Rua do Arsenal: as lojas de bacalhau que ainda resistem

Fernando Dias é gerente da mercearia Rei do Bacalhau que há 61 anos tem portas abertas na lisboeta Rua do Arsenal.

Das oito mercearias que vendiam bacalhau na Rua do Arsenal, no centro de Lisboa, restam duas. Há largas décadas de portas abertas, a Pérola do Arsenal e o Rei do Bacalhau sentem a descida nas vendas. O comércio de rua tradicional desperta a curiosidade dos turistas que ali passam e espreitam, mas que pouco compram o fiel amigo.

Reportagem de Nuno Cardoso | Fotografia de Paulo Spranger

O tempo vai passando mas a memória não dá sinais de cansaço, mesmo 22 anos depois. “Nos primeiros três meses, a única coisa que me mandavam fazer era carregar sacas pesadas com farinha, trigo, feijão, de um lado para o outro”, recorda Rui Bértolo, entre risos. Afinal, era o mais jovem da equipa, na altura. Hoje, é o funcionário mais antigo na Pérola do Arsenal, a mercearia que há 90 anos vende bacalhau na lisboeta Rua do Arsenal, entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço, e uma das duas resistentes que ainda o fazem nesta artéria, onde já se vendeu o fiel amigo em oito moradas, a maioria já encerradas pela pressão das grandes superfícies.

“As outras foram fechando com os anos. É uma pena. Durante um ou dois anos, também sentimos dificuldade. A própria chegada do metro veio retirar muitas pessoas desta rua”, explica Bértolo, acrescentando que o alargamento do passeio nesta artéria e a requalificação da Ribeira das Naus “voltou a trazer mais público” para a zona e o negócio. Nasceu em Moçambique e viveu na Covilhã, mas sente-se “mais lisboeta”, ou não se tivesse mudado para a capital ainda jovem. Há duas décadas que é ele quem corta o bacalhau nas mesas de mármore que ali estão desde o início. “Foram precisos dez homens para carregá-las”, afirma o funcionário de 58 anos.

Rui Bértolo é o funcionário mais antigo da Pérola do Arsenal, mercearia a funcionar há 90 anos.

A mercearia mantém o chão e as arcadas originais, mas foi diversificando a oferta com o passar das décadas e triplicando em metros quadrados, albergando o espaço de uma antiga papelaria. O bacalhau e o vinho têm lugar fixo nas prateleiras desde o arranque, aos quais se foram juntando conservas, leguminosas e especiarias a granel, muitas destas as responsáveis pela fidelização de um público cabo-verdiano, como o xerém, a fava seca e o fubá. Ainda que não seja o mais vendido, o bacalhau mantém-se como o protagonista, em espaço ocupado e variedade. A larga maioria chega da Islândia, mas também da Noruega. Vende-se inteiro ou à peça – lombo, rabo, miga, aba, cachaço, sames ou bochechas.

O mesmo se aplica, poucos metros à frente, no Rei do Bacalhau, onde se multiplicam as unidades do fiel amigo crescido, graúdo, especial e especial mais, conforme o peso. É desta última variedade que se fará o Natal de Fernando Dias, natural de Meda, perto da Guarda, e gerente desta mercearia aberta há 61 anos. “Na consoada, comemo-lo sempre cozido, com couves. Mas também teremos polvo frito”, explica o responsável.

A Rua do Arsenal já foi palco para momentos históricos, como os confrontos entre as forças da Escola Prática de Cavalaria e as do Regimento de Cavalaria nº 7, fiéis ao regime de Salazar, durante a manhã de 25 de abril de 1974.

Mais de metade da sua vida foi passada ali. Dos seus 56 anos, 35 foram dedicados a esta casa, que conta com uma equipa “pequena mas unida”, descreve a filha, Ana, que ali também trabalha. Para além do bacalhau islandês e norueguês, incluindo uma nova variedade com cura em flor de sal, há bolachas artesanais, compotas, leguminosas a granel, dezenas de referências vínicas, enchidos e queijos DOP como o de serra da Estrela e o de Azeitão.

Assumiu as rédeas da loja com a morte do sogro, o fundador, e ainda hoje trabalha com boa disposição, ele e o seu bigode farto. Nos últimos tempos, colocou calçada portuguesa na mercearia e tornou-a mais luminosa, “para ir ao encontro das exigências do mercado”, conta, enquanto embala dois lombos de bacalhau em papel pardo e cordel, “para que consiga respirar e perder humidade”, frisa Dias.

Pode ser feito todos os dias da semana, de forma diferente. É um produto que não cansa”, revela o Fernando Dias.

O responsável olha com apreensão para o estado do comércio de rua nos dias que correm, ainda que confiante pela sua oferta diferenciadora. “Não podemos competir com o conforto das grandes superfícies comerciais, onde se estaciona à porta. Na Baixa, os parques são caros e anda-se às voltas de carro. Pode tornar-se numa dor de cabeça. Mas a nossa mais-valia é a qualidade do bacalhau, essa é certa”, confessa o homem que já recebeu na loja a ministra da Pesca norueguesa, e que já fez Manuel Luís Goucha desfazer-se em risos com uma piada que disse num direto para a TVI, “sobre uma punheta de bacalhau”.

