Para lá das portas fechadas do Palácio da Ajuda há um mundo por descobrir

Nas reservas da grande casa dos reis, há milhares de objetos, um mundo de histórias por contar e um património único que é cuidado todos os dias. E muito por fazer. Fomos conhecer o outro lado do Palácio Nacional da Ajuda.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Orlando Almeida/ Global Imagens

Maria José Tavares começa a caminhar pelo soalho de madeira das reservas de mobiliário do Palácio Nacional da Ajuda. Ainda mal a porta se abriu e já estamos numa viagem no tempo. Não tarda, somos quase familiares de D. Maria Pia ou de D. Carlos, como as conservadoras de cerâmica, mobiliário, vidros e têxteis que se dedicam a investigar os milhares de peças daquele riquíssimo acervo. “Aqui estão as arcas de transporte de roupa, de loiça, que eram usadas pela rainha, pela Casa Real, quando andava de palácio em palácio. Por exemplo, quando eles iam daqui para Queluz no verão, iam não sei quantos carros de bois com estas coisas todas, que o palácio ficava completamente vazio. Levavam as mobílias, os lençóis, as roupas de cama, muitas vezes quadros também”. Ao longo do corredor estão as arcas que asseguraram o vaivém – quando se diz que alguém leva a casa às costas, podemos passar a lembrarmo-nos também das férias da realeza.

Com a conservadora da coleção de mobiliário passamos por uma divisão onde estão dezenas de cadeiras empilhadas – “aqui estão as cadeiras volantes. Foram inventadas em finais do século XVIII, princípios do século XIX. O mobiliário era muito estático e começa a ser mais leve. Estas eram usadas nos bailes, nos jantares especiais, e têm cerca de dez tipologias. Parecem as cadeiras mais normais do mundo, mas não eram na época. Um baile levava 900 pessoas, imagine o que era pôr cadeiras para essa gente toda”. Lição número um: qualquer objeto ali conta uma história.

Mostra-nos os berços dos príncipes. O berço (provavelmente) de D. Pedro V, o de D. Carlos, recentemente restaurado no Laboratório José de Figueiredo, e o de D. Afonso – “tem o dragão que é o símbolo da Casa de Bragança. É muito Guerra dos Tronos, não é?”

Desembocamos numa das enormes divisões naquela que foi a casa da Corte durante três décadas, entre 1761 e 1794. E aqui o espaço mede-se também em altura: seis metros do chão ao teto. Nesta sala, finos plásticos cobrem peças de mobiliário. Algumas estão no chão, outras em prateleiras. Caminhamos pelos carreiros criados entre elas. Maria José Tavares começa a destapá-las, como quem retira uma película de tempo aos nossos olhos. Mostra-nos os berços dos príncipes. O berço (provavelmente) de D. Pedro V, o de D. Carlos, recentemente restaurado no Laboratório José de Figueiredo, e o de D. Afonso – “tem o dragão que é o símbolo da Casa de Bragança. É muito Guerra dos Tronos, não é?”. É. Estremecemos. A História de Portugal está ali. E nós também.

A conservadora explica que uma das mais relevantes fontes documentais do seu trabalho é o arrolamento judicial que foi feito na República. É um extenso e detalhado documento, inventariando todas as peças do palácio, que ajuda a perceber em que contexto foram usadas, por quem, como. “Uma das pessoas que vinha, o juiz Magalhães, foi acompanhado por um antigo criado da casa, que tinha imensas informações. O juiz gostava de arte, portanto descreveu muito bem as peças, e o criado ia dizendo: ‘isto aqui pertenceu à rainha, foi o primo que lhe deu, aquela foi ela que fez…’ Ficámos com uma informação que os outros palácios não têm, muito fidedigna”. Esta informação diz-nos, por exemplo, que o berço do pequeno Carlos, com uma coroa real no cimo do dossel, demorou três anos a fazer. “Andei louca à procura de notícias do batizado do príncipe D. Carlos, sei que eles não deixaram os jornalistas entrar nas igrejas, mas mesmo assim há algumas gravuras. E diz-se que ele teve três berços, dois usados na igreja e um cá em casa”. Maria José não sabe ainda qual deles é este. Por isso, ali há sempre que fazer, que investigar. “É um poço sem fundo para não sei quantas gerações!” Lição número dois: há muitas histórias por contar.

“A coleção de vidros tem cerca de 13 mil peças e é representativa das principais manufaturas do século XIX europeias, onde a Maria Pia comprava. A rainha estava sempre atualizada.”

