A história do bairro carioca que dá nome ao Flamengo de Jesus

Conta a história que as origens do bairro (a que os portugueses chamavam Aguada dos Marinheiros) remontam a finais de 1503 ou inícios de 1504 com a “descoberta” da baía de Guanabara pelo navegador Gonçalo Coelho.

Toda a gente fala do Flamengo, da magia do Flamengo, da mão de Jesus no Flamengo, como se fosse um toque de Midas mas melhor. O que pouca gente sabe é que também existe o bairro do Flamengo, onde se remava muito mais do que se jogava à bola, o que nos mostra que outra mão (além da de Jesus) escreve direito por linhas tortas.

Texto de Ana Pago

Flamengo. O seu nome evoca fogo-de-artifício a deflagrar no céu sobre estádios em festa, mas já houve tempos (finais do século XIX) em que o remo e não o futebol dominava o Rio de Janeiro. E tempos em que apesar de o remo já ir repartindo as atenções com o futebol, as miúdas ainda preferiam jovens com braços de Tarzan. No meio disto, o perfil dos palacetes nobres recortava-se soberbo contra a água, com os seus pináculos e varandins. E assim se começa a contar a história de um Flamengo bem mais antigo e desconhecido do que aquele por que os portugueses e brasileiros torcem agora em conjunto. O bairro do Flamengo.

 

“Atenção que o clube não fica no Flamengo. Fica noutro bairro, a Gávea, a uma meia hora de distância”, ressalva o publicitário Edson Athayde, natural do Rio de Janeiro e por isso familiarizado com a paisagem do Flamengo (a do bairro, tanto quanto a do clube). “Na virada do século, [XX] o futebol não era recebido com entusiasmo pela sociedade carioca, então o desporto número um do Rio era o remo, intimamente ligado à história do bairro do Flamengo e só mais tarde ao clube de futebol, a partir de cisões com equipas de outros bairros.”

Foi em 1986 que o músico brasileiro Tim Maia, tijucano de gema, gravou Do Leme ao Pontal, um hino à faixa litoral carioca em que nomeia bairros como Copacabana, Ipanema, Leblon, Leme, São Conrado, Recreio, Barra da Tijuca, mas também Flamengo, Urca e Botafogo, com praias banhadas pelas águas da baía de Guanabara. “Que beleza. Maravilha. Quem não dança segura a criança”, cantava, a reforçar a mensagem de que na orla do Rio é tudo de uma beleza de cortar a respiração, de uma ponta à outra.

“Tudo bem que a praia é só para correr, caminhar e pegar sol, pois é suja para nadar”, esclarece Bárbara Tigre, bairrista confessa do Flamengo e uma das autoras do blogue Dicas de Viagem. Mas isso não invalida que haja um imenso parque com praia em pleno bairro: o do Flamengo, integrado no complexo do Aterro do Flamengo, considerado o maior parque urbano do mundo à beira-mar. Nem a existência de livrarias, floristas, ginásios, áreas de desporto ao ar livre, cinemas, lojas cosmopolitas, cafés, padarias de chorar por mais, casas de produtos naturais e alimentação saudável, vida noturna, uma boa rede de transportes públicos e proximidade dos bairros vizinhos de Botafogo, Laranjeiras, Glória e Catete, a traçar os limites do Flamengo.

“Tem barzinhos como a Devassa, Garota do Flamengo, Lamas, Belmonte, You Name It, e alguns poucos, porém excelentes, restaurantes: a churrascaria Majórica, considerada a melhor do Rio, o japonês Samurai San e a Casa Julieta di Serpa, divina com seu Paris Gastrô e o Paris Bar (cujo barman é constantemente eleito o melhor especialista em drinks da cidade)”, acrescenta a mestre em relações internacionais, orgulhosa do seu Flamengo completo, tranquilo e charmoso, cercado de belezas naturais.

O Parque do Flamengo, integrado no complexo do Aterro do Flamengo, considerado o maior parque urbano do mundo à beira-mar.

“A maior parte da minha vida foi lá vivida e por isso é um bairro no qual respiro nostalgia e gratidão.” Se só pudesse escolher um sítio para morar no Rio, diz, seria mesmo o Flamengo.

Tudo porque o facto de ser próximo da zona central da cidade, explorado como uma espécie de subcentro carioca – com a parte da diversão mas sem a violência que aterroriza os moradores do Rio de Janeiro -, valorizou-o ainda mais. “O bairro já foi muito nobre e mantém resquícios dessa nobreza nos palacetes, nas ruas com nomes de marqueses e viscondes, na vista para o morro do Pão de Açúcar, que é fabulosa”, descreve Edson Athayde. Outra singularidade até aos anos 1980 eram as palmeiras-imperiais, plantadas quando a corte do rei D. João VI estava no Rio.

