Rita faz peças de vidro e é a única mulher entre dezenas de homens

Aos 35 anos, é o futuro no feminino de um ofício raro. Rita é a única mulher, entre dezenas de homens, a soprar o vidro de uma coleção também ela – única. Encontrámo-la em Alcobaça na fábrica da marca portuguesa que conquistou a rainha Isabel II de Inglaterra ou quem vai habitando a Casa Branca, nos Estados Unidos.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de João Silva (Global Imagens)

Os fornos atingem os 1400 graus centígrados. O ar é quente e pesado. Custa respirar. Para-se para beber água. Muito. O calor aperta, ainda mais do que o que se sente lá fora, quando as temperaturas surpreendem no Oeste. Superam os 32 graus. O barulho é de metal e até o fogo se faz ouvir. Este é o destino de Rita, diariamente.

É na fábrica de vidro e cristal da Vista Alegre, em Alcobaça, que a jovem aprendiz de vidreira faz o seu dia-a-dia desde. É pelas suas mãos que passam todas as peças da nova coleção da marca portuguesa com quase 200 anos de história. Mais de um ano passados na zona quente da fábrica, onde se queima, sopra e molda vidro. Passados só entre homens.

Aos 35 anos, Rita Barata é a única mulher vidreira na Vista Alegre. Uma artesã que todos os dias trabalha em artigos daquela que é uma das poucas insígnias portuguesas de luxo a nível mundial. A dificuldade de um ofício raro – pensado para homens pela força e pelo calor associados à função – faz que poucas mulheres o procurem. Mas Rita não pensou nisso quando lhe telefonaram a propor o trabalho. «Foi uma amiga minha. Ligou-me e perguntou-me se queria aprender com o mestre António Esteves. Disse-me “Podes pensar, não precisas responder já.” Eu respondi: “Espera lá… Está bem, eu vou”», começa por contar, enquanto sorri.

A dificuldade de um ofício raro – pensado para homens pela força e pelo calor associados à função – faz que poucas mulheres o procurem.

Aliás, está sempre de sorriso cravado no rosto – por timidez ou por pura felicidade. Sorriso que mantém mesmo durante a pesada tarefa de carregar um tubo metálico com uma luz incandescente na ponta, que pode pesar 15 quilos ou mais. Um trabalho artesanal e tremendamente raro, que já vai escasseando no país. E no mundo. «As maiores dificuldades? O calor e o peso. Ter de carregar a cana com o vidro na ponta, levantá-la. Sendo na ponta, fica ainda mais pesado. É preciso fazer muita força», diz, agora que saiu da zona onde as temperaturas rondam os cinquenta graus.

Ainda assim, não se imagina a ter outro ofício. «Quando se faz asneiras na vida, dá-se uns tropeções e depois temos de procurar outro caminho. Eu estava a estudar Design de Cerâmica na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, mas não estava a fazer nada que se aproveitasse. Fui procurar trabalho e achei que tinha de encontrar um ofício que pouca gente quisesse fazer», conta. Pouca gente e poucas mulheres. «Os meus colegas não me tratam de forma diferente. Tratam-me normalmente. Não me sinto uma mulher a trabalhar no meio de muitos homens. Sinto-me igual a eles», confessa a aprendiz de vidreira.

Ao seu lado tem o mestre António Esteves. Aos 65 anos, trabalha no ramo desde os 12. «Em Portugal nunca vi nenhuma mulher trabalhar na zona quente do vidro, só aqui. Andar no meio dos homens não é fácil», começa por dizer. «A Rita é uma boa ajudante. Os anos é que a vão fazer. É claro que sendo mulher é mais difícil, mas isso é cá. Noutros países há mulheres a trabalhar no vidro. Na Suécia conheci uma mulher oficial, comandava uma equipa», conta António, que, embora reformado, aceitou o convite da Vista Alegre para trabalhar na Única, uma coleção que aposta em peças desenhadas pelos designers da marca, mas sem qualquer molde. Peças em que o vidreiro deixa a sua marca.

A aprendiz de vidreira tem como professor António Esteves, mestre com mais de 50 anos de experiência.

«Para se ser vidreiro é preciso ter gosto pela arte, jeito e vontade de aprender. E a Rita tem. É o essencial», conclui. «Trabalhar com o mestre António é muito bom. Ele é paciente e meu amigo. Não é habitual um mestre aceitar trabalhar com uma mulher aprendiz. Acho que para ele também é um desafio», confessa Rita.

Nestes dez meses de vidreira na Vista Alegre, marca que está presente em locais como a Casa Branca, já carrega no corpo algumas marcas do ofício. «Cada marca acaba por ser uma recordação. Olha, esta foi o Vítor [aponta para o braço]. Também há colegas meus que têm marcas minhas [risos]. Esta nem fez bolha. Foi há mês e meio. Meti-me no sítio errado à hora errada. Depois, passei o braço por água fria, pus uma pomada, tapei a queimadura e continuei a trabalhar, claro. Não tenho medo das queimaduras», admite.

Mas há algo de que Rita tem medo. Afinal, todos os dias passam pelas suas mãos peças de luxo. São milhares e milhares de euros, transformados em vidro tão facilmente perecível. «Tenho medo de pegar em peças maiores… É uma responsabilidade grande, não quero estragar o trabalho do mestre. Até agora, só deixei cair uma peça, acabada de fazer, rebolou e partiu-se. Mas vá, foi uma em várias centenas.» Além de Rita, o mestre António conta com mais dois ajudantes: Arlindo Francisco, que Rita diz vir a tornar-se mestre, e Vítor Carvalho, que está já perto da reforma.

Na coleção Única, da Vista Alegre, trabalhada em art crystal e vidro, nenhuma peça é igual à outra.

Na zona quente da Vista Alegre produzem-se por dia de trabalho cerca de 30 a 35 peças. Depois de soprado, o vidro é moldado e trabalhado pelo mestre e pelos ajudantes. Existe um esboço que devem seguir – enviado pelo designer da marca. Mas, ainda assim, a liberdade é muita. «Não digo que posso criar na parte de estética e design. Mas, sim, na questão de como vamos fazer a peça. Posso sugerir ao mestre como proceder à execução, ou seja, se vamos furar primeiro com o maçarico ou se depois passamos com a palheta… Todos nós somos criativos nesse aspeto. A mesma peça pode ser feita de maneiras diferentes. Quando olho para uma destas peças sinto que está lá um pouco de mim. Ajudei a fazê-las com muito amor e carinho… para não cair, claro [risos]», brinca.

E Rita brinca porque, para esta jovem de Leiria, este trabalho é quase uma «brincadeira». «Quando temos gosto num trabalho ele acaba por se transformar mais numa brincadeira, não é chato. E como os colegas são muito bons e convivemos durante o trabalho, é um trabalho agradável», adianta Rita, uma mulher entre homens. «Na Escandinávia, sim, há muitas mulheres a trabalhar no vidro. Cá em Portugal, até há mais mulheres a querer fazê-lo, mas não têm autorização. Sinto-me sortuda nesse aspeto, já que sou a única», conclui.