Por esta altura, a conservadora da coleção de vidros, Maria João Burnay, juntava-se à minicomitiva que seguia na realidade paralela do Palácio da Ajuda. Longe dos olhares dos visitantes, que percorrem as monumentais salas, percorríamos as não menos monumentais reservas. É a conservadora de vidros e diz que o Diário de Notícias é outra base preciosa para o seu trabalho: “é uma das nossas grandes fontes. Havia uma coluna que era imprensa cor-de-rosa, [relatava] como a marquesa de Rio Maior se apresentava, é uma delícia. Até os anúncios são fontes documentais. É o papel do jornalismo para a História”, salienta. Entramos numa sala com as paredes forradas a armários envidraçados, pejados de copos, taças, garrafas, que se alinham como um exército. “A coleção de vidros tem cerca de 13 mil peças e é representativa das principais manufaturas do século XIX europeias, onde a Maria Pia comprava. A rainha estava sempre atualizada. É um conjunto que representa, em termos estilísticos, desde o período historicista até à Arte Nova”, diz a conservadora. “Isto é uma coleção de fazer inveja a muitos museus do mundo”, sublinha. Mas – tal como as outras – carece de mais atenção a nível de conservação preventiva.

Lá em cima, o teto tem pedaços em falta. “Para nós, conservadores, é uma dor de alma ver estes tetos, com pinturas insubstituíveis, são pinturas executadas no início do século XIX. Esta sala faria parte dos aposentos do D. João VI, mas nunca foi usada, porque a corte partiu para o Brasil e quando foi usada foi como armazém, como arrecadação do tesouro”, diz. Por isso, Maria João Burnay diz não entender como se está a gastar tanto dinheiro com o remate da ala Oeste para expor o Tesouro Real [21 milhões de euros, financiados com as verbas da taxa turística de Lisboa e do Ministério da Cultura]: “espero que [a receita de bilheteira] reverta em benefício da conservação do património, nomeadamente do palácio.” De caminho, falamos do incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro: “depois do que aconteceu, desejamos muito que o Estado invista numa segurança reforçada neste tipo de edifícios. O fogo é o pior ladrão”. Lição número três: há muito que fazer para melhorar as condições das reservas da Ajuda.

Recado dado, mergulhamos nos vidros. “Quantos copos tinha uma mesa opulenta? Pelo menos cinco, podia chegar aos sete. É o serviço à russa, que se implementou a partir do primeiro império em França, numa embaixada da Rússia em Paris. Esse serviço começou a ser implementado nas casas burguesas e da aristocracia. Em cada serviço existe um copo para cada bebida. Está a ver a diversidade de copos que cada serviço tem? Os copos de cerveja, de ponche, de vinho, de licor, os lavabos e pratos para lavar as mãos e a fruta. No final da refeição havia uns copinhos que eram os lava bocas, para bochechar”, explica a conservadora de vidros do PNA, reiterando que a rainha Maria Pia tentava acompanhar sempre as novidades. Comprava os serviços nas viagens que fazia ou, por catálogo, aos armazéns de Paris. “Há sempre um exemplar de tudo o que estava na moda.”

O palácio não está só ligado à História de Portugal porque houve aqui acontecimentos importantíssimos, mas também porque há estes pequenos objetos que nos reportam ao dia-a-dia daquela época…”

Mas há muito mais no Palácio. “Até temos medicamentos que sobraram da rainha, comprados aqui em farmácias da Calçada da Ajuda, olhos de vidro”, diz Maria João. “Da rainha Maria Pia temos os dentes, estavam no quarto. A dentadura e os óculos, uns óculos lindos, de ouro”, diz Maria José. “É que nós sentimos mesmo o dia-a-dia, percebe? Com estes pequenos objetos entramos num departamento da história que durante muito tempo foi desmerecido, que é a história dos costumes, da vida privada e que aqui está muito presente. O palácio não está só ligado à História de Portugal porque houve aqui acontecimentos importantíssimos, mas também porque há estes pequenos objetos que nos reportam ao dia-a-dia daquela época…”, diz Maria João. “Estamos cada vez mais convencidas de que Maria Pia não era uma pessoa frívola como se diz. E que era muito ligada, ao contrário do que se pensa, às gentes do povo. Tinha este paradoxo, a ostentação, a opulência, mas gostava de estar na terra. A quantidade de piqueniques, de passeios de bicicleta em Sintra, com ela já com uma certa idade… e lá vão eles! Ela gostava de estar de pés na terra…” Esta personalidade é uma de muitas investigações em aberto. Nesta era de informação abundante, há tanta coisa para descobrir. “O século XIX, que para muitos historiadores é jornalismo, é um século apaixonante, com muitas transformações.”