Poucos turistas compram bacalhau

Faz companhia paralela ao Tejo e é ponto de passagem em passeios a pé, de autocarro e de elétrico. A Rua do Arsenal nasceu do novo traçado da capital, quando surgiu a necessidade de reerguer a cidade após o terramoto de 1755, e já foi palco para momentos históricos, como os confrontos entre as forças da Escola Prática de Cavalaria e as do Regimento de Cavalaria nº 7, fiéis ao regime de Salazar, durante a manhã de 25 de abril de 1974.

Fernando Dias diz que as vendas de bacalhau na sua mercearia aumentam para o dobro em dezembro.

As oito mercearias que ali vendiam bacalhau foram tornando, depois, o fiel amigo como um dos principais símbolos da artéria, até pelo característico cheiro que a define. Hoje, a explosão turística em Lisboa fez que as duas resistentes de comércio local de bacalhau tivessem como vizinhos uma unidade hoteleira de cinco estrelas, um hostel e várias lojas de souvenirs e conservas.

Os dois responsáveis pelas mercearias são unânimes: muito poucos turistas compram este peixe gadídeo. “São os portugueses quem compra bacalhau, e alguns espanhóis. De resto, ficam encantados, tiram fotografias, mas levam mais vinho e conservas”, explica Rui Bértolo, da Pérola do Arsenal. Neste espaço, só em dezembro, vendem-se uma média de cem caixas de bacalhau, cada uma com 25 quilos, face às cinco caixas por mês no resto do ano.

Apesar de visitarem as lojas e tirarem muitas fotografias, são muito poucos os turistas que compram o bacalhau. Ficam-se pelo vinho e as conservas.

Fernando Dias adianta que, mais do que comprá-lo, os turistas preferem comê-lo na restauração. Felizmente, “há sempre portugueses a comprar bacalhau durante o ano todo”. E ainda mais em dezembro, quando consegue vender mais 50% do que nos restantes meses. Manuela Franco é um dos exemplos de quem passa por ali durante as quatro estações do ano. “Prefiro vir às lojas de rua, mais calmas, onde o atendimento é melhor e já vamos conhecendo quem cá trabalha. É melhor do que ir às grandes superfícies”, conta, à saída do Rei do Bacalhau. O letreiro, decorado com a forma de um bacalhau, dá nas vistas de quem passa na rua.

Os turistas espanhóis Lorenzo e Pablo, pai e filho, não são exceção. O mais novo torce o nariz e confessa que “o cheiro é estranho”, quando se passa pela loja, mas o pai reforça que “é saudável que estas lojas antigas continuem abertas””. É apreciador de bacalhau, mas não vai entrar para comprar, porque “não é algo fácil de levar na mala de viagem”, conta.

“A versatilidade é a mais-valia do bacalhau”

Há alguns anos, quando Fernando Dias se viu obrigado a fechar a mercearia, por dois dias, sentiu as saudades da clientela fixa de forma clara. “Tinha gente à porta quando abri a loja e gente à porta quando a fechei, das oito da manhã às oito da noite”, ri-se. O negócio está hoje estável, mas longe vão os tempos em que se faziam filas na rua. “No início, era sempre hora de ponta. Eram tantas pessoas a passar nesta rua que era raro o dia em que não havia atropelamentos”, recorda o gerente do Rei do Bacalhau, de portas abertas todos os dias exceto ao domingo, “o dia para ir à missa mostrar os sapatos novos”, brinca.

O mesmo explica que “a versatilidade é a mais-valia” do bacalhau. “Pode ser feito todos os dias da semana, de forma diferente. É um produto que não cansa”, revela o dono, que não esconde a sua preferência pela versão cozida com grão. Em casa, o truque é fácil, atira, prontamente: “Para demolhar, bastam dez partes de água para uma de bacalhau.”

O bacalhau e o vinho têm lugar fixo nas prateleiras da mercearia Pérola do Arsenal.

Algumas portas para a esquerda, Rui Bértolo não duvida. “O bacalhau continua a ser muito importante para os portugueses. Pelos meus clientes, diria que o comem, pelo menos, uma vez por semana”, revela o funcionário da Pérola do Arsenal, onde trata muitos dos clientes pelo nome. Os mesmos que estão escritos em blocos de notas afixados com encomendas, datas e preços, colados junto à zona onde se corta o bacalhau. “Temos cá pais, filhos e netos. Alguns, conheci-os nas barrigas das mães”, relembra Rui, rodeado do seu calendário de parede de 2019, ilustrado, claro está, pelo fiel amigo. Tão fiel quanto a comunicação por gestos que costuma facilitar a vida de Rui quando entra alguém a falar inglês. “Eu cá me desenrasco”, remata.

Bacalhoeiros: uma rua com nova vida

É impossível mencionar a ligação entre Lisboa e a venda do bacalhau sem se mencionar a Rua dos Bacalhoeiros, que assim ficou batizada com a transferência dos comerciantes de bacalhau para aqui, após o terramoto de 1755. Antes disso, o arruamento a dois passos de Alfama já teve outros nomes, como Rua Direita da Ribeira, Rua dos Confeiteiros e Rua de Cima da Misericórdia. Hoje, há nova vida no local onde muitos compravam o seu bacalhau. A artéria tem agora acesso exclusivo pedonal, um renovado Largo José Saramago e sabores ecléticos, como as propostas peruanas do restaurante Qosqo ou a cozinha de autor, sazonal e saudável, do Sála, do chef João Sá.