A Vista Alegre já tem os pratos, agora vai ter os móveis

A empresa centenária de porcelanas juntou-se à Boca do Lobo. Começaram com uma edição limitada e exclusiva, mas a ideia é fazer linhas de mobiliário corrente. Dos serviços reais ao lifestyle: Vista Alegre já não é só loiça

Texto de Marina Almeida

Começou com um móvel premonitoriamente batizado de «Once Upon a Time». Com este exclusivo bar, revestido a porcelana pintada à mão, e vendido com um serviço de bar em cristal de design exclusivo, a Vista Alegre e a Boca do Lobo deram as mãos pela primeira vez: a história das duas empresas juntas está a começar. «A parceria é para continuar e vai acontecer não só para edições limitadas», disse Nuno Barra, administrador da Vista Alegre. «Vamos começar a fazer mobiliário de linha corrente com a Boca do Lobo», referiu.

O anúncio foi feito após a apresentação do móvel «Once Upon a Time», no atelier de pintura da Vista Alegre, em Ílhavo. O premiado cabinet Pixel da Boca do Lobo, uma das peças icónicas da marca de mobiliário de luxo, surge nesta versão com a Vista Alegre revestido a triângulos de porcelana pintada à mão, em vez da madeira colorida do modelo original.

Este é mais um passo do posicionamento da empresa de Ílhavo no lifestyle. Começou o ano entrando na iluminação em porcelana e cristal, fecha o ano no mobiliário – para já em porcelana, mas também irá ao cristal, adiantou Nuno Barra.

Marco Costa, designer do Pixel e um dos responsáveis da Boca do Lobo, explicou que a mudança de materiais levou a uma «evolução do produto», nomeadamente na base em aço escovado (que perdeu um elemento circular), e no sistema de encaixe dos azulejos.

Na transição para o “Once Upon a Time”, a decoração do móvel é assinada pelo gabinete de design da Vista Alegre e apresenta desenhos florais: um jardim de peónias e duas aves (fénix) chinesas. A inspiração para o desenho foi encontrada no riquíssimo museu da empresa centenária, as Talhas Portugal, pintadas pelo mestre da casa Palmiro Peixe.

Dos 1090 delicados triângulos de porcelana, 741 foram pintados à mão pela equipa de manufatura. O senhor Armando, um dos pintores artísticos da casa, mostrou os desenhos que suportam toda a composição, com indicação detalhada da cor e do padrão. Mostrou também que cada triângulo tem no verso um número, que aponta o seu exato lugar no enorme puzzle que se forma. Tudo começa com um conjunto de quatro azulejos triangulares, onde surgem os logotipos da Vista Alegre e da Boca do Lobo, seguido da numeração da peça: no caso, I/VIII. O “Once Upon a Time” será personalizado, também com o nome do futuro proprietário. No total, e só em pintura, são 500 horas de trabalho para cada móvel.

«Queremos estar ao lado de todas as técnicas manuais do passado. Queremos contar uma história com a Vista Alegre e continuar este legado para que o craftsmanship se possa manter», disse Marco Costa. «No ADN da Boca do Lobo está a recuperação destas artes que estão a desaparecer. Andamos em contraciclo, é a nossa identidade», acentuou Ricardo Magalhães, CEO da empresa sedeada em Gondomar.

Durante a apresentação, os responsáveis das duas empresas foram, discretamente, trocando algumas palavras. Nuno Barra assumiria que já estão a trabalhar no próximo passo. «A Boca do Lobo é a marca portuguesa de mobiliário com maior projeção internacional, em mercados que nos interessam», referiu.

O primeiro encontro entre a empresa centenária, fundada em 1824 (que abasteceu a família real e ainda produz para o protocolo de Estado), e a cosmopolita casa de móveis de luxo, a cumprir 15 anos, deu o primeiro fruto. “Once Upon a Time” custa 45 mil euros e é vendido com um serviço de bar, também em edição limitada, com peças de cristal inspiradas no desenho do móvel, sopradas, lapidadas e gravadas à mão.