Alberto Cavalli: «O verdadeiro inimigo dos ofícios não é a tecnologia, é a ignorância»

A ilha San Giorgio Maggiore, em Veneza, recebeu 62 500 visitantes durante a Homo Faber. À frente da organização deste mega evento esteve Alberto Cavalli, Diretor da Fundação Michelangelo para a Criatividade e Craftsmanship, sedeada na Suíça. A DN Ócio falou com ele no claustro do mosteiro de San Giorgio Maggiore.

Entrevista de Marina Almeida, em Veneza

O evento juntou mais de 400 artesãos de excelência de toda a Europa e Portugal esteve representado quer com peças nas exposições Best of Europe e Centuries of Shape, quer com artesãos a trabalhar ao vivo (na Discovery and Rediscovery). Este foi o maior evento do género alguma vez produzido, acredita a Michelangelo Foundation, que concebeu e concretizou este encontro de topo. Foram 16 exposições com olhares múltiplos sobre o craftsmanship da Europa, para mostrar o valor da mestria tradicional e a importância do labor humano, que nenhuma máquina pode substituir.

O curador mor da exposição, Alberto Cavalli, sentou-se à conversa numa rara pausa. Esta semana está de férias. Há que recuperar energias. No regresso, começa a trabalhar na Homo Faber 2020. O evento vai regressar a cada dois anos, coincidindo com a Bienal de Arquitetura de Veneza. Entretanto, algumas das exposições que estiveram em Veneza poderão chegar a museus europeus.

Qual foi o maior desafio de preparar a Homo Faber?
O processo foi muito longo. Começou há dois anos quando decidimos que queríamos vir para Veneza e para a Fundação Giorgio Cini . Começámos do zero: qual era o nosso nome, qual o nosso tom de voz, o que queríamos mostrar. Sabíamos o que queríamos alcançar: dar visibilidade e valor aos melhores artesãos da Europa e mostrar que as máquinas não vão tomar o nosso lugar porque haverá sempre coisas que as mãos humanas conseguem fazer melhor do que qualquer máquina. Como chegar lá foi algo em que tivemos de pensar cuidadosamente. Percebemos que uma visão monolítica seria extremamente aborrecida. Acho que ninguém estaria interessado em ver uma enciclopédia de ofícios, isso não interessa aos tempos modernos. Os tempos modernos exigem um ponto de vista, uma forma de escavar a superfície e chegar à essência. Por isso decidimos apresentar os métiers d’art com as suas variadas faces, como uma pedra preciosa. Ofícios [craftsmanship, no original] e design, ofícios e moda, ofícios e território, ofícios e decoração interior, ofícios e restauro,… Identificámos um número de áreas e para a maioria destas áreas convidámos um curador para nos ajudar. Queríamos pontos de vista originais para trazer variedade às diferentes exposições. O meu papel como curador geral foi como o de um realizador de cinema: assegurar que todos os curadores eram livres para desenvolver o seu ponto de vista e que todos os valores estavam presentes. Há um ano o projeto estava mais ou menos definido e convidámos todos os curadores para virem aqui, a Veneza. Senti logo uma energia fantástica. Não sou new age, nem ligo a essas coisas das energias, mas tinha pessoas juntas a fazer clic juntas. Somos animais, temos de confiar nos nossos instintos, não? Penso que foi um momento muito bonito e foi [longa pausa] desafiante. Super desafiante. Foi um longo trabalho. Mas isso é algo que os mestres artesãos nos ensinam: se queres alcançar algo notável, tens sempre que dar o melhor que tens, não há atalhos. Foi o que fizemos.

E tem também de ter tempo, muito tempo…
Eu tive de empregar todo o meu tempo para seguir os curadores e os artesãos, para trabalhar com toda a equipa, para ter a certeza que todos seguiam na mesma direção, com o mesmo entusiasmo. Sim, consumiu muito tempo mas agora que vejo os resultados, é… posso dizer que é bonito? Eu sei que é muito suspeito mas eu acho que [ o Homo Faber] é muito bonito. E oiço o público dizê-lo…

Posso confirmar. Também já ouvi.
Obrigada. Agora que vejo os resultados não me arrependo de ter investido tanto do meu tempo e energia nisto e estou muito agradecido ao Sr. Cologni e ao Sr. Ruppert [fundadores da Fundação Michelangelo] por esta fabulosa oportunidade.

Quando surgiu o nome Homo Faber?
Sabe, os nossos dois fundadores são muito intuitivos e o Sr. Cologni é um importante gestor mas também um homem de cultura e ele estava à conversa com o Sr. Ruppert à volta de nomes. E quando chegaram a Homo Faber eles disseram ‘hummm Homo Faber é um nome latino, refere-se às origens comuns da Europa, era a língua que antes unia a Europa, e Homo Faber Homo faber suae quisque fortunae é o homem que graças ao seu talento, paixão, integridade, é capaz de moldar o seu destino’. É uma bela definição de homem que faz, de mestre artesão.

Qual é para si a maior conquista deste Homo Faber? Houve algo que o surpreendeu?
Sim, a resposta do público e dos artesãos. Estamos a receber tantas palavras de reconhecimento a dizer que este é o tempo certo para fazer algo, era algo que faltava, que é diferente. Acho que conseguimos dar esperança a todos os que acreditam naquilo que a mão humana consegue fazer melhor que qualquer máquina. Acho que conseguimos abrir novos horizontes para os mestres artesãos, mas também para todos os que não são mestres mas gostavam de ser, ou possíveis clientes, novas gerações. Recebemos tanta gente nova! Espero que haja novas vocações a emergir desta experiência.