“As árvores eram muito antigas e suponho que terão caído de velhas, mas é das imagens mais fortes que guardo do bairro”, recorda o publicitário, admitindo ser fácil encontrar vestígios de Portugal por lá. O próprio nome Flamengo, que muitos pensam dever-se aos navegadores e prisioneiros dos Países Baixos (flamengos) que ali passaram em vagas sucessivas, pode ter raízes nos proprietários de lotes locais emigrados da freguesia de Flamengos, na ilha do Faial, Açores, que oravam a Nossa Senhora da Luz do Vale dos Flamengos pelas graças concedidas.

De resto, conta a história que as origens do bairro (a que os portugueses chamavam Aguada dos Marinheiros) remontam a finais de 1503 ou inícios de 1504 com a “descoberta” da baía de Guanabara pelo navegador Gonçalo Coelho: o português tentava abastecer o navio de água doce quando reparou que o rio Carioca ia desaguar na praia do Flamengo. Em 1530, um outro navegador, Martins Afonso de Souza, desembarcou nas imediações da Rua Barão do Flamengo trazendo consigo Pero Lopes de Souza, que em 1531 construiu a primeira casa de pedra da cidade e se tornou o primeiro morador da região.

O bairro cresceu em mansões, centros culturais, prédios sofisticados. Conquistou um status de luxo que durou até ao desenvolvimento de Copacabana, Ipanema e Leblon, no século XX, que vieram ensombrá-lo um pouco.

A urbanização do bairro arrancou no século XVII com a construção de uma estrada para facilitar o transporte do açúcar produzido no Engenho D’El Rei, na atual lagoa Rodrigo de Freitas, para o porto da cidade. Entre 1902 e 1906, mandatada pelo prefeito Pereira Passos, a abertura da Avenida Beira-Mar (à época considerada das mais bonitas do mundo) modernizou definitivamente o Flamengo: o bairro cresceu em mansões, centros culturais, prédios sofisticados. Conquistou um status de luxo que durou até ao desenvolvimento de Copacabana, Ipanema e Leblon, no século XX, que vieram ensombrá-lo um pouco.

E o futebol, cadê? (Ou, neste caso, o remo, que vai dar no mesmo)

Em 1895, à conversa no Café Lamas no Largo do Machado, um grupo de amigos achou por bem criar um clube de remo com que pudesse competir com outros bairros, em especial com os remadores de Botafogo, por quem as raparigas suspiravam. Ou agiam ou continuavam a morrer na praia, tinham de arriscar.

Antes do futebol, o desporto preferido dos cariocas era o remo, o que levou à criação do Grupo de Regatas do Flamengo, em 1895, para rivalizar com outros bairros do Rio de Janeiro. (Marcelo Cortes/Flamengo)

A 6 de outubro, após repararem um barco velho a que chamaram Pherusa, os jovens Mário Spíndola, José Agostinho Pereira da Cunha, Augusto Lopes, José Félix da Cunha Meneses, Felisberto Lapor, Nestor de Barros, Maurício Rodrigues Pereira e Joaquim Bahia fizeram-se ao mar.

O facto de o Pherusa virar logo na primeira saída e terem de pescar os remadores da água não pareceu auspicioso a ninguém, mas certo é que a 17 de novembro de 1895, na mansão de Nestor de Barros, na praia do Flamengo, nascia o Grupo de Regatas do Flamengo, com os jovens a estabelecer que os equipamentos seriam às riscas azuis e douradas, importados de Inglaterra. Três anos mais tarde, ainda sem vitórias mas já com adeptos ferrenhos de todas as classes sociais (e as tais miúdas giras com que sonhavam), ganharam a sua primeira regata. Melhor: ganharam-na vestidos de vermelho e negro, depois de terem percebido que as cores iniciais desbotavam facilmente.

A partir de 1902, com o remo a dividir com a bola a simpatia popular, remadores de um bairro faziam-se sócios do clube de futebol de outro bairro, e vice-versa, até ser criada uma secção de futebol no Flamengo a 8 de novembro de 1911.

“Quando digo que Jorge Jesus transformou o Brasil num imenso Portugal é porque ele entrou com a sua maneira de pensar e num mês tinha mostrado que é possível fazer um futebol bonito, atacante e goleador de que os brasileiros não se lembravam mais”, sustenta Edson Athayde. Além de que as gentes do bairro do Flamengo o veem ali e lembram-se de um tio, ou um avô, ou um primo português na família, algo comum por aqueles lados. “Ele parece alguém que você conhece, então a identificação cultural fica muito fácil”, diz o publicitário. Sobretudo quando esse parente português não é de meter água.