“Desligar é o maior luxo. Mesmo pessoas muito endinheiradas estão a querer voltar ao que é simples”

Sublime Comporta. [Fotografia de PAULO SPRANGER/Global Imagens]

Há cinco anos, Gonçalo Pessoa e Patrícia Trigo abriram o Sublime Comporta, um hotel de charme com 14 quartos e uma imensidão de natureza à volta, que é hoje um resort de luxo, quase retiro, onde a sofisticação é simples, o luxo é descontraído e o conforto é natural. A história de um piloto com os pés na terra que não desiste de voar e de uma assistente de bordo que trocou os aviões pelos comandos do empreendimento que, graças ao seu trabalho e do marido, tem vindo a acumular distinções.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens

O Sublime Comporta é um empreendimento turístico de luxo. Qual é o maior luxo que oferece a quem aqui vem?

Se quer que lhe diga a verdade, acho que é a natureza e a autenticidade e as pessoas poderem ligar-se àquilo que é verdadeiramente importante. Vou dar-lhe um exemplo, temos muitos clientes americanos, sobretudo de Nova Iorque, pessoas que vivem em grandes cidades, com um ritmo frenético, muitas vezes sem uma única árvore por perto. Chegam aqui e estão imersos nesta natureza e nesta calma. Às vezes até brinco, porque vêm ainda um aceleradas e perguntam-nos o que podem fazer, quais são as atividades que podem experimentar, e eu digo: “olhe, experimente fazer uma coisa: nada”.

Devem ficar com um nó na cabeça…

No início, não é fácil desligar, mas depois é um luxo. E aqui no Sublime e na região da Comporta conseguimos proporcionar isso. Ir à praia, comer peixe grelhado pescado no dia, estar num ambiente super descontraído, ir dar um passeio a cavalo nas dunas e nos arrozais, lidarem com estas pessoas hospitaleiras e acolhedoras que nós, portugueses, somos. Acho que isto é maior luxo hoje em dia e mesmo pessoas muito endinheiradas e muito sofisticadas estão a querer voltar ao simples e essencial.

Quando comprou este terreno, fazia ideia de que 15 anos depois seria o que é hoje?

Não. Comprámos o terreno porque apaixonámo-nos pela Comporta e pensámos que um dia poderíamos fazer aqui uma casa de férias, mas nunca com a ideia de ter aqui um empreendimento turístico. Comprámos em 2004 e só depois, em 2011, quando começámos a construir a tal casa, é que sentimos que a Comporta estava a dar os primeiros passos para se tornar um destino turístico com potencial. Via-se que as pessoas começavam a vir com mais afluência às praias, aos restaurantes e que havia muita dificuldade em encontrar alojamento.

Perceberam que havia aqui uma oportunidade.

Exato. E agarrámo-la. Repensámos a estratégia e decidimos adaptar o projeto da casa a um pequeno hotel de charme. Abrimos portas em abril de 2014, só com 14 quartos, um restaurante e um pequeno spa. Apesar da pequena dimensão do hotel, quisemos acrescentar alguns serviços importantes para atrair um turismo de qualidade, que era o que sentíamos adequar-se à Comporta.

O Gonçalo era piloto e a Patrícia, sua mulher, assistente de bordo. Deixaram as vossas carreiras para se dedicarem por inteiro ao projeto?

Não. Nesse verão, viemos para cá viver porque obviamente o hotel precisava da nossa total atenção. Eu mantive-me como piloto no ativo, a Patrícia despediu-se e abraçou este desafio a tempo inteiro porque era impossível estarmos os dois naquela loucura da aviação, ainda por cima com duas crianças pequenas [agora têm quatro, com o nascimento das gémeas, há ano e meio].

O empreendimento cresceu imenso nestes cinco anos. Como se concilia isso com a profissão de piloto?

Tem sido uma loucura. Entretanto, tivemos gémeos, gozei a licença de paternidade e pedi uma licença sem vencimento, mas conto voltar em breve aos aviões. Só com muito espírito de sacrifício e muita dedicação. Acumular as duas coisas foi complicado, foram anos muito difíceis, de muito trabalho.

Por que não desistiu da aviação?

Porque quem é piloto à séria não desiste. Hoje já sou comandante de longo curso, o que me permite uma vida mais regrada, com menos tempo cá e lá, mas é preciso esforço e dedicação. Claro que a Patrícia teve um papel crucial no projeto e a pouco e pouco também fomos construindo uma equipa. No início, eu e a Patrícia fazíamos tudo e mais alguma coisa, hoje já somos mais de cem e temos uma equipa de gestão com várias competências, o que nos permite assumir num papel diferente.

Hotelaria é sobretudo o contacto humano, bom atendimento e bom acolhimento. São as pessoas que fazem a diferença e esse é o nosso grande investimento atual.

E como é que, em tão pouco tempo, conseguiram passar do pequeno hotel de charme com 14 quartos para este grande e luxuoso resort?

