Storytailors têm peça icónica em museu de Nova Iorque

A dupla de designers tem, desde setembro, a peça St. Isabel no FIT. Trata-se de uma inusitada armadura feminina, cor de rosa. A DN Ócio acompanhou Luís Sanchez e João Branco (que morreu esta terça-feira, 18 de dezembro) no restauro da peça, antes desta seguir para Nova Iorque.

Texto de Marina Almeida | Fotografias Orlando Almeida e Leonardo Negrão/Global Imagens

E se uma peça de roupa falasse? À nossa frente estão os 33 pedaços que compõem a St. Isabel, uma armadura feminina rosa cor de pó-de-arroz que, a partir deste mês (setembro), estará em exposição no Fashion Institute of Technology (FIT), em Nova Iorque.

«A peça nasceu no contexto da coleção Gentle Women [2010], um manifesto feminino. Imaginámos mulheres que formavam uma sociedade secreta com códigos libertadores e de libertação, e que eram mulheres de força», diz João Branco, metade dos Storytailors. Estamos no ateliê da dupla de criadores de moda em pleno Chiado, Lisboa, perante aquela peça em restauro sobre a mesa – e, ainda assim, tão forte.

É um corpete de corpo inteiro, cabeça incluída, em que as peças são ligadas por fitas de cetim. As fitas dão personalidade ao fato. Para a exposição do FIT, os Storytailors resolveram usar uma fita de cetim magenta para unir todos os 33 componentes do espartilho de corpo inteiro.

«Substituímos a cor pastel por um tom mais forte porque achamos que dá um aspeto mais gráfico. Usar uma cor mais forte dá mais contraste, evidencia a peça, a construção», justifica Luís Sanchez.

O convite veio de própria Valerie Steele, o que deixa João e Luís orgulhosos. Recordam-se de um dos primeiros livros que compraram, ainda estudantes de Design de Moda sobre espartilhos: a autora era a agora diretora do prestigiado instituto nova-iorquino.

O restauro da peça foi feito no início de julho, antes de seguir para Nova Iorque. A partir de 7 de setembro está entre uma das oitenta peças da exposição Pink: The History of a Punk, Pretty, Powerful Color, com curadoria de Valerie Steele. Ao lado dos Storytailors, estarão criações de Dior, Gucci, Comme des Garçons, entre muitos outros.

O convite veio de própria Valerie Steele, o que deixa João e Luís orgulhosos. Recordam-se de um dos primeiros livros que compraram, ainda estudantes de Design de Moda sobre espartilhos: a autora era a agora diretora do prestigiado instituto nova-iorquino.

Contam a sua história pausadamente e cúmplices. Foi durante a formação, na Faculdade
de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, que perceberam que havia algo que os unia. Acabaram o curso e em 2001 fundaram a Storytailors. Com eles, escreve-se parte da história da moda em Portugal há dezassete anos.

E como é criar em conjunto? Tem que ver com uma ideia? O estado das coisas? Um sentimento? Trocam olhares e riem-se. «Com isso tudo! Não há uma regra para criar», verbaliza Luís. «Pode ser uma conversa, uma curiosidade, que começa a germinar ou a nascer dali», detalha.

«É natural que depois comecem a surgir esboços, linhas, ideias, cores, texturas», diz João. «Depois uma ilustração mais técnica e é aí que começa a definir-se e a moldar-se a estrutura de uma coleção», diz Luís. E há peças que são mais um ou outro? «Depois de criadas acabamos por ter uma preferência e dizemos esta peça é mais tua…mas não existe essa apropriação», diz Luís. «Hum-hum», concorda João.

«Um dia comentámos que isto andava a acontecer-nos muito, fomos pesquisar a simbologia destes números capicua. Percebemos que são mensagens universais de boa fortuna, de coisas positivas.»

É neste pingue-pongue que eles vivem e trabalham. Por exemplo, as coleções 111 e
222 nasceram do facto de durante um ano João encontrar os número 111 nos indicadores dos relógios, nos números das portas, nos talões, e Luís acontecer-lhe o mesmo mas com o 222. «Um dia comentámos que isto andava a acontecer-nos muito, fomos pesquisar a simbologia destes números capicua. Percebemos que são mensagens universais de boa fortuna, de coisas positivas.»

Daí passaram a palavras, esboços, tecidos. E, claro, mais tarde, a vestidos. Tudo isto acontece na Calçada do Ferragial, na Lisboa pré-pombalina que tinha água ali aos pés. Naquele edifício de paredes possantes, recebiam-se tecidos que chegavam de paragens distantes. Passaram os séculos e os usos. Foi armazém, estábulo, sobrevivente ao terramoto, tipografia, ateliê de arquitetura e, há mais de uma década, a casa dos contadores de histórias em tecido. Após obras, a cargo do Studio Astolfi, todo o espaço (em baixo loja, em cima ateliê) ganhou ganchos no teto. Na loja suspendem os charriots de aço e, em cima, relógios, lustres, cabides vários.

Parecem colchetes, como aqueles que João e Luís usam nos tecidos – mas aqueles são colchetes de aço suspensos na pedra irregular. É o universo de Alice no País das Maravilhas – e nem foi preciso encontrar um coelho branco de feltro em cima de uma mesa para o perceber.