Beija-me Depressa: podia ser um poema, mas é um bolo

Foi criado por um correspondente do Diário de Notícias em Tomar e a receita continua infalível: 12 bolas de doce de ovo aconchegadas numa caixa de cartão ilustrada, com o “reclame”, Beija-me Depressa. É marketing vintage, que parece não ter tempo.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Henrique tinha 16 anos quando foi apanhado a dar um beijo em Maria, de 13, na pastelaria onde ambos trabalhavam em Tomar. Tiveram de se casar. O beijo não fora suficientemente rápido como o bolinho que viria a dar fama à pastelaria nabantina: Beija-me Depressa. O casamento dura até hoje (e o negócio também).

“Éramos uns putos… De forma que estive casado dois anos sem a ter. Fui para Lisboa, por causa do beijo”. Henrique Neves tem 82 anos. Senta-se numa das mesas da pastelaria Estrelas de Tomar, que abriu “em sociedade” com os padrinhos em 1960 depois de regressar de uma espécie de exílio nupcial forçado na capital onde “tirou o curso” na Pastelaria Mexicana – na realidade esteve a trabalhar como pasteleiro, que não havia isso de “tirar cursos”.

Da fábrica a três quilómetros da cidade saem os Beija-me Depressa!, mas também outros doces. As caixas de todos eles dizem: “os doces da Estrelas de Tomar são os preferidos, porque entre os bons são os melhores.” A caixa de Beija-me Depressa! custa nove euros. Por alturas do Dia dos Namorados, há uma loja de Lisboa que compra “várias.”

O Beija-me Depressa! é o doce principal da casa. Esta urgência da doçaria tradicional (escreve-se assim mesmo, com exclamação) consiste em alinhar doze bolinhas de doce de ovos envoltas em açúcar de pasteleiro, numa caixa de cartão com um design dos anos 60 que se mantém intacto. Aliás, tudo se mantém intacto – os bolos (“doce de ovos e açúcar e um segredo nosso”), e a apresentação (“a imagem fica sempre na vista das pessoas”). “Fazem-se muitas dúzias por dia, somos muito visitados, toda a gente vem ao Beija-me Depressa”, conta o senhor Henrique. Quem criou o ex-líbris foi o padrinho, já falecido, “Jacinto Teixeira de Carvalho, correspondente do DN em Tomar. Foi ele que inventou o bolinho.” E o nome. “Não tínhamos nada aqui que chamasse a atenção dos clientes, fizemos uma especialidade.” (Para quê complicar?)

Henrique Neves, o pasteleiro, já passou o testemunho ao neto (Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

Lembra-se senhor Henrique, de onde vem o nome? “O Beija-me Depressa! nasceu porque Tomar é uma cidade de muitos viajantes que vinham de Lisboa. E, e como tínhamos a pastelaria, criámos o bolo para eles levarem às mulheres. Fizemos uma coisa mais sugestiva”. Ri-se, com malandrice suave garantindo que desconhecer histórias dos desfechos da oferta (e que nunca teve nenhum pedido de namoro ou casamento em plena pastelaria). E a caixa? “Foi um rapazinho desenhador nosso amigo… São dois irmãos muito bonitos, nossos vizinhos [hoje terão uns 70 anos]. Tirámos-lhes a fotografia, ele fez o desenho, fizemos a caixa”, que se mantém-se inalterada, com o “reclame” do menino e da menina a pegar num bolo e cheia de “dizeres”, em todas as faces, até no fundo. “Eu mantive sempre, sempre igual”. Mesmo quando os alunos do Politécnico vieram com ideias de mudar as cores.

