, e aqui posso fazer todos os dias. É divertido, é como ser uma criança numa loja de brinquedos, e poder brincar com tudo». Risos.