TNT: a loja de Campolide que liga gerações à volta do vinil

Fátima e António Andrade, conhecidos por Ticha e Tó, abriram a loja TNT em Campolide em 2012. (Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens).

Desde 2012 que, quase escondida no bairro de Campolide, a loja T´N´T atrai uma clientela fiel, saudosista, sem idade e sem fronteiras em torno dos discos de vinil.

Texto de Ana da Cunha*

Passaria despercebida a qualquer um não fosse a música vinda da aparelhagem. São 10h 30m da manhã e António Andrade acaba de abrir a sua loja. Apesar dos discos de vinil, dos posters de bandas rock e das fotografias de concertos, a “T’N’T” não é apenas uma loja de música, “é também uma história de amor e discos”, conta Fátima Andrade, mulher de António.

Tudo começou em Londres de 1977, quando Tó e Ticha, como ambos são conhecidos, finalistas do liceu, ele do Pedro Nunes, ela do Maria Amália, se conheceram na viagem de final de curso. Começaram a encontrar-se nas lojas de discos de vinil de Londres — “Das cento e tal pessoas daquela excursão, escolhi-o a ele para me aconselhar”, conta Ticha. Foi a primeira vez que compraram um disco em conjunto.

Interior da loja TNT em Campolide. (Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens).

Inseparáveis desde então, foi em 2012 que decidiram cometer aquilo que apelidam de loucura: abrir uma loja de discos de vinil em plena crise. “Na altura, a minha mulher ficou sem emprego e eu estava a receber menos”, explica Tó, “Tínhamos passado a vida a colecionar discos: conseguimos um contrato de arrendamento, juntámos parte da nossa coleção, trouxemo-la para a loja e começámos a vender”. Tudo isto na casa onde vivem há já vinte e cinco anos.

Apesar dos esforços, não sobrevivem só da loja: Tó está agora pré-reformado, Ticha usa a loja como escritório para o seu trabalho enquanto tradutora. “A loja é uma carolice”, desabafa Ticha, “mas uma boa carolice”, sublinha.

Entre as capas de discos, há miniaturas de figuras lendárias espalhadas pela loja. (Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens)

Numa era em que as plataformas de streaming dominam o mercado, o vinil continua a ser “um nicho”, embora reconheçam que as editoras, “as principais responsáveis pela destruição do mercado”, voltaram a recriar o vinil. “Começa a surgir cada vez mais interesse dos jovens pelo vinil, pelo rock clássico — é a ideia do vintage, da nostalgia”, explica Ticha. O casal evoca os tempos da sua juventude, em que o rock não era só música, mas também história — “Quando comprávamos um disco, era um pedacinho de um modo de vida, uma visão do mundo”, recordam, “era uma linguagem internacional nossa que os jovens sentem que não têm e por isso procuram-na”.

Jovens, seniores e turistas

João Rodrigues, de 17 anos, é um desses jovens nostálgicos. “Passo aqui quase todos os dias”, diz com um sorriso. Cresceu numa casa onde se ouvia muita música, principalmente Beatles e Pink Floyd — “Fui entrando no rock, rock mais progressivo, e houve uma altura em que comecei a procurar música mais pesada”, conta. Ainda se lembra vagamente daquele ano de 2012 em que a loja abriu: “Quando eu era miúdo, às vezes passava por aqui, via a loja e nunca entrava, só mais tarde, ao entrar no liceu, é que ganhei coragem. “Houve um dia em que andava à procura de pins para pôr na mochila e entrei na loja e comecei a interessar-me pelo vinil” — é esta “paixão ao vinil”, como Abel Rosa, outro cliente, lhe chama.

João Rodrigues, de 17 anos, é da nova geração de clientes que frequenta a loja de Campolide. (Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens).

Abel Rosa, já reformado, é também um cliente habitual da T’N’T. “Desde miúdo que gosto muito de música, finjo que sou músico”. Em tempos responsável de marketing de software, hoje Abel passa muito tempo a fazer música e investigação — em maio, vai lançar um livro sobre os Beatles e a censura em Portugal. “É mais do que um hobbie, é a música que me faz sobreviver um pouco”, acrescenta.

Mas a loja não recebe apenas os clientes de todos os dias: “os estrangeiros deliciam-se”, diz Tó. Recorda mesmo um episódio em que um turista veio de propósito até à loja de TucTuc. “Temos muita coisa que é difícil encontrar em Portugal”, salienta.

Abel Rosa cliente frequente da loja TNT. Em breve vai vai lançar um livro sobre os Beatles e a censura em Portugal(Fotografia Leonardo Negrão/Global Imagens).

Com uma variedade tão grande de clientes, o casal confessa ter descoberto música muito para além do seu mundo — “descobrimos outras coisas, o rock post-punk, outras bandas”. “Eu descobri o heavy metal agora”, explica Tó.

“É com um olhar sonhador que Tó e Ticha discorrem memórias de uma época que acabou, mas que não só é mantida viva pelos mais velhos, como também pelos mais novos — “o vinil é o velho que se tornou novo”, explica o cliente habitual Abel Rosa.

António e Fátima, ou melhor, Tó e Ticha, proprietários da TNT desde 2012 já viram turisticas chegarem de Tuc Tuc para comprar alguns dos seus discos.

O tempo estagna ao olharmos para os bilhetes de concertos guardados no balcão, as capas dos discos, “a arte gráfica” que caracteriza o vinil, e as miniaturas de figuras lendárias na montra. No fim da conversa, Tó exibe a capa em tempos censurada do álbum Appetite for Destruction dos Guns ’N’ Roses, “O melhor cliente da loja sou eu”, diz com orgulho.

*editado por Filipe Gil