É aqui que se guardam alguns dos maiores tesouros da arquitetura portuguesa

Inaugurada em 2017, a Casa da Arquitectura tem a dupla função de preservar e mostrar a obra dos arquitetos (que não se esgota no edificado). Uma delicada memória de milhares de desenhos, maquetes e fotografias que recentemente ganhou um importante inquilino: quarenta anos de desenhos de Eduardo Souto Moura.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Igor Martins/Global Imagens

Quando se entra na receção da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, há um enorme vidro que é um miradouro para o arquivo, aquilo que supostamente não se vê. Ali veem-se maquetes, algumas facilmente reconhecíveis, como a Casa das Histórias Paula Rego, ou o Estádio de Braga, ambas de Eduardo Souto Moura. Não é por acaso. Ainda não havia edifício, já se trabalhava na constituição do arquivo. Esta casa é uma casa para morar e receber visitas. Muitas.

“Começámos a constituir o edifício e a trabalhar no background da coleção. É muito importante quem compra o bilhete consiga ver o que se passa no espaço do arquivo antes de seguir para as exposições”, explica Nuno Sampaio, arquiteto e diretor executivo da instituição. Quando caminhamos pelo arquivo, há de repetir algumas vezes esta ideia, para que não fique nenhuma dúvida: “A Casa da Arquitectura quer poder arquivar com o compromisso de mostrar aquilo que arquiva. Como diz o arquiteto Eduardo Souto Moura, não é um jazigo, não é uma coisa morta. A conceção do edifício trouxe esta perspetiva sobre o arquivo.”

Um pressuposto ambicioso, para levar a arquitetura a todos os públicos: “é muito importante para nós é que o público fora da arquitetura entenda o que é fazer arquitetura. A ideia é que não só apreciem os edifícios e a arquitetura em si própria, como percebam os mecanismos que os arquitetos têm de projetar os espaços, desde a primeira conceção, até à obra, que é o acervo vivo dos arquitetos. E isso o que é que são? São os desenhos, as maquetes,…”

Nuno Sampaio é frenético. Fala sem parar enquanto nos leva pelos meandros dos antigos armazéns de vinhos da Real Vinícola – entretanto adaptados às novas funções através de um projeto de reabilitação da autoria do arquiteto Guilherme Machado Vaz – que agora guardam projetos de arquitetura, obras feitas, e outras que nunca saíram daqueles papéis que ali se guardam, a temperatura controlada, em gavetas à medida. Tenham sido construídos ou não, todos os projetos são informação preciosa: “60 a 65% do material produzido pelos arquitetos nunca chega a ser construído. Se não houver uma aposta pública na manutenção dessa informação, grande parte do trabalho dos arquitetos desaparece, toda essa investigação que foi feita do ponto de vista tipológico, urbano, construtivo, do trabalho que o arquiteto fez numa determinada época. Se não, essa informação simplesmente desaparece. Temos uma arquitetura muito considerada no mundo inteiro, e a sua matéria base poderá estar em risco de desaparecer”, alerta.

O arquivo que se vê da receção é um isco. As casas de papel – ali a Torre do Burgo, acolá a Casa do Cinema Manoel de Oliveira – não estão ali por acaso: “não quisemos por caixas empilhadas e pusemos um conjunto de maquetes à mostra”. Também há caixas empilhadas. E arquivos verticais com milhares de desenhos – plantas, maquetes, esquissos.

Junta-se-nos outro arquiteto, José Fonseca, que trabalha na área da gestão das coleções. Veste uma bata branca, porque veio da zona do laboratório. Com ele entramos nas enormes caixas metálicas, onde são arquivados materiais em condições de temperatura, humidade e proteção contra incêndios – “esta é a parte cara da Casa”, diz Nuno Sampaio – “O tratamento com gás em caso de incêndio permite que haja extinção do incêndio por falta de oxigénio”. Neste arquivo estão os materiais estáveis, no do lado, os instáveis: reprolares e cópias heliográficas – “não são mais antigos, mas modificam-se e contaminam os estáveis.” Por isso, um projeto constituído por centenas de peças, pode estar arquivado em várias zonas. “De forma imediata, através de uma pesquisa online, conseguimos saber onde está cada documento”, explica José Fonseca.

