Os melhores artesãos europeus estão em Veneza – e nenhuma máquina substitui a mão humana

Estamos em Veneza no maior encontro de artesãos da Europa. Até domingo a cidade italiana mostra o melhor do craftmanship e porque nenhuma máquina consegue substituir a mão humana. Entre eles, estão portugueses

Texto por Marina Almeida, em Veneza*

Alberto Cavalli andava há uma semana de fato e com demasiado calor. Ontem sentava-se no claustro do Mosteiro de San Giorgio Maggiore, procurando o sol. A temperatura baixou demasiado de um dia para o outro, parece que o outono se está a instalar em Veneza. O diretor da Michelangelo Foundation acusa o cansaço de dois anos de preparação da Homo Faber, mas está feliz: tem a casa – melhor dizendo, o mosteiro – cheia de gente e ouve frequentemente ouvir dizer «Che bello!»

Já visitaram a Homo Faber mais de 20 mil pessoas, disse ao DN Ócio fonte oficial da Michelangelo Foundation, que promove o evento, em parceria com outras instituições europeias. Como a Fundação Giorgio Cini, que abre as portas do mosteiro beneditino do século XVI para acolher 16 exposições e cerca de 400 artesãos. Todas as exposições são gratuitas, assim como o vaporetto que liga a Praça de São Marcos à ilha em frente, San Giorgio Maggiore. O diretor da Fundação confessa que a resposta do público e dos artesãos o surpreendeu.

A ideia da Fundação Michelangelo foi criar uma experiência imersiva para divulgar e promover o craftsmanship, os ofícios de excelência do continente europeu. Coube a Alberto Cavalli ser o maestro desta monumental realização, que se estreia este ano. Convidar curadores, trabalhar com eles ideias, conceitos, chegar a estas 16 exposições onde nada parece ter sido deixado ao acaso. «Foi começar do zero, saber como nos chamávamos, qual seria o nosso tom de voz, o que queríamos mostrar. Mas sabíamos o que queríamos mostrar, dar esta visibilidade e valor aos melhores artesãos da Europa, mostrar que as máquinas não tomam o nosso lugar, porque há coisas que a mão humana faz melhor», disse ontem à DN Ócio.

Cavalli não quis ali fazer uma «enciclopédia dos ofícios pois os tempos modernos exigem um ponto de vista, uma forma de escavar a superfície e chegar à essência». Por isso, os ofícios apresentam-se aqui de variadas formas: ligados à arte, à moda, ao território, restauro, decoração de interiores e até transportes. Entre as exposições mais impactantes deste Homo Faber está a Best of Europe, que junta centenas de peças de artesãos de vários países e onde, até amanhã, estará Miguel Alonso, entalhador da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva a fazer demonstração da sua arte ao vivo.

Entre as peças desta e de outras exposições multiplicam-se os visitantes de telemóvel em riste, fazendo fotos e vídeos. Alberto Cavalli sabe que este é o tempo presente. «Não se pode desligar as pessoas de algo a que estão habituadas a fazer ou ver a não ser que se mostre algo autêntico, esplêndido, verdadeiro. A única forma de ligar as pessoas à verdade é através da beleza», defende.

Um dos mais desafiantes momentos do Homo Faber é a exposição da Fundação Bettencourt Schueller, em que se mostram trabalhos de artesãos premiados a nível de excelência, num espaço definido por blocos de terracota e, no fim da exposição, o visitante é convidado a mergulhar em vários ateliers tradicionais através de um dispositivo de realidade virtual.

Todas as salas tem vários jovens, que são os guias da exposição, dizendo aos visitantes o que ali se mostra. São estudantes ou jovens artesãos de várias áreas, que aproveitam esta oportunidade para trocar conhecimentos e experiências – aliás, uma forte intenção dos organizadores, apostados em rejuvenescer estas artes para não as deixar desaparecer.

Até domingo, a ilha de San Giorgio Maggiore é mais do que uma bela vista sobre o palácio Ducal e a praça de São Marcos. É uma gigante montra dos ofícios europeus em todo o seu esplendor. A entrada é livre, o barco também. Diariamente das 10.00 às 19.00, com um intenso programa com debates e workshops para além das exposições.

«Posso dizer que é bonito? Eu sei que é muito suspeito mas eu acho que [o Homo Faber] é muito bonito. E oiço o público dizer», dizia ontem o diretor da fundação, num momento de descontração. Para a semana está de férias. Depois regressa para começar a preparar a próxima edição. A Homo Faber volta em 2020.

*A jornalista viajou a convite da Michelangelo Foundation