O ovo de filigrana feito a partir de impressão 3D: eis a joalharia portuguesa 4.0

O presente da joalharia nacional cruza tecnologia e tradição. Disso mesmo se falou num debate que juntou três gerações de joalheiros no Ministério da Economia, em Lisboa. Da conversa há ainda uma exposição para ver, até 18 de outubro. Está lá um ovo de filigrana, que nasceu de uma impressão 3D.

Por Marina Almeida

Pedro Sousa tem 30 anos e trabalha em joalharia há ano e meio, mais coisa menos coisa. Quando chegou à oficina da J. Monteiro Sousa, encontrou uma casa com “70 ou 80 anos” e a maioria dos artesãos “com 60 ou 70 anos”. Pedro levou com ele uma nova ferramenta, a tecnologia. E foi com a ajuda da impressão 3D que fez nascer um ovo de filigrana com a assinatura da casa fundada em 1953 em Gondomar. Sentava-se no meio de um painel e contou uma das histórias que acabaria por marcar o debate Shapers 4.0, que decorreu esta sexta feira no Ministério da Economia.

“Com a impressão 3D criamos o modelo e fizemos o enchimento manual do ovo”, contou à plateia. A seu lado estavam José Augusto Seca, da Topázio e José Leitão, da Leitão & Irmão Joalheiros. O debate, moderado pela diretora do Dinheiro Vivo Rosália Amorim, foi o primeiro de três dedicados aos artesãos de excelência nacionais, promovido pela Associação da Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP) a convite do Ministério da Economia.

Ana Teresa Lehmann, Secretária de Estado da Indústria, recebeu os participantes numa sala que se encheu para escutar os desafios do setor. Quando Pedro Sousa contou as suas aventuras com a impressão 3D numa oficina antiga, o moderadora provocou-o: ” o seu tio [um dos artesãos da oficina, com 75 anos] não acha que está sempre a estragar tudo?”. Sim, responderia o jovem artesão, arrancando risos à plateia. “Estamos sempre a tentar inovar, sempre”, frisou.

José Leitão não tardaria em dizer “é dos Pedros que vivemos, não do que já fizemos”, traçando o mapa do futuro do setor. A empresa centenária portuense, fundada no século XVII, que teve entre os clientes a coroa portuguesa, tem já uma loja online onde está a “perder dinheiro”. Mas não desiste desta aposta, sabendo que “uma joia tem de ser tocada, sentida”. Mas há já um meio termo nesta relação: há clientes que telefonam, falam longamente com as funcionárias sobre as alianças de casamento, e fazem a encomenda online. É um caminho. Porém, José Leitão acredita que as lojas físicas da joalharia nacional são algo distintivo no país: “não vejo futuro em tudo o que é online.”

José Augusto Seca concorda: “a componente emocional vai manter as lojas abertas, as pessoas têm necessidade de ver e tocar a peça”. E são as mulheres quem mais gosta de ver as joias ao vivo, acede.

Outro sinal dos tempos, o que junta ao debate: “durante anos os clientes da Topázio estendiam a passadeira vermelha para o nosso comercial entrar.” Mas esta importância foi-se desvanecendo e a empresa foi obrigada a reinventar-se. Acede que o marco dos 140 anos foi importante, quando a empresa fez uma exposição e uma parceria com 14 artistas portugueses que levara sangue novo ao desenho de produto. Atualmente o seu principal mercado é americano, com especial ênfase no mercado judaico que aprecia a qualidade do produto da empresa, contou.

 

A Secretária de Estado da Indústria, na primeira fila do debate, disse encarar a joalharia e outros ofícios portugueses como um “bem precioso” no posicionamento do país no mercado do luxo a nível internacional. São “um ativo estratégico que importa não só preservar mas valorizar e mostrar cada vez mais ao mundo”, referiu a governante dizendo, em declarações à DN Ócio no final dos trabalhos, que este é “um terreno a desbravar absolutamente fascinante”. Ana Teresa Lehmann assegurou ainda que o governo vai “lançar iniciativas neste sentido, fazendo simbioses com o design, com uma abordagem de mercado global”.

O debate, animado, acabaria por trazer perguntas da plateia. No final, ficaram os desafios para o setor: “faltam escolas que produzam mão-de-obra qualificada e criar uma marca nacional”, disse Jorge Leitão. “Falta formação na área da produção”, disse José Augusto. Pedro Sousa, de 30 anos, diz não ter um olhar sobre todo o setor, mas tem “mil e um projetos” que gostava de por em prática na sua oficina. E que esta fosse “mais sexy”.

No final do debate, fomos ver o ovo 3D dele. Está em exposição no Ministério da Economia até ao fim do ciclo de debates, com mais onze peças de autores portugueses.

O próximo debate acontece a 1 de outubro, é sobre o tema Craftmanship na Economia Global e junta no painel Liliana Guerreiro, que venceu o prémio melhor peça de joalharia numa grande feira do setor na Alemanha, Susana Martins, que criou uma marca própria no Dubai, e a gestora Luísa Delgado. A empresária Catarina Portas modera. O ciclo encerra a 18 de outubro com o debate Social & Instagramables. Os debates são às 17.00 e a entrada é livre mediante inscrição em geral@aorp.pt.