Esta experiência pode levar a outras coisas, como uma escola de craftsmanship de elite, por exemplo?
Esperamos que novas coisas aconteçam. Às vezes só tens de abrir a porta e dar alguma confiança às pessoas e dizer “esta exposição é sobre ti, sobre os teus valores”. Não vamos travar sonhos. Talvez escolas, talvez exposições, talvez redes possam vir.

Acredita que existe uma crise de autoconfiança nos artesãos europeus?
Sim. Penso que os mestres artesãos não são vistos como os seres humanos incrivelmente talentosos que eles são. Se fores professor universitário ou decorador de porcelanas as pessoas olham para ti de formas diferentes. Acho que um grande mestre artesão é um ser humano que enriquece a cultura, os sentimentos, a um intérprete da beleza dos tempos contemporâneos. Espero que a Homo Faber contribua para mudar a perceção dos mestres artesãos, que as pessoas sintam de novo orgulho em dizer “eu trabalhei 20 anos para alcançar este nível e estou feliz para me expressar desta forma”.

E é importante para as outras pessoas, as que veem ou que compram, reconhecer esse trabalho por detrás de cada peça. Acha que no nosso tempo contemporâneo, da internet, da rapidez, dos cliques, as pessoas vão querer parar e contemplar estas peças como deve ser?
Acho que sim. Assegura que lhes dás uma alternativa válida. Não podes desligar as pessoas de algo que estão habituadas a ver ou a fazer a não ser que lhes mostres algo autêntico, algo explêndido, algo belo, algo verdadeiro. A única forma de ligar as pessoas de forma verdadeira é através da beleza.

Tem artes ou artistas favoritos?
É como perguntar a um pai se tem um filho preferido. Mesmo que tivesse não dizia. Gosto de tudo o que me fascina e eu, não tendo nenhum talento, fico sempre fascinado com a criatividade…

A HomoFaber vai tornar-se um evento bianual, logo regressa a Veneza apenas em 2020. Considera a possibilidade de algumas destas exposições viajarem entretanto pela Europa?
É a minha esperança como curador. Espero que alguém venha, como um diretor de museu, e diga “eu quero levar Best of Europe para o meu museu, quero levar Creativity & Craftsmanship para o meu museu”, é a minha esperança.

Teve aqui muitos diretores de museus?
Sim, tivemos. Faço figas [risos]. Diretores de museus super importantes. Espero que estas exposições viajem.

Como vê os ofícios e os artesãos portugueses?
Primeiro que tudo, estou muito grato à Joana Vasconcelos porque falei com ela muito nos primeiros tempos e ela deu-nos um contributo inspirado sobre o que devíamos procurar. Ela apresentou-nos uma das suas artesãs, a senhora Dinis Pereira, de Nisa, que esteve aqui a trabalhar no espaço Best of Europe. Tenho uma grande admiração pela Fundação Ricardo Espírito Santo porque fazem um trabalho incrível a proteger e a promover as artes portuguesas que têm um enorme potencial. Com este toque poético, típico da alma portuguesa, espero que em Portugal seja o tempo do renascimento dos ofícios de excelência. Têm grandes instituições prontas a ajudar.

Algumas marcas de luxo estão presentes no evento. Como é que o Homo Faber pode trazer algo novo ao mundo do luxo?
As marcas de luxo, no pavilhão Discovery & Rediscovery, estão aqui porque as chamámos. Começámos com uma lista de 20 métiers e perguntámos: quem é o melhor nisto? Convidámos os melhores para vir. Acreditamos que as verdadeiras raízes do luxo estão nas mãos dos mestres artesãos. Por isso chamámos aquela exposição Discovery & Rediscovery, convidamos as pessoas a descobrir maisons com as quais podem não estar familiarizados, como o bordado da Madeira, ou a redescobrir marcas que sabiam que podia fazer aquele tipo de arte mas não sabiam como era feito.

Está sempre rodeado de beleza?
Tento! [risos] Tenho um lindo cão… a verdade e beleza andam sempre juntas e temos de nos certificar de que a beleza é verdadeira e que a verdade é bela. Nem sempre é possível estar rodeado de beleza mas temos de treinar o olhar para ver o lado belo das coisas.

Falamos sobre a mão humana e o homem, coisas que parecem ser opostas. Mas estamos numa era de tecnologia: como é que a tecnologia pode ajudar os ofícios?
Pode ajudar muito. O verdadeiro inimigo dos ofícios não é a tecnologia, é a ignorância. Se as pessoas não percebem o valor de um objeto feito com carinho, com arte por um artesão, não há nada que possamos fazer. A tecnologia é um instrumento, como uma faca. Podemos usar uma faca para cortar uma fatia de pão e dá-la a alguém que tem fome, ou podemos usar uma faca para matar alguém. Tecnologia pode ajudar os artesãos a livrarem-se de ações que lhes roubam tempo e que a máquina pode fazer, e pode ajudar a comunicar de uma forma melhor. A expressar quem são e o que querem fazer.

Como definiria Homo Faber numa palavra. Se só tivesse uma palavra…?
[Pausa] Surpreendente. [pausa] Sim, surpreendente. René Descartes dizia que a curiosidade vem da surpresa e a competência vem da curiosidade. Se consegues surpreender alguém de forma positiva, consegues estimular reflexões, considerações e inteligência para criar algo novo. Eu quero mesmo que a Homo Faber seja surpreendente, de uma forma positiva.