“The Crown”: para que serve uma rainha nos tempos modernos?

A terceira temporada de "The Crown" estreia domingo, dia 17, no Netflix

A terceira temporada da série, que estreia este domingo na Netlix, acompanha a rainha Isabel II e a sua família durante as décadas de 1960 e 70.

Maria João Caetano

“Muitas mudanças. Mas aqui estamos nós. A idade raramente é gentil para alguém. Não se pode fazer nada quanto a isso. Só é preciso seguir em frente.” A rainha Isabel II está a envelhecer. É ela própria que o admite, logo no início da terceira temporada da série The Crown, quando se confronta com um retrato seu antigo e com o novo retrato oficial. E é com esta frase, dita pela soberana, ainda antes de lhe vermos o rosto, que nos é apresentada a rainha “velha”, interpretada pela atriz Olivia Colman, substituindo Claire Foy, que foi a rainha “nova” nas duas temporadas anteriores.

Mas, ao mesmo tempo, esta é também a época em que o Reino Unido se confronta com a descolonização da África e do Caribe e perde cada vez mais a sua posição dominante num mundo dividido pela Guerra Fria (e há um espião russo, no palácio) e onde os Estados Unidos assumem o papel de superpotência que põe o homem na Lua. A rainha tem de lidar com um primeiro-ministro mais liberal e menos condescendente para com os luxos reais, Harold Wilson (aqui interpretado por Jason Watkins). E nos anos 70 os problemas económicos do país agravam-se e com eles surgem conflitos sociais. Para que serve uma rainha nestes novos tempos? Essa é uma das questões que atormentam a rainha Isabel II.

O envelhecimento afeta outras personagens, como o príncipe Filipe, que é agora interpretado por Tobias Menzies (que conhecemos da série Outlander e que foi Edmure Tully em Guerra dos Tronos), a irmã da rainha, princesa Margarida, agora a cargo de Helena Bonham Carter, e a rainha-mãe que passa a ser interpretada Marion Bailey. Embora haja alguns atores como se mantêm (John Lithgow regressa brevemente como Winston Churchill, que morre em 1965), esta temporada é marcada pelo rejuvenescimento da família real e a entrada em cena de novas personagens: o príncipe Carlos (Josh O’Connor) e princesa Ana (Erin Doherty).

É também através dos jovens que sentimos o tempo a passar, porque são eles que têm sonhos, paixões e vidas por viver, enquanto Isabel parece cada vez mais rendida ao seu papel de Chefe de Estado com poucos poderes e cada vez mais desejosa de passar o seu tempo entre os seus queridos cavalos. Margarida tem um affair com Roddy Llewellyn e acaba por se divorciar. Assistimos à investidura de Carlos, que se torna príncipe de Gales (1969) e se apaixona por Camilla (Emerald Fennell), uma relação que não é aceite pela família.

O drama histórico, criado por Peter Morgan produzido pela Left Bank Pictures e pela Sony Pictures Television, estreou em novembro de 2016. As duas primeiras temporadas receberam 26 nomeações para os prémios Emmy, incluindo para Melhor Série Dramática. As prestações dos atores Claire Foy e John Lithgow também foram premiadas. The Crown tornou-se rapidamente uma das séries de referência da Netflix, embora tenha sido acompanhada por algum criticismo, nomeadamente devido a algumas falhas na história. Apesar de os criadores da série sempre terem defendido que se tratava de uma ficção, baseada em factos reais e fetia a partir de muita investigação mas uma ficção, em setembro passado, o secretário da Casa Real britânica, Donal McCabe viu-se forçado a fazer uma declaração pública esclarecendo que “a Casa Real nunca concordou em vetar ou aprovar, nunca pediu para saber que tópicos serão incluídos e nunca expressaria uma visão sobre o rigor do programa” – afastando assim a ideia de que a série era aprovada pela rainha, atualmente com 93 anos, e que, portanto, tudo o que ali se contava correspondia à realidade.

Se já havia alguma polémica relativamente às conturbadas relações da rainha com o marido e com a irmã, imagine-se o desconforto na Casa Real quando um dos episódios da terceira temporada dá a entender que Isabel II terá sido infiel ao marido, o duque de Edimburgo, tendo uma relação com o responsável do estábulo dos seus cavalos de corridas, Iord Porchester, que tratava carinhosamente por Porchey. Num artigo publicado há dias no The Times, Dickie Arbiter, ex-assessor de imprensa da rainha afirma: “Tudo isto me parece de muito mau gosto e totalmente infundado. A rainha seria a última pessoa do mundo a considerar olhar para outro homem que não fosse o seu marido”. Segundo Arbiter, este é um boato que circula há décadas mas que “não tem qualquer fundamento”. E conclui: “The Crown é uma ficção. Ninguém conhece as conversas particulares que os membros da família real têm, mas, é claro, as pessoas contam sempre a história que desejam para torná-la mais sensacionalista”.

A terceira temporada termina em 1976. Mas ainda há muita história por contar na quarta temporada, que deverá estrear em 2020. Em 1977, celebra-se o Jubileu da Rainha. Margaret Thatcher, que era líder do Partido Conservador desde 75, será eleita primeira-ministra em 1979 (e tudo indica que o papel pertence a Gillian Anderson). Em 1981, Carlos começa a namorar com uma jovem desconhecida do grande público, Diana (que será interpretada por Emma Corrin). E se se perde o encanto da reconstituição histórica, há todo um manancial de escândalos e divórcios a explorar até aos dias de hoje. Resta saber até onde os criadores de The Crown estão disposto a ir.