Da Universidade para o Douro: Sandra e Susana eram as únicas mulheres enólogas

As enólogas Susana Esteban e Sandra Tavares da Silva fazem os vinhos Croché e Tricot para matar saudades. Um hino à amizade que se renova, ano após ano, em néctares memoráveis.

Texto: Marina Almeida | Fotografias Paulo Alexandrino (Global Imagens)

Em 1999 Sandra e Susana chegaram ao Douro, saídas da universidade. Eram as únicas mulheres enólogas a aventurar-se ali entre uvas e adegas. Na altura, Sandra demorava sete a oito horas desde Lisboa até à Quinta do Vale D. Maria. Susana mudara-se de Tui, Espanha, de onde é natural, para trabalhar na Quinta do Côtto. Sandra Tavares da Silva formara-se na Faculdade de Agronomia, em Lisboa, e fizera um mestrado em enologia em Itália. Já Susana Esteban licenciara-se em Ciências Químicas pela Universidade de Santiago de Compostela e fez mestrado em Viticultura e Enologia na Universidade de La Rioja. A amizade entre ambas começou a tecer-se ali.

«Tive imensa dificuldade no Douro. Era mulher, ainda por cima modelo na altura, e de Lisboa. Ninguém queria ter como estagiária uma pessoa com esse perfil» diz Sandra, atualmente com 46 anos. Entre vinhas e vinhos, as relações ganharam força num grupo de enólogos que chegava de paragens distantes e entre as duas mulheres, nasceu uma amizade para a vida.

(Paulo Alexandrino / Global Imagens)

Em 2007 Susana Esteban desceu no mapa e lançou um projeto no Alentejo, em Mora. Uma a norte outra a sul, acabariam por encontrar no vinho o pretexto para se encontrarem mais vezes. «Desafiei-a em 2011 para fazer um vinho juntas. Falávamos muito e nas alturas de decisivas a Susana vinha ao Douro ou eu ia ao Alentejo», conta Sandra.

As duas amigas idealizaram um vinho diferente. «Escolhemos duas castas que são muito complementares, Touriga Franca e Touriga Nacional, queríamos fazer transparecer um estilo diferente, elegante, não com a rusticidade que alguns vinhos do Douro apresentam». Escolheram as vinhas em conjunto, fizeram os contratos e avançaram. O tinto a quatro mãos fez-se num vaivém de emails, telefonemas e viagens de Susana, mapa acima. Provaram juntas os bagos para decidir a data da vindima, seguiram de perto a fermentação, a vindima, o estágio e depois os lotes. E nasceu um vinho sem nome.

«O nome é brilhante para um vinho feito por duas mulheres e porque remete para o perfeitinho, para o pormenor, o ser feito com carinho», diz Susana.

«Procurávamos um nome apelativo, engraçado», recorda Sandra. As duas enólogas estavam com Rita Rivotti, a designer dos rótulos que foi quem sugeriu o nome. Crochet. «O nome é brilhante para um vinho feito por duas mulheres e porque remete para o perfeitinho, para o pormenor, o ser feito com carinho», diz Susana.

«É algo que remete para o hobby», acrescenta Sandra. O Crochet e, em 2014, o Tricot, tornaram-se também o lazer de Sandra e Susana. «Temos os nossos projetos, eu no Douro com o meu marido, a Susana no Alentejo. O Crochet e o Tricot são um hobby, um motivo para estarmos juntas», conta Sandra. «Muitas vezes temos de fazer autênticos malabarismos para nos encontrarmos. Mas quando ser quer sempre se arranja tempo», diz a enóloga espanhola.

Para já com dois tintos, com produções anuais, as duas amigas gostavam de fazer outros vinhos. É uma questão de tempo, assumem. Por estes dias andam num corrupio de vindimas, também das uvas que darão novas colheitas de Crochet e de Tricot. «Momentos intensos», assume Susana Esteban, 49 anos.

Nenhuma das enólogas faz crochet ou tricot. «Sou um desastre!», diz a espanhola. «Não, não somos fadas do lar», corrobora Sandra Tavares da Silva. São fadas da vinha.