Restaurante português em Bali serve bife com molho do café mais caro do mundo

Cozido à Portuguesa, Ovos com Farinheira, Bife na Pedra, Polvo à Lagareiro ou Bife com o molho do café mais caro do mundo. O menu é de fazer crescer água na boca, não falássemos nós da típica gastronomia portuguesa. Aquela que facilmente encontra num restaurante ao virar da esquina. Só que esta esquina, fica a mais de 13 mil quilómetros daqui. Sim, isso mesmo. É em Uluwatu que encontramos o Batu Bali, o primeiro restaurante português na Indonésia. Os fundadores? São portugueses, claro.

Texto de Patrícia Tadeia

As saudades que sentiam da comida portuguesa sempre que passavam uma temporada em Bali, fê-los tomar uma decisão que veio mudar as suas vidas. Já há alguns anos que a viagem até à Indonésia era regra. Desde que nascera o pequeno Joãozinho que Patrícia e João [pai], faziam as malas e rumavam à Ásia. «Primeiro passámos um mês. No ano seguinte, dois, depois três… Foi aumentando. Até que, num ano, ficámos quatro meses e depois demos o passo seguinte. Procurámos uma casa e um espaço para o restaurante», começa por contar Patrícia Curinha.

João Patrocínio continua: «Sempre quisemos que o Joãozinho estudasse lá. Desde os 9 meses que ele ia connosco para Bali. Adaptou-se logo muito bem.» Só que, para a adaptação ser total, faltava um pequeno – ou grande – pormenor. «nhamos muitas saudades da comida portuguesa. Só comíamos massa chinesa, pizza, pasta, hambúrguer. Uma vez, numa passagem de ano, fizemos batatas com ovo cozido e uma lata de atum e soube-nos pela vida [risos]», recorda Patrícia.

Abrir um restaurante pareceu-lhes, assim, a melhor opção. Afinal, o negócio da restauração é algo que lhes é familiar. São os fundadores do Uni Sushi, na Ericeira, e sócios do Tawa, em Torres Vedras. Mas abrir um restaurante na Indonésia não é fácil. «Tudo demora, há muitas burocracias. Os espaços pertencem a famílias numerosas e tem de se perceber se estão todos de acordo», explica João.

«Uma vez, numa passagem de ano, fizemos batatas com ovo cozido e uma lata de atum e soube-nos pela vida [risos]»

E quando todos estavam de acordo, em dezembro do ano passado, abriu oficialmente o primeiro restaurante português na Indonésia. «O nome ‘batu’ em indonésio significa pedra. A ideia era destacar um dos pratos principais que temos na carta: o Bife na Pedra. Era a forma de marcar a diferença. Mas também temos pratos mais característicos. Polvo à Lagareiro, Pataniscas de Bacalhau, Ovos com Farinheira, Requeijão com Doce de Abóbora, tudo feito em casa, Amêijoas à Bulhão Pato», enumera. Entre os pratos mais procurados está um muito especial. «É o Bife à Luwak Coffee, que é o café mais caro do mundo», acrescenta Patrícia. Um quilo do Kopi Luwak pode custar aproximadamente 400 euros. Numa loja, uma simples chávena ronda os 25 euros.

Fazemos um à parte para explicar que café é este. Os luwak são animais que têm um olfato muito apurado e que por isso escolhem apenas os melhores frutos e grãos de café para se alimentarem. Depois de passarem pelo estômago dos animais, o sabor amargo do café diminui, e para se obter o resultado final é preciso procurar entre as fezes dos animais os grãos, que não se desfizeram ao longo do processo. Depois de lavados e torrados, obtém-se o Luwak Coffee.

Estando do outro lado do mundo, a responsável confessa que já foi mais difícil obter os ingredientes. «Mesmo o pão, já vai havendo padarias e bolos. Conseguimos encontrar vinho português o vinho do Porto», diz Patrícia. Mas nem tudo vem de Portugal. A carne é importada da Austrália e os camarões selvagens vêm da Papua. Depois é tudo cozinhado pela equipa do Batu Bali – são seis os cozinheiros formados pelo chef Miguel Gonçalves – tendo como base a gastronomia portuguesa.

Todos os dias, recebem clientes de todo o mundo. «Muitos australianos, brasileiros. Todos adoram a comida portuguesa, o bacalhau, o bitoque. Também há muitos portugueses que nos visitam», avança Patrícia. João completa: «É um orgulho ter pessoas de todos os cantos do mundo a provar a nossa gastronomia. Afinal, a Indonésia está a tornar-se uma potência mundial.» Um crescimento que tem sido posto em causa pelas notícias de sismos na zona, mas isso não os assusta. «Não tenho qualquer receio. A Indonésia tem atividade sísmica desde sempre, agora é que se fala mais. Há vários vulcões ativos, há sismos a toda a hora. Já os sentimos várias vezes, mas não deve ser impedimento para visitar o país», diz João.

«É um orgulho ter pessoas de todos os cantos do mundo a provar a nossa gastronomia.»

No restaurante Batu Bali, constituído por dois andares, não faltam elementos de decoração portugueses. «Temos um quadro de um artista indonésio com o Cristiano Ronaldo. Temos outro do Vhils que está autografado», recorda Patrícia, que já vai preparando a mala para em breve regressar a Bali.

Além do restaurante, localizado perto das praias de Bingin, Padang Padang e do Templo de Uluwatu, o casal abriu também uma loja de souvenirs, e todos os primeiros domingos do mês organizam um «street market» com peças de artesanato.

Ali ao lado existe ainda uma peça de arte que simula uma onda. «Todos os visitantes podem tirar fotos na onda e contribuir para a Bali Life Foundation», explica Patrícia. A Bali Life Foundation é uma associação que ajuda todas as crianças de rua de Bali a terem uma vida melhor.

Tudo razões que levaram Patrícia e João a mudar-se quase definitivamente para este paraíso. «E não é só isso… Há o povo, transmitem uma energia muito positiva, estão sempre a sorrir. Ah, e o stress ainda não chegou lá», conclui Patrícia.