O laboratório criativo da Hermès onde não há desperdício

O laboratório de ideias «petit h» foi criado há 10 anos por Pascal Mussard na casa Hermès. Tem como objetivo reutilizar materiais que sobram das peças criadas pela marca francesa e dar-lhes uma nova vida. Godefroy de Virieu é diretor criativo da «petit h» conversou (e guiou) a DN Ócio na exposição de Lisboa que até dia 29 de setembro está no primeiro piso da loja Hermès do Chiado.

Texto de Filipe Gil / Fotografias Diana Quintela/Global Imagens

A exposição de Lisboa tem alguns objetos que lhe são dedicados, desde peças feitas em cortiça, portuguesa, claro. Ou um porta-chaves com as icónicas sardinhas, entre outros ícones da cultura lusa. Mas há misturas quase inusitadas de materiais. Um pisa-papéis que pode ser uma cunha de porta e que junta as pedras à pele dos materiais da Hermès. Ou ainda botões de casaco que se juntam a um recipiente e criam um saleiro. Peças criadas entre a ideia dos designers e a perícia dos artesãos. Todas únicas e para venda. Godefroy de Virieu explica:

Qual é o grande objetivo do laboratório de ideias «petit h». São ideias que depois vão para as coleções da Hermès?

Há vários objetivos. O primeiro é enriquecer e estimular a mudança e a criatividade entre os designers, os materiais e o artesão. Em segundo lugar é criar uma visão diferente que não tem a ver com as coleções da casa Hermès. A visão do «petit h» é transversal e pretende descobrir uma nova tipologia de objeto. Existe total liberdade de criar e de propor novas ideias. E isso é interessante para a casa-mãe [Hermès] porque permite falar das várias áreas e tocar em vários assuntos através dos novos objetos. Como diz Pierre-Alexis Dumas, diretor artístico da Hermès, «o petit h representa todo o concentrado da essência da Hermès, é a quintessência da casa Hermès». É também uma resposta de bom senso para reutilizar o material que não foi utilizado. Todos os materiais são importantes, mesmo aqueles que não são totalmente utilizados – é algo que está intrínseco na marca. Mas também enriquece o portefólio se a casa-mãe se interessar pelo objeto. É, no fundo um laboratório de ideias que tem várias funções, entre as quais enriquecer o património criativo da Hermès.

Atualmente, o artesanal ganhou espaço e importância no segmento de luxo? Apesar de vivemos uma época em que a tecnologia está presente em cada vez mais produtos…

A definição de luxo tem de ser bem definida. Para a Hermès o luxo é aquilo que é bem feito. E valoriza o saber fazer e cria objetos úteis em que todos os detalhes falem do saber fazer da casa Hermès. São os objetos que dizem qualquer coisa, que contam histórias. E são objetos que perduram no tempo.

Da exposição que está em Lisboa existiram objetos que o surpreenderam?

Sim, o saleiro. É um objeto básico de todos os dias que poucos prestam atenção, mas que nesta criação passamos a olhar para ele. Há criações muito interessantes e muito bem executadas. Contam o olhar do artista sobre o objeto. Objetos que são utilizados no dia-a-dia mas com um novo olhar.

Há alguns objetos do laboratório «petit h» que tenham entrado na coleção da Hermès?

Há um trabalho que fizemos à volta da pele de crocodilo, com sobras que transformamos em pulseiras mas no qual o artesão respeitou as linhas orgânicas e únicas