Ali veem-se muitas caixas com a bandeira do Brasil – são os arquivos da arquitetura brasileira, um dos grandes trabalhos de acervo da Casa, que já permitiram fazer a exposição Infinito Vão – 90 anos de arquitetura brasileira. Outras caixas guardam o arquivo do arquiteto Pedro Ramalho, um dos acervos individuais ali depositados. “Aqui vemos, por exemplo, como poderia ser Belém se em vez do [Vittorio] Gregotti, o Pedro Ramalho tivesse ganho o concurso para o CCB. Ficou em segundo lugar”. Ali está o projeto que não saiu do papel. Há muitos. Estão cerca de dois mil A0 em arquivo, há capacidade para acolher cem mil.

Antes de chegarem ao arquivo, todos os documentos passam pelo laboratório, para serem limpos, cuidados e inventariados. Nuno Sampaio resolve levar-nos a fazer todo o percurso “como se fôssemos um documento”. Damos por nós na sala de entrada, ao lado de 40 anos de desenhos de Eduardo Souto Moura. O coração acelera: são 8500 peças desenhadas, muitas suspensas num arquivo vertical, penduradas em tubos metálicos. “Prendíamos os desenhos a estes fixadores. Quando o projeto estava pronto, colocávamos um cordel e ficava o arquivo morto”, explica Nuno Sampaio. Lá estão dezenas de cordelinhos a prender horas, anos de trabalho. Também dossiers com telefaxes, atas de reuniões de obra, e muito mais. Em outubro, algumas destas peças estarão em exposição, na sala de cima. Veem juntar-se às mais de 600 maquetes deste Pritzker português que já aqui moram. Os números são impressionantes, mas ajudam a perceber o manancial de informação produzido pelos arquitetos durante o projeto – seja ou não construído.

Continuamos a ser um documento que entra na Casa da Arquitectura. Quando as peças necessitam de expurgo, vão para a sala respetiva e são colocados dentro de uma bolha de amoxia. Lá está aprisionada uma casa de papel, uma maquete numa bolha feita à medida, de onde se retirou o oxigénio e injetou-se azoto. “A bicharada morre por asfixia”, brinca Sampaio. Segue-se a limpeza, com um mega aspirador que muitos desejariam ter em casa: não há grão de pó que resista.

Aqui andam os homens e mulheres de bata branca. Quando manuseiam os objetos usam luvas da mesma cor, por vezes máscaras. É aqui que encontramos também Gilson Fernandes e Alice Lopes, elementos da equipa de arquivo e curadoria. Alice está a limpar um desenho, quanto Gilson recebe um arquiteto que está a consultar o arquivo.

Em cima de uma das grandes mesas daquele espaço estão vários desenhos. Ali retira-se “tudo o que não é do desenho”, como as badanas ou as colas. Seguir para outro espaço, para planificar, e só depois é digitalizado antes de encontrar o seu lugar nas caixas do arquivo, entre folhas de papel acid free. “Um documento pode ter 60 campos de informação, de metadata. Quem desenhou, qual é o projeto, fase do projeto, escala com que está, localização, em que material está desenhado, há um conjunto de múltiplas informações. É de tal maneira profundo que podemos dar a localização geográfica de onde está aquele edifício em coordenadas”, diz o diretor.

Mas hoje já não se arquiva desenhos em arquivos suspensos agrupados com fios. Há pastas e arquivos digitais. Gigas de informação, milhares de e-mails. Não há colas e badanas, mas isso não significa que tudo seja fácil. Na realidade, “é um dos grandes desafios”, acede Nuno Sampaio, que já está a erguer uma outra casa. “A Casa da Arquitectura está a construir agora o chamado edifício digital. Vai ter a possibilidade de uma grande plataforma de acesso, de todas as pessoas, em qualquer parte do mundo (vai ser em português e inglês) poderem aceder ao arquivo da Casa. As pessoas acedem a um repositório de imagens feito a partir do arquivo em baixa resolução, que depois por solicitação de quem o quiser será cedido gratuitamente”, revela. Para além de fotos, plantas, alçados, esquissos, há as projeções 3D. “Há uma riqueza no digital que são as projeções em realidades virtuais que nos permitem ver filmes, o que teria sido construído mas não foi”, acentua. Os futuros que não foram também contam histórias.

Nos últimos sábados do mês é possível fazer uma visita guiada ao arquivo da Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitetura. Entre os novos projetos da instituição, está a digitalização dos arquivos de obras públicas do Forte de Sacavém (Serviço de informação para o Património Arquitetónico – SIPA), que deverão ser disponibilizados online na grande casa digital da Casa.