Beatriz Machado: “O World of Wine não vai ser a Disneylândia do vinho”

Em junho de 2020, Vila Nova de Gaia vai inaugurar o World of Wine, um megaempreendimento de 30 mil metros quadrados que conta a história do vinho e de Portugal. Enquanto as obras decorrem, afinam-se os conteúdos dos cinco museus que querem revolucionar o turismo.

Texto de Marina Almeida

Beatriz Machado já correu o mundo dos vinhos e nunca viu nada como o que está a nascer nos antigos armazéns de vinho do Porto da Taylor’s, o World of Wine (WoW). A diretora de vinhos do grupo The Fladgate Partnership tem em mãos o Wine Experience (um museu do vinho de mesa português, com 3000 metros quadrados), a escola de vinho e a garrafeira, parte de “um complexo cultural altamente sofisticado”, para contar a história do vinho português, fazer pontes com o mundo e prolongar a estadia dos turistas.

“No WoW, vamos ter vinho, cortiça, design e moda, história, vamos ter copos, vamos ter um espaço para fazer uma refeição. É preciso criar no Porto, no Norte de Portugal, coisas para as pessoas fazerem, para deixarem de ver o Porto como uma cidade de fim de semana. O Porto não é uma cidade de dois dias, tem de ser uma cidade de uma semana. Por isso é preciso dar coisas às pessoas para fazerem, mas coisas bem feitas. Não é a Disneylândia do vinho. Este vai ser um complexo cultural altamente sofisticado”, diz.

A ambição é grande. São 30 mil metros quadrados de área na zona histórica de Vila Nova de Gaia, aos pés do hotel Yeatman e das caves do vinho do Porto, e ali vão instalar-se cinco museus: O museu da cortiça (com o apoio do grupo Amorim), o museu da moda e do design, o museu do vinho, o museu da região do Porto e o museu dos copos. O projeto é do atelier Broadway Malyan.

Durante o verão viajou pelo país, pelas suas cotas, temperaturas, castas, pedras, terroirs variados (faltam ainda Açores, Madeira e Setúbal). E vai servir essa diversidade ao visitante em três mil metros quadrados

A encosta de Gaia está já salpicada de gruas, e os antigos armazéns de vinho do Porto foram já limpos e alvo de reforço das estruturas. Os camiões entram e saem, partilhando as ruas estreitas do centro histórico com os turistas. “Enquanto estamos a preparar o recheio, está a carapaça a ser construída”, conta Beatriz Machado, sentada no bar do hotel Yeatman, também propriedade do grupo Fladgate, tal como o Hotel Infante Sagres, no Porto, ou as caves Taylor’s, Croft e Fonseca.

Já tem parte do trabalho de campo feito para o Wine Experience, o espaço dedicado a todas as regiões de vinhos de mesa portugueses. Durante o verão viajou pelo país, pelas suas cotas, temperaturas, castas, pedras, terroirs variados (faltam ainda Açores, Madeira e Setúbal). E vai servir essa diversidade ao visitante em três mil metros quadrados: “É usar o vinho como fio condutor para conhecermos Portugal e as várias regiões. Basta termos atenção às pistas que vão sendo projetadas nas cidades, e na gastronomia, nas tradições”, diz. A ambição é que toda a gente que saia do Wine Experience perceba “que vinho português é que tem mesmo de provar”.

As obras nos armazéns de vinho do Porto que vão dar lugar ao World of Wine. Em cima, o Hotel Yeatman (André Rolo / Global Imagens)

Ponte para o mundo

Este caminho pelo mundo dos vinhos ensina a conhecer muito mais do que rótulos. Dá-lhes pedra, casta, cheiro, sabor, calor, numa experiência que “qualquer pessoa tem de sentir como se fosse só para ela”. E faz pontes entre as grandes regiões vínicas do mundo e Portugal. “Se alguém gosta de um chardonnay da Califórnia, que vinho português é que tem de provar?” Qual é, Beatriz? “Pode ser um antão vaz, pode ser um viosinho, pode ser um bical. São várias as castas brancas que têm capacidade de passar pela madeira sem serem sobrepostas pela madeira. E nós temos isso em variadíssimas regiões. Temos um alvarinho que pode também ter esse perfil. Vamos fazer pontes entre o produtor e entregar ao consumidor final. Na realidade, é isso que eu faço…”

Com este complexo, um investimento de cem milhões de euros que vai gerar 300 postos de trabalho, o grupo Fladgate quer fixar turistas na região. Espera meio milhão de visitantes no primeiro ano. “Acho que vamos chegar às pessoas que só querem viajar, que querem viajar para um destino seguro, para um destino perto das grandes capitais europeias, autêntico, com a sensação de que é pequeno, mas que tem muito para fazer”, diz Beatriz Machado. O WoW não vai, no entanto, abordar o vinho do Porto – apesar de estar no coração das caves. “Não queremos competir com as caves do vinho do Porto, que são o sítio autêntico para conhecer o vinho do Porto. O que queremos é complementar a oferta, para dar às pessoas mais coisas para fazerem e quererem visitar mais Portugal e outras regiões”, refere.

A especialista revela ainda que a escola de vinhos do WoW vai funcionar diariamente e proporcionar aulas de hora e meia, antes do “mergulho” na Wine Experience. A diretora de vinhos do grupo apercebeu-se, na sua experiência no Yeatman, do enorme interesse do público no curso que ensina a provar vinho. É mais um passo no desmistificar do mundo do vinho.

“Imagine o que é alguém chegar ao fim do dia a achar que é especialista de vinho… E é! E vai ser! O problema do vinho é as pessoas dizerem que não sabem nada de vinho. Claro que sabem! Sabem se gostam, se não gostam. Ninguém diz: ‘eu não sei nada de iogurtes’.”