Sempre a reinvestir. O nosso objetivo, mais do que servir os nossos interesses pessoais, é sempre de criar mais riqueza para o projeto e capacitá-lo, por isso não parámos, desde 2014. Em 2016, demos um salto enorme com a construção do edifício central e das villas de dois quartos. Depois, em 2017 e 2018, fomos acrescentando villas, de diversas tipologias, e agora, em 2019, inaugurámos as Bio Pool Suites e estamos a construir um edifício que será estruturante, para escritórios e alojamento do staff. E essencial ter boas condições de alojamento para os nossos colaboradores para conseguirmos atrair e reter talento, porque na indústria hoteleira é cada vez mais difícil encontrar bons recursos humanos e sem pessoas isto não se faz. Não vale a pena ter um hotel muito bonito, se não tivermos profissionais de excelência. Hotelaria é sobretudo o contacto humano, bom atendimento e bom acolhimento. São as pessoas que fazem a diferença e esse é o nosso grande investimento atual.

Em que se inspiraram quando dos 14 quartos fizeram a expansão para as villas de aspeto nórdico-eco-chique, a que este ano se juntaram as Bio Pool Suites?

Muitas pessoas reconhecem esta arquitetura como nórdica, mas, apesar das parecenças, não é. É uma arquitetura inspirada na cabana típica da Comporta. A fonte de inspiração está, portanto, muito próxima, aqui mesmo ao lado. As pessoas que povoaram este território recorreram aos materiais que tinham disponíveis e eram mais acessíveis, como o colmo e a madeira e construiram essas cabanas, que foram sendo adquiridas aos locais por gente mais endinheirada que foi construindo cabanas contíguas, cada uma cumprindo a sua função, de quarto, cozinha, sala… Foi exatamente esse espírito que recriámos aqui.

As novas Bio Pool Suites são a última novidade do Sublime Comporta. [Fotografia Nelson Garrido].
Os preços do Sublime Comporta não são acessíveis à maioria dos portugueses. Os clientes são sobretudo estrangeiros?

Sim. Infelizmente, em Portugal, a maioria das pessoas não tem ainda o poder aquisitivo para as tarifas que praticamos. Acontece que de verão temos maioritariamente estrangeiros e depois no outono, inverno e primavera, em que as tarifas são mais baixas, vemos mais portugueses a aparecer, sobretudo para escapadas de fim de semana, não para estadias prolongadas. Mas os nossos clientes são, de facto, maioritariamente estrangeiros.

Como é que se fez essa internacionalização?

A nossa estratégia foi sempre de apostar no marketing e na promoção, sempre num binómio muito forte que é destino e hotel. Nunca promovemos o hotel desgarrado do destino, porque não faz sentido. O fantástico é a Comporta, esta região maravilhosa, e isso acompanhou sempre a promoção do hotel.

Qual é o seu sonho para aqui?

Eu nem nunca sonhei que isto fosse possível.

Houve também sorte neste sucesso?

Eu acho que na vida temos que ter sorte, mas esta também tem que ver com agarrar a oportunidade quando ela nos aparece à frente. Tivemos sorte, mas sobretudo trabalhámos muito e soubemos agarrar a oportunidade quando ela nos passou à frente. Agora, chegámos ao fim deste ciclo de expansão, já não vamos construir mais dentro do Sublime Comporta, e o que estamos é a avaliar outros projetos para expansão de marca. Acreditamos que a marca Sublime já é suficientemente conhecida para permitir a expansão. Aqui perto na Comporta ou para outros destinos em Portugal. É neste ponto que está o sonho. Mas vamos com calma e com os pés na terra.

O que é que ainda há por explorar em Portugal?

Eu sou de Lisboa, gostaria de ver um Sublime Lisboa. Qual é o ADN da marca Sublime? Integrar e mostrar ao seu público aquilo que é mais característico do destino onde se instala. Se um dia nos instalássemos em Lisboa, eu gostaria que fosse um projeto que transpirasse Lisboa por todos os poros. Na arquitetura do edifício, na decoração, nos equipamentos, no fundo mostrar ao mundo o que é Lisboa. Se nos instalássemos no Algarve, é evidente que não iria fazer uma coisa deste género, iria explorar as açoteias, toda a arquitetura mourisca do Algarve e os elementos decorativos da região. É assim que vejo a expansão da nossa marca, nunca descaracterizando o local onde nos instalamos. Seja mais urbano ou mais rural. Mas não está fácil porque o mercado imobiliário atingiu um ponto em que se torna um obstáculo ao investimento razoável.

A preocupação de garantir a sustentabilidade ecológica e ambiental fez parte do projeto desde o início?

Sim. Não só porque hoje é uma obrigação, como porque para nós sempre foi prioritário na nossa forma de estar e isso reflete-se em todas as condutas que temos no hotel, desde o mais básico, que é o saneamento e reaproveitamento das águas para a rega, à reciclagem do lixo todo do hotel, à construção das hortas biológicas, que é um projeto incrível que estamos a expandir, à piscina biológica, ao aproveitamento de energias renováveis. Pautamo-nos por uma atitude de sustentabilidade, não imaginaria sequer de outra forma.

 


 

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