A sustentabilidade chega ao Vila Joya: palhinhas de vidro e clientes convidados a limpar a praia

O oásis de descanso e boa mesa na Galé está de volta. A luta contra o plástico é uma novidade da rentrée no ano em que o Vila Joya vai estar em festa: em novembro 20 chefs juntam-se a Koschina nos 20 anos de duas estrelas Michelin.

Reportagem de Marina Almeida

Cheira a tinta e a verniz no Vila Joya. A casa está de pernas para o ar a menos de uma semana da reabertura do boutique hotel. Uma pilha de almofadas em equilíbrio instável sobre a mesa da sala, a esplanada serve de oficina para pequenas reparações, quartos em obras, não se vê uma cama feita ou uma mesa posta. Na cozinha, os enormes frigoríficos estão vazios e um séquito de jovens cozinheiros senta-se em caixas de cerveja a polir o enorme fogão. Parece impossível mas esta segunda-feira não haverá vestígios de pó, de desarrumação, e tudo estará no seu lugar: a grande casa de férias abre oficialmente a temporada.

“Nunca parece mas vai estar tudo pronto. É quase por magia”, diz Sue Reitz, a diretora do hotel. “Vamos pôr todas as coisas no lugar, toda a gente tem a sua checklist“. Já começaram a chegar as novas equipas, que se vão juntando às antigas. Este é um novo recomeço no hotel aninhado na falésia sobre o mar, na estrada da Galé, em Albufeira. O Vila Joya fechou em novembro para férias de inverno. Reabre a 25 de fevereiro. Como qualquer casa de férias, foi alvo de manutenção – pintura interior e exterior, o chão mudado em dois quartos, e três casas de banho novas. Nos corredores pisamos lençóis para não sujar a carpete, que também foi lavada. Gente pintalgada de tinta cruza-se com gente de avental. Ultima-se a renovação do bar, antes deste se encher de álcool – e receber os novos barmen (e as entrevistas ainda decorrem).

( Jorge Amaral/Global Imagens )

Este é um ano especial no Vila Joya. É o 40|20: faz 40 anos que Claudia e Klaus Jung compraram aquela moradia sobre o mar e 20 desde que o chef Dieter Koschina chegou às duas estrelas Michelin no restaurante. “Em setembro vamos ter um concerto de piano na praia, em maio um amigo do Koschina vai cozinhar no Vila Joya Sea, o Stefan Heilemann, vamos ter um evento que vai ter a ver com charutos porque fiz um quadro para o bar com caixas de charutos e comprei tantos charutos que vamos fazer um evento com charutos”, conta Joy Jung, a proprietária. E em novembro, quando se cumprem os 20 anos de duas estrelas Michelin, haverá um fim de semana com 20 chefs a cozinhar. “O Vila Joya é de comer e beber. O Koschina devia fazer um jantar com os pratos dos 20 anos numa das noites e depois vamos ter mais duas noites com 20 chefs a cozinhar”, conta.

A comemoração é também pretexto para um desconto especial para as reservas em março: 40% desconto no quarto, 20% comida. O verão, de maio ao fim de outubro, está lotado – como sempre. Os clientes do costume regressam e escolhem sempre os mesmos quartos. Mas gostam de encontrar uma novidade. “Eles gostam de ver qualquer coisa que esteja diferente. Eu levo os candeeiros de um quarto para o outro, e pensam que são coisas novas”, diz Joy Jung. Tem todos os 21 quartos na cabeça e sabe exatamente o que está em cada um.

Todos os anos o Vila Joya fecha no final de novembro e reabre em fevereiro. Neste período, é feita a manutenção da casa. As equipas de jardinagem e reservas mantém-se no local, as de cozinha, housekeeping, bar, mesa, são renovadas. Este ano, pela primeira vez o Vila Joya vai ter uma diretora de recursos humanos. “Nunca tivemos, mas como já somos mais de cem…”.

Estudo para a nova mesa do bar ( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

Este inverno, Joy dedicou-se também a limpar a pequena praia em frente e o resultado foi um monte de lixo, que se amontoa na varanda. Sapatos, um telemóvel, legos, óculos (vários), uma sola sem sapato, carrinhos, bolas de ténis, fio e redes de pesca. “Vou fazer com eles um mocho ou um quadro, colocar na porta de acesso à praia com um saco e desafiar os clientes a recolher lixo da praia. Os que apanharem mais, vou convidar para um fim de semana. Quero motivá-los para a limpeza”, diz. Além disso, o Vila Joya vai passar a ter palhinhas de vidro e procura soluções para evitar as embalagens de plástico, como as do papel higiénico.

Outra ideia da “passionate owner” do Vila Joya é “fazer a melhor comida do pessoal de Portugal”. Anda à procura de um cozinheiro, mas “muitos dizem sim para os clientes e não para o pessoal”. Joy Jung quer melhorar a alimentação de todo o staff porque é fundamental, admitindo que se “come mal nas cozinhas”, em todos os lados. “Como trabalhamos tantas horas, a healty food é tão importante. Se fazemos em casa devíamos fazer nas empresas. Eu quero mudar isso”, sublinha. A ideia é apresentar menus variados, com inspirações de vários pontos do mundo, mais saladas e fruta.

Dieter Koschina na cozinha do Vila Joya enquanto ainda decorriam as limpezas
( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

A azáfama prossegue no Vila Joya, com os sofás de cores claras cobertos de lençóis, a mesa do chef fora do lugar, a esplanada com chuva e os surfistas no mar, ao fundo. Dieter Koschina chega tranquilo perto da hora de almoço. Andou de férias nas cozinhas dos outros chefs e ainda vai dar um salto à Austrália antes de o sol se instalar no Algarve. É no sol e no mar que se retempera do desafio de conceber menus diferentes todos os dias. Este ano talvez tenha dois menus, um do dia e um menu fixo, com cinco ou seis pratos. “Vou fazer o primeiro mês com calma, a controlar a qualidade”, diz o austríaco que há duas décadas se mudou para o Algarve.

Perfeição e três estrelas

A terceira estrela Michelin, não é para ele assunto. “Duas estrelas é suficiente, madeira, madeira”, diz bem-disposto, procurando onde dar pancadas com os nós dos dedos. “Para ter as três estrelas é preciso ter um menu fixo e o cliente da casa não quer todos os dias comer três estrelas”, diz Koschina, repetindo a frase que já se tornou mantra entre muitos chefs portugueses: “Ter estrela é ter clientes”.

Joy Jung tem outro ponto de vista. “Mais uma vez Portugal não ganhou três estrelas [na gala Michelin], esta é mais uma oportunidade para ser mais perfeito em frente ao cliente, afinar o serviço”, diz. E há condições para o fazer? Os inspetores não preferem as ementas fixas? “Não sei. Queremos lutar. Tens de esperar sempre de ti as coisas mais altas, os desafios. Vamos ver, mas temos de ter a perfeição na nossa mente”, diz.

Os desafios estão lançados. O Vila Joya vai abrir as portas ao azul e à paz. “O cliente quer entrar aqui e deixar muita bagagem lá fora, os problemas lá fora. Então o Vila Joya é como uma ilha no paraíso. Os clientes chegam muito stressados e tensos, veem emails e tudo isso no primeiro dia ou dois, mas depois desligam. Chegam brancos e sem querer falar, e depois começam a falar e a rir. Voltam a rir e a divertir-se“, resume Sue Reitz. A password do wi-fi continua a ser… paraíso.

Vista do terraço do Vila Joya (Filipe Amorim / Global Imagens)