Toino Abel: uma marca e um ofício antigo e raro que se propaga

Foi na pequena aldeia de Castanheira, em Alcobaça, que encontrámos Nuno, Sara e a pequena Antónia. É ali que vivem e é ali que propagam um ofício antigo e raro. A Toino Abel é uma marca de malas de junco feitas à mão, que nasceu em 2010 e é um sucesso além-fronteiras.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Diana Quintela (Global Imagens)

A técnica é artesanal e mantém-se inalterada desde a sua origem. O junco, já seco, é trabalhado num tear para construir uma esteira que depois é cosida à mão, adornada com uma asa de vime, um fecho e uma alça de pele, e, finalmente, uma medalha cerâmica feita à mão com flor de junco gravada. O processo é repetido, sempre à mão, pelos cerca de 30 artesãos que trabalham para a marca Toino Abel. Um saber que Nuno herdou da família.

«Estes cestos vêm já de várias gerações. O meu tetravô já fazia. Quis prestar uma homenagem a essa ligação familiar, a um passado, na verdade. Gostava muito do meu avô, as pessoas chamavam-lhe Toino Abel, e como havia essa ligação, por uma questão emotiva decidirmos manter o nome», explica Nuno Henriques que iniciou a marca em 2010, ainda em Berlim, regressando três anos depois a Portugal. «Tive de optar entre ficar lá e ou vir para cá e agarrar-me a algo». E assim foi.

Hoje este antigo estudante de Pintura – Artes Plásticas, que até chegou a trabalhar como chef de cozinha em Berlim, conta com a companhia da namorada Sara Miller. Formada em Design de Moda, trabalhou como designer na Zara Woman e Massimo Dutti, e hoje é ela que dá o traço ao vários cestos da coleção. Antónia, o mais recente membro da família, cujo nome também herdou do avô, dá sorrisos a quem os visita.

As malas Toino Abel apresentam padrões exclusivos e o uso pioneiro de algumas cores no tingimento do junco. A marca tem ainda uma forte preocupação sustentável, em termos ambientais e económicos. «Uma mala Toino Abel não é ecológica apenas no junco, o couro utilizado é de curtimento vegetal e as peças de metal não contêm chumbo, nem níquel. E qualquer que seja o tamanho escolhido, ela chegará às mãos do novo dono protegida dentro de um saco de algodão ecológico», diz a marca em nota de imprensa.

«Uma mala Toino Abel não é ecológica apenas no junco, o couro utilizado é de curtimento vegetal e as peças de metal não contêm chumbo, nem níquel.»

O método de fabrico, esse, é ainda o mesmo do primeiro dia: as mãos dos artesãos. «São elas que colhem, cortam, tingem, que trabalham o tear e, por fim, que moldam e dão os toques finais ao entrelaçado de junco. Em todo o processo, não há nada mais valioso do que a relação que se estabelece entre a sabedoria humana e o que a terra dá», defende a marca.

Quanto a números, a empresa familiar vende cerca de 3.000 unidades por ano. Com preços entre os 109 e os 139 euros, as malas estão à venda online e em algumas lojas em Portugal e por todo o mundo. Mas é lá fora que está o grosso do negócio. Até porque a Toino Abel teve desde forte atenção mediática. Saiu na Vogue do Reino Unido, o que lhes permitiu contar ao mundo o que fazem: «Resgatar da morte um ofício. Se não tivéssemos posto as mãos na massa naquela altura, hoje podia já não existir. Estava muito moribundo, havia uma grande falta de interesse», defende.

Hoje, tudo mudou. Prova disso é o facto de Nuno e Sara terem a trabalhar consigo Alice Sireau, uma jovem francesa de apenas 23 anos, formada em Bordado na Lycée Gilles Jamain, Rochefort, que ali estagiou na Toino Abel, e que agora regressa. É ela quem tece todos os padrões, dos clássicos aos mais experimentais. Sinal de que o raro ofício internacionalizou-se e veio para ficar.

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