Os bastidores de uma exposição na Gulbenkian

Caridade, de Dalou, pesa tonelada e meia e foi a primeira escultura a ser colocada na exposição Pose e variações - escultura em Paris no tempo de Rodin (João Silva/ Global Imagens)

O que aconteceu longe do olhar do público na preparação da exposição Pose e Variações. Escultura em Paris do Tempo de Rodin? Uma viagem entre Copenhaga e Lisboa, e um inusitado desvendar na sala de exposições. O encontro entre dois colecionadores para contar um pedaço da história da escultura em Lisboa.

Texto de Marina Almeida | Fotografia de João Silva/Global Imagens

Há qualquer coisa de mágico naquela escultura de pedra, uma mulher com duas crianças ao colo, uma que mama, a outra que dormita. Sim, pesa tonelada e meia, e isso intui-se no afã com que os oito homens (com ajuda de duas empilhadoras) se empenham em tirá-la da caixa de madeira onde viajou desde a Dinamarca.

Mas Caridade contém em si uma leveza difícil de explicar – a diretora do Museu Gulbenkian, Penelope Curtis, aflora-o no texto de introdução da exposição: «quando nos dispomos a imitar e a debater as poses presentes na exposição, descobrimos que a escultura fala de um modo muito direto ao nosso próprio corpo». A obra de Paul Dubois demorou mais de uma hora a ser colocada sobre a base numa delicada manobra. Foi a primeira escultura da exposição a chegar ao lugar, num parto que a fez (re)nascer na Galeria Principal do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

«Esta é a primeira peça a ser colocada em plinto porque estamos a começar pelas peças maiores. Primeiro estamos a colocar os pesos pesados para depois pormos as peças mais pequenas e as que vão ter campânula», explica a curadora Luísa Sampaio. Desvia a atenção da peça durante alguns minutos para nos explicar o que ali está a acontecer e, respondidas as perguntas, senta-se num banco em frente a Caridade e à azáfama dos homens (e de uma mulher vestida de preto, a conservadora dinamarquesa com olhos de lince) regressando à concentração total da montagem da exposição. Não há margem para distrações. Se a peça não ficar logo onde é suposto, não há hipótese de movimentar a tonelada e meia de mármore para o sítio correto mais tarde. É certo que a delicada operação acabaria após «só um toquezinho», em que a bela massa de pedra foi ajustada uns centímetros na base, antes de as equipas desmobilizarem – eventualmente a caminho de um almoço de «sopa da pedra», iguaria várias vezes referida durante a operação, com uma boa dose de sentido de humor.

«Para nós, escultura francesa do século XIX é Rodin, e não é. Rodin aparece no final do século XIX, a mexer na matéria de uma forma totalmente nova, e aí a sua invenção da escultura moderna»

Faltavam mais de duas semanas para a exposição Pose e Variações. Escultura em Paris do tempo de Rodin abrir ao público (marcada para 26 de outubro). A mostra junta peças dos acervos de Calouste Gulbenkian (1869-1955) e do dinamarquês Carl Jacobsen (1842-1919), colecionador e cervejeiro (fundador da Carlsberg), e vai contar, em 30 obras, cem anos de história da escultura francesa. «Para nós, escultura francesa do século XIX é Rodin, e não é. Rodin aparece no final do século XIX, a mexer na matéria de uma forma totalmente nova, e aí a sua invenção da escultura moderna», diz a curadora, acentuando que até 1870 «muita coisa se passou», pela mão de “pesos pesados da escultura como Carpeaux, Dalou e Paul Dubois.” (Na exposição estão seis obras de Rodin).

Quem também se movimenta naquele espaço, de máquina fotográfica a tiracolo, é Mariano Piçarra. O responsável pelo design vê ganhar forma a exposição que teve de montar na sua cabeça muito antes de as obras chegarem. «São cinco núcleos que tinham de se ver na totalidade e cada um ter uma identidade, não podia pôr paredes porque não tenho pintura, as esculturas têm massas diferentes que precisam de respirar e têm relações escalares diferentes». Foi esta a equação que resolveu criando uma linha diagonal na sala e convidando o visitante a descobrir a exposição, quase de uma forma intuitiva. Os blocos verdes (cor escolhida por causa da oxidação de algumas peças) têm números, e o visitante só verá a seguinte a partir do momento anterior, num intencional jogo de cortinas e relações. Uma espécie de jardim japonês.

Continuação da preparação da exposição «Pose e variações» na Gulbenkian. (Joao Silva/ Global Imagens)

No parto de Caridade, um homem de bata branca surge de dentro da caixa, segurando a figura feminina pelos ombros. É Rui Xavier, diretor de restauro da fundação. Só na manhã seguinte falou connosco, enquanto se preparava para fazer o restauro de uma das peças da coleção do fundador. «Eu estava preocupado que o suporte não tivesse a resistência que deveria ter e cedesse. Quando se pensa numa exposição, pensa-se também naquilo que pode não funcionar bem e eu já tinha antecipado que essa seria uma das possibilidades. O que eu senti ali foi preocupação. Embora eu sozinho não conseguisse segurar naquela peça, a sensação que eu tinha inconscientemente era que podia segurá-la mesmo». Correu tudo bem.

Mais calmo, senta-se um dia depois à frente de uma escultura de Dalou, que pela primeira vez saía das reservas da Gulbenkian para ser mostrada ao público. «É uma escultura constituída maioritariamente por gesso, possivelmente também por terracota. Além da patine, tem também muitos depósitos enegrecidos, não são patines propositadas». E é nesses depósitos que Rui Xavier se concentra, usando detergentes neutros e solventes orgânicos. À medida que avança, devagar, observa a peça e adequa a intervenção ao resultado final, num trabalho de técnica e sensibilidade. Explica-nos que observa a forma como a peça escurece nas pregas da saia da figura feminina e como aquela tonalidade será a mais próxima da intenção original do autor de Paysanne française allaitant (1873). Mesmo depois de a exposição abrir, Rui Xavier voltará ao restauro da obra, nas terças-feiras em que o museu está fechado. Uma operação silenciosa.

Até 4 de fevereiro, as esculturas de Gulbenkian e Jacobsen conversam em Lisboa. Nessa altura será a vez do percurso das obras se fazer em sentido inverso: as esculturas de Jacobsen regressam a casa e as de Gulbenkian passam uma temporada em Copenhaga, onde, até junho, vão dialogar na Gliptoteca Carlsberg, o museu de esculturas do colecionador dinamarquês.
Pose e Variações. Escultura em Paris do tempo de Rodin
Até 4 de fevereiro, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
De 28 de fevereiro a 26 de junho de 2018 Gliptoteca Carlsberg, Copenhaga