Henrique, o velho pasteleiro murmura: “A todo o português se impõe o dever de visitar a cidade de Tomar”. É o início da fatia de texto na base da caixa dos beijinhos, uma recordação da visita à cidade templária. Ideia do jornalista que, nas páginas do Diário de Notícias, dava voz à terra como correspondente. A 5 de maio de 1971, na secção “Portugal em todos os quadrantes”, Jacinto assinava uma notícia de pé de página intitulada “Tomar em prol do turismo”. Assinalava a falta de uma placa para o visitante saber o caminho para subir ao castelo de Gualdim Pais e ao terraço “donde se desfruta lindíssimo panorama” (sic). Meses antes, a 3 de março, perorava sobre o edifício da biblioteca pública: uma longa luta para nem ao arquiteto nem ao construtor ocorrer dilatar o espaço da casa do Dr. Vieira Guimarães para os livros que haveriam de chegar de oferta. Por exemplo, os 20 mil volumes do tomarense Dr. António Cartaxo da Fonseca, “muitos de consagrados escritores, ricamente encadernados”. (Uma biblioteca sem futuro não era bom augúrio para uma cidade.)

Lembra-se senhor Henrique, de onde vem o nome? “O Beija-me Depressa! nasceu porque Tomar é uma cidade de muitos viajantes que vinham de Lisboa. E, e como tínhamos a pastelaria, criámos o bolo para eles levarem às mulheres. Fizemos uma coisa mais sugestiva”.

Padrinho primeiro, e afilhado depois, tentaram manter a pastelaria mais antiga de Tomar nos roteiros turísticos. Henrique nunca quis mexer no valor seguro que são os Beija-me Depressa!, esta espécie de urgência da doçaria tradicional portuguesa, que arranca um sorriso a quem a descobre ou redescobre. Hoje é o neto, Roberto Carlos, que está ao leme da Estrelas de Tomar, sucedendo ao filho, João. “O meu neto, que é muito esperto nisto, meteu-se na internet foi fazendo coisas. Fomos singrando, singrando e estamos felizes”.

Henrique abriu caminho até à terceira geração, levando a pastelaria às costas do Estado Novo para a Democracia. Em 1960, no regresso a Tomar, depois do “curso” na Mexicana, abre a Estrelas de Tomar, em sociedade (vinha recomendado aos bons fornecedores pelos antigos patrões, o que ainda hoje o comove). Inicialmente apenas tinha porta aberta para a Rua Serpa Pinto, só seis anos mais tarde compraram a outra metade da loja e a casa passou a atravessar todo o quarteirão: abriu-se a grande janela sobre o Nabão (e a segunda porta, para a Avenida Marquês de Tomar). Em 1974, adquiriu a parte dos padrinhos.

A montra cinema para o Rio Nabão (Gonçalo Villaverde / Global Imagens)

Nos anos 80, Henrique comprou um terreno a três quilómetros da cidade, para onde se mudou, paredes-meias com a pequena fábrica dos bolos: “De vez em quando vai lá a ASAE, fica maravilhada com as minhas instalações”. Dali saem os Beija-me Depressa!, mas também os Queijinhos Doces, ou as Estrelas de Tomar. As caixas de todos eles dizem: “os doces da Estrelas de Tomar são os preferidos, porque entre os bons são os melhores.” A caixa de Beija-me Depressa! custa nove euros. Por alturas do Dia dos Namorados, há uma loja de Lisboa que compra “várias.”

Sentamo-nos numa das mesas da pastelaria, cuja sala fica, do lado do Rio Nabão, um meio metro abaixo do nível da estrada. Ali estamos como no cinema, a ver os carros, as pessoas e o tempo a passar do outro lado da grande vidraça (em 1966 o vidro teve de vir de França e deu “uma trabalheira” a montar). “É um postal”, repete, “é um postal”. A loja também se mantém inalterada – embora o neto, Roberto, já tenha inventado uma banda desenhada que conta a história do avô e preenche as belíssimas montras interiores. Henrique Neves cumprimenta quem passa, clientes antigos, outros mais novos – “bem haja, bem haja”. Não vem todos os dias à cidade, e não perde o bom humor. “Tínhamos bolos com outros nomes. Os Bolos de Cama, as Maminhas da Sogra… Um dia até veio cá um casal de professores do Porto que disse ai que pastelaria tão erótica!

(Gonçalo Villaverde / Global Imagens)