Ainda temos o privilégio de nos mirar nos espelhos encostados à parede – quantas rainhas e princesas ali se miraram com os seus longos vestidos? – antes de deixar esta zona das reservas. Surgimos por detrás de uma longa cortina de veludo na Sala dos Archeiros. O palácio é a segunda casa das conservadoras, que nos entregam na reserva de têxteis sem termos necessidade de GPS. Ali, a conservadora Manuela Santana dedica-se a arrumar um conjunto de paramentos de luto, que vieram de restauro. É quinta-feira, e por isso conta com a ajuda preciosa das voluntárias Maria Amélia e Isabel, que há anos se dedicam a dar uma mãozinha daquela reserva. Ali estão as roupas de casa, de cama, têxteis decorativos e fardas militares. Nada de roupas dos reis: “não, o traje da rainha foi com a rainha para o exílio. Só ficou o que era considerado bens do estado, os bens pessoais foram todos”, explica. Ainda assim, há ali muito que fazer. Os têxteis são guardados em armários de época, o que não é a melhor solução. “Infelizmente, as peças estão sobrepostas”, lamenta a conservadora. “Um dia, quando tivermos as reservas que devíamos ter, vão ficar enroladas”, diz. Aqui, ficamos que a saber que os reis já conheceram o “antepassado dos edredãos, com lã por dentro e seda por fora.” Lição número quatro: o passado não é um lugar distante.

O Sirius é um veleiro completamente aparelhado, chiquíssimo. Era uma exposição que eu gostava imenso de fazer: mostrar o clipper, que está no Museu da Marinha, aparelhado com tudo o que lhe pertencia”

E o que mais se descobre através dos objetos? Se Cristina Neiva Correia conseguisse pôr toda a coleção de cerâmica a falar, tinha conversa para longos anos. Numa das reservas de cerâmica estão 17 mil peças alinhadas em estantes metálicas abertas. A rainha Maria Pia tinha uma predileção por artes decorativas e, da mesma maneira que gastava em copos, gastava rios de dinheiro também em loiça. A conservadora da coleção de cerâmica tem um século de história da loiça naquelas prateleiras. Fala pausadamente, conta histórias tranquilas. Ficamos a saber que o Sirius, barco da rainha, teve direito a três serviços de porcelana personalizados, além de copos, toalhas bordadas e serviço de toilette. “O Sirius é um veleiro completamente aparelhado, chiquíssimo. Era uma exposição que eu gostava imenso de fazer: mostrar o clipper, que está no Museu da Marinha, aparelhado com tudo o que lhe pertencia”. Se era assim para um barco, não se imagina para os palácios. Ali está a fina flor da porcelana europeia – Minton, Haviland, Sévres, Meissen – em imensos serviços, com pratos, tigelas, baixelas, taças, tacinhas, chávenas, bules, açucareiros. Cristina Neiva Correia dedica-se ao estudo das artes da mesa e das cerâmicas, analisa as mesas de Estado, cruza com as faturas e as ementas. “Esta coleção tem um valor incalculável. A grande mais valia é ter pertencido à Casa Real, e não temos como pôr preço de mercado. Que preço é que uma pessoa põe numa coisa que é escolhida por uma pessoa determinada, rainha neste caso, que foi usada, que esteve presente em momentos importantes?”, questiona, dizendo que “é uma coisa muito europeia, esta, do valor da peça original. Os americanos, chineses, japoneses fazem circular réplicas para se perceber como se vivia na altura. Para nós é a magia da peça original, saber que aquela peça estava num determinado sítio, foi escolhida para ali, usada ali.” Arrepia outra vez.

De cada vez que há notícia de um sismo em Portugal, Cristina treme. “Tenho este pânico, quando foi o abalo ao largo de Peniche, vim a correr para cá ver o que tinha acontecido às peças. É este problema das reservas que não são construídas como reservas. Tenho de descer estas peças que estão em cima…”, diz-nos. Antes do fim da viagem na história, mostra-nos a preciosidade mor, que colocou estrategicamente à mão de semear: “Se eu tiver de sair a correr, é com as peças de Majólica que saio. São peças Castelli, do século XVII, importantíssimas. Aquela coisa do curator’s choice, cá está, é o meu preferido”. Mostra uma garrafa de peregrino, que terá pertencido a D. Fernando. “Deste lado tem o Neptuno, feito a partir de uma pintura do Carrachi, e do outro lado tem o Baco. Isto junta os meus vários gostos.” Lição número cinco: conservar rima com amar.

Se tivesse que escolher, Cristina Neiva Correia salvava esta garrafa de peregrino da Majólica, século XVII
(Orlando Almeida / Global Imagens)