Do estigma à moda: o charme (nada) discreto dos caracóis

A norte-americana Diana Ross foi das primeiras cantoras a usar o estilo afro e a seguir um sem-número de músicos da Motown na aparência.

Estigmatizado durante séculos por questões raciais, o cabelo encaracolado foi um dos musts da moda nos anos 1970 e 1980. Para fortuna de cabeleireiros, poucos foram os que não se submeteram a autênticas torturas em nome desse novo ideal de beleza.

Texto de Maria João Martins

A imagem de Bradley Cooper com a cabeça cheia de pequenos bigoudis em American Hustle carece de sex appeal, mas não de fundamento histórico. Nos anos 1970 e 1980 (em que se passa o filme), uma cabeleira lisa e escorrida podia ser tão desmotivante como uma verruga no queixo.

Com a televisão, o cinema e as revistas a gritar a glória capilar de estrelas como Farrah Fawcett, Diana Ross, Andie McDowell, Donna Summer, Robert Plant dos Led Zeppelin ou Brian May dos Queen, até o jovem Michael Jackson assumia sem problemas a cabeleira afro com que nascera.

Brian May, guitarrista dos Queen.

E o comum dos mortais corria a imitá-los como podia: ora recorrendo aos ditos bigoudis em torno dos quais enrolava, com paciência de Job, madeixa após madeixa, ora indo ao cabeleireiro para uma permanente conseguida à custa de químicos malcheirosos e horas no secador de touca. O resultado era uma cabeleira à la caniche que se penteava apenas com os dedos ou com um pente de dentes largos.

Visto de 2020, o curl proud pode parecer uma bizarria da era disco, mas é, na verdade, bem mais do que isso. Até às lutas dos direitos cívicos pelos negros norte-americanos, a moda bon chic, bon genre só aprovava o uso de caracóis em crianças de postal ilustrado como a pequena atriz Shirley Temple.

Shirley Temple.

Chegava-se à idade escolar e vinha a tesourada fatal. Às mulheres adultas consentia-se uma leve ondulação (conseguida com ferro de frisar) e aos homens, nem isso. Tudo mudaria na década de 1960, com a afirmação “black is beautiful”: Mulheres como a ativista Angela Davis e um sem-número de músicos da Motown assumiram o look afro e fizeram escola. Em breve, abririam cabeleireiros especializados no cuidado deste tipo de cabelos, com produtos próprios e a consciência de que este era um nicho de mercado em desenvolvimento.

Nos anos 1980 o cantor Marco Paulo tinha como imagem de marca a sua farta cabeleira com caracois.

O investimento revelar-se-ia certeiro. Ao longo da década de 1980, nada podia ser mais cool do que um penteado encaracolado, bem volumoso. Quem não o tinha, corria a arranjá-lo, sobretudo depois de o cabeleireiro Robert Jheri Redding ter inventado a tal permanente de caracóis apertados, em cascata, de aspeto molhado (o chamado Jheri curl) fazendo as alegrias de cantores como Michael Bolton ou Lionel Richie, ou de jovens atrizes com ambições como Julia Roberts, Nicole Kidman e Sarah Jessica Parker. Nem mesmo Portugal, onde as modas ainda chegavam com algum delay, resistiria a tal fascínio. Nos palcos do Portugal de 1980, Marco Paulo, Lara Li ou Dora cantavam e encantavam, também com o contributo das suas vastas cabeleiras encaracoladas.