“Portugal é um país extremamente rico em artes e ofícios”

Em setembro, artesãos e estudantes de artes aplicadas portugueses vão estar em Veneza no Homo Faber. O encontro, que junta a nata dos mestres artesãos da Europa é a primeira grande iniciativa da Fundação Michelangelo, criada por dois empresários ligados ao grupo suíço de artigos de luxo Richemont. Falámos com Nicole Segundo, a responsável pela fundação em Portugal

Por Marina Almeida

Imagine-se um mosteiro beneditino do século XVIII durante 15 dias transformado num enorme atelier onde se juntam artesãos de vários ofícios toda a Europa. Agora imagine-se esse mosteiro numa ilha em Veneza, Itália, mesmo em frente à Praça de São Marcos. É este o cenário que, de 14 a 30 de setembro, vai receber o Homo Faber, um inédito encontro cultural de artes e artesãos de toda a Europa organizado pela Michelangelo Foundation for Creativity and Craftsmanship. No mosteiro de São Jorge Maior (San Giorgio Maggiore) vão estar representados os ofícios portugueses, da azulejaria à joalharia – um trabalho considerado de excelência que se procura potenciar a nível internacional. Nicole Segundo, a empresária de sangue português que está a trabalhar com a fundação sedeada em Genebra, levanta uma ponta do véu.

Em Portugal, a Fundação Michelangelo conta para já com um parceiro, a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva. Três alunos desta escola de artes aplicadas foram selecionados entre candidatos de 20 instituições europeias para participar no Homo Faber, no âmbito do programa jovens embaixadores. O objetivo é rejuvenescer as artes e ofícios tradicionais, criando novas dinâmicas.

É a primeira vez que a fundação criada pelo CEO da Richemont, o sul africano Johann Rupert, e por Franco Cologni, italiano também quadro do grupo de marcas de luxo, organiza um grande evento cultural na área do chamado craftsmanship. E é também a primeira vez que a Fundação Giorgio Cini, que se associa ao evento, abre as portas do mosteiro de San Giorgio Maggiore para acolher o Homo Faber.

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Nicole Segundo nasceu na África do Sul mas tem raízes portuguesas. Estudou em Portugal até aos 18 anos (no Colégio Inglês) e fez os estudos superiores em Londres. A paixão pela «arte da alta relojoaria» falou mais alto e levou-a para a Suíça, onde desenvolveu a sua carreira no mundo dos relógios. É lá que mora mas sempre que pode dá «um saltinho» a Portugal, para visitar aos pais que moram em Cascais. Falámos com a representante da Fundação Michelangelo para Portugal em Gondomar, à margem do Luxury Design & Craftsmanship Summit, onde apresentou o Homo Faber aos os artesãos, criativos, empresários e estudantes ali presentes.

Que artesãos portugueses vão estar representadas na Homo Faber?
Vamos ter artesãos portugueses que trabalham a nível de azulejo, folha de ouro, cerâmica, trabalho de madeira, bordadeiras da Madeira. Vamos ter uma senhora que vai mostrar os bordados de Nisa, uma senhora de 74 anos com um talento incrível, Maria Dinis Pereira, que irá a Veneza pela primeira vez mostrar o seu trabalho (ver lista completa abaixo).

Estamos a falar de artesãos mais velhos ou também de jovens?
Vamos ter uma bela representação de jovens artesãos e dos artesãos com mais idade e que sentem a necessidade de passar a tradição e as técnicas deles. A ideia de Homo Faber é precisamente juntar jovens e mais velhos, mas não só portugueses. Por exemplo, um estudante de Colónia poderá interessar-se pelo bordado de Nisa, falar com a senhora e tentar saber se pode vir uns meses aprender. Há realmente uma fonte muito rica nas artes portuguesas e a Homo Faber e a Michelangelo Foundation querem trabalhar para o futuro da mestria artesanal. A Michelangelo Foundation está a trabalhar para definir critérios que podem ser unificadores no sentido do que é excelência. Há um livro, The Master’s Touch [Ed. Marsilio, 2017], que explica bem quais são os critérios que fazem de um artesão um artista.

Em Portugal a Fundação Michelangelo tem para já um parceiro, que é a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (FREES). Procuram mais parceiros para esse trabalho?
Sim, o parceiro inicial é a FRESS. Para a Michelangelo Foundation Portugal é um país extremamente rico em termos de artes e ofícios, e é preciso criar uma rede e parcerias e dar um dinamismo. Mas a visão não é vir impor, é saber como é que podemos, sendo uma fundação que vem do exterior, vir com outro olhar facilitar as sinergias e as comunicações. Será isso que vai dar o dinamismo que vai ser necessário para Portugal surgir a nível europeu como um país que tem artes e artesanato de excelência.

A fundação não tem uma delegação em Portugal?
Não. Estamos baseados em Genebra e esta vontade de fazer networking é recente. Portanto ainda há muito para fazer. Estamos numa fase inicial.

O Homo Faber é o primeiro grande evento europeu promovido pela Fundação Michelangelo?
Podemos dizer que é o primeiro grande evento cultural no âmbito do craftsmanship, organizado pela Michelangelo, inédito. Eu acho que vai ser extremamente forte porque vai mostrar a importância da inteligência da mão em todas as categorias, seja cerâmica, moda, vidro, transportes,… É nesse sentido que a fundação quer abrir os olhos, com jovens embaixadores…

Foram selecionados três alunos Fundação Ricardo Espírito Santo Silva.
Sim. Eles vão poder também criar as suas sinergias. Os jovens vão poder criar vida… Ainda há essa perceção de que estas artes são uma coisa velha, tradicional, boring. E está aí a importância do Homo Faber, alertar que estamos a perder estas artes mas são precisamente estas artes que fazem as marcas de luxo e que fazem a diferença. Temos de agir a nível de educação, valorizar estas artes para que os jovens digam ‘eu quero fazer a minha carreira num atelier de metal, num atelier de cerâmica’. E acho que é importante manter os jovens cá, em Portugal, a trabalhar.

O que há do seu gosto pessoal e do seu olhar enquanto portuguesa neste trabalho que agora leva à Michelangelo?
Eu venho de um mundo de alta relojoaria, portanto a técnica de filigrana, joias, é algo que me interessa muito, mas quando eu vejo o trabalho de azulejo, de bordado, de arraiolos, eu fico emocionada. Eu sou uma pessoa que sou apaixonada pelo fait main [artesanal] e pela excelência humana, aberta a todas as artes desde que haja a componente de excelência, a componente do artesão que vai além do possível, que realmente tem uma paciência de poder trabalhar peças tão pequenas que nem são visíveis olhando, só com microscópio…

E é esse detalhe que também se vai tentar mostrar…
Exato. E que todos estes ofícios com o elemento humano têm uma alma. E isso é o fundamental e é isso que todos nós humanos sabemos fazer melhor.

 

Portugueses na Homo Faber:

Artesãos e designers com peças em exposição:
Heritage Sideboard Blue – azulejo e folha de ouro – Sr Ferreira/ José Henriques de Sousa / Boca do Lobo
Espelho em filigrana – artesão Sr Rocha / Boca do Lobo
Cerâmica e bronze – Fernando Brizio
Cestaria e cerâmica – Eneida Tavares
Cerne Mutante – Victor Agostinho e Samuel Reis
Planified Glass – Jorge Carreira
Ceramista – Catarina Nunes

Artesãos a trabalhar ao vivo:
Miguel Alonso – entalhador da Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva
Manuel Ferreira – artesão de bunho
Bordadeiras da Madeira do IVBAM
Maria Dinis Pereira – Bordadeira de Nisa