Os grandes artistas portugueses que pintaram Santo António

Vieira da Silva e Aurélia de Sousa nasceram no dia de Santo António. As duas artistas dedicaram-lhe uma obra. Também Pomar, Almada, Columbano, Stuart, Bordalo e João Abel Manta o representaram. A sua imagem na arte é também o reflexo de um país.

Texto de Marina Almeida

Todos os caminhos para Santo António na arte vão dar ao Porto e a Aurélia de Sousa. Será, talvez, uma das representações mais emblemáticas e enigmáticas do santo: a artista, nascida a 13 de junho de 1866 em Valparaíso, no Chile, filha de emigrantes portugueses, pintou um autorretrato como Santo António. Comecemos então por aí.

Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela, à escala real (175 por 139 cm), datada de cerca de 1902, pode ser visitada na Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, no Porto. A família da artista mudou-se para aquela cidade tinha ela 3 anos, passando a residir na Quinta da China, onde terá sido pintado o retrato, após a formação em Belas-Artes em Paris. “Esta pintura terá sido feita a partir de uma fotografia realizada por si, em que se apresenta vestida com o hábito franciscano e a mesma posição de corpo e de mãos“, refere Maria da Luz Marques, técnica municipal. “De salientar a posição das mãos em oração, revelando-se muito expressivas. Por cima da cabeça nota-se uma auréola. As cores utilizadas são escuras, entre castanhos e pretos”, refere.

Muito diferente da forma como Maria Helena Vieira da Silva assinala a coincidência da sua data de nascimento (1908, em Lisboa): a artista representou Pregação aos Peixes, em 1949, em óleo sobre tela. A obra, que se encontra em coleção privada, inspira-se na azulejaria tradicional e homenageia Santo António e a sua cidade natal.

A obra de Aurélia de Sousa é porém lapidar. “É um quadro muito grande e foi inovador nesse sentido, fez-se representar vestida de Santo António, foi revolucionário na época”, refere o coordenador do Museu de Santo António, Pedro Teotónio Pereira. Rui Afonso Santos vai mais longe: “O quadro da Aurélia de Sousa, que se autorretrata como um travesti, prepara a abertura para o século XX”, refere o curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC). “Pertence a um outro mundo mental, que não é de todo o mundo do Columbano.”

Falávamos sobre uma outra representação do Santo António, atualmente nas reservas no MNAC, da autoria de Columbano Bordalo Pinheiro, datado de 1898: “É um quadro estranho, com uma espiritualidade estranha, tanto mais vinda de um republicano fervoroso”, acentua. Para o curador, esta não é uma obra marcante do autor em termos de qualidade da pintura, mas é “inquietante”. Rui Afonso Santos refere que “o modelo é a própria mulher dele, que era mais governanta do que outra coisa, o que torna este quadro ambíguo e estranho. Um quadro sem dúvida singular. Não lhe posso dizer que é boa pintura porque não é, terá interesse talvez para uma biografia íntima do Columbano, que está por fazer”.

O perturbador autorretrato de Aurélia de Sousa, feito à escala real.

Pedro Teotónio Pereira admite que Aurélia de Sousa se tenha inspirado na representação de Columbano e lembra o contexto da época: “Houve umas cerimónias antonianas em 1895 muito importantes em Portugal e depois em 1931, portanto isso marcou muito a época.” Em 1931 o Santo António foi tornado “um santo nacional”, é a partir daí que começa a haver as festas em Lisboa, explica. Em 1934 começam a organizar-se as marchas, “há esta institucionalização do Santo António”. O Estado Novo eleva-o a santo nacional e socorre-se dos melhores artistas: “O feriado municipal 13 de junho é instituído em 1953, depois há os tronos de Santo António, as Noivas de Santo António, a organização das marchas, a organização de todas as festas, é muito no espírito do Estado Novo”, refere o coordenador do Museu de Santo António, um dos polos do Museu de Lisboa, gerido pela EGEAC. Almada Negreiros é um dos artistas chamados a representar o santo, assinando belíssimas ilustrações das marchas, dos arraiais, da Lisboa em festa, bem como os materiais gráficos das festas de Lisboa (tal como Stuart Carvalhais).

Almada Negreiros ilustrou uma brochura das festas de Lisboa em 1934.

Ainda na ilustração, mas recuando no tempo, é num trono de Santo António que Rafael Bordalo Pinheiro representa pela primeira vez a figura do Zé Povinho (em 1875), numa sátira à cobrança de impostos. “A partir do século XIX com o Bordalo Pinheiro vai ser muito usado para a crítica social e política, isso tem que ver também com os nomes de os políticos terem sempre António. Fontes Pereira de Melo era António, Bordalo brincava muito com isso. Punha-o no trono, tirava o rei do trono, com a crítica à monarquia. Essa crítica vai ser muito usada no século XX também na música. Aparecem as rábulas no teatro de revista e aparecem muitas músicas relacionadas com o Santo António e trocadilhos, com António Oliveira Salazar, outro António”, refere Pedro Teotónio Pereira. Anos mais tarde, também João Abel Manta usa e abusa da sua figura para criticar com gume afiado o regime de Salazar.

Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.

Nos anos 1980, Júlio Pomar pinta o padroeiro para fazer crítica social. “Há sempre esse olhar mais contemporâneo dos artistas sobre algo da cultura portuguesa. Pomar não era católico e vai buscar a ideia do sermão aos peixes muito usado pelo padre António Vieira e que é uma crítica social fortíssima.

E é muito usado para isso, uma crítica aos poderosos, aos senhores do dinheiro, que continua muito atual.” O quadro de Júlio Pomar, acrílico sobre tela, 1984-85, pertence à coleção Millennium BCP. É nesta época que o Santo António se torna, na ótica do coordenador do museu lisboeta, “um elemento de identidade cultural importantíssimo para Lisboa e para Portugal”. Algo que começa a afirmar-se no pós-25 de Abril e se acentua nos anos 1990, “já sem esse complexo ligado ao Estado Novo”.

Santo do povo, de crítica social e política, de mudança de mentalidades e costumes, está também representado na escultura, com as estátuas de Lagoa Henriques, na Igreja de Santo António, em Moscavide, António Duarte, em Alvalade, ou de Domingos Soares Branco, em frente ao Museu de Santo António, à Sé: foi inaugurada em 1982 pelo Papa João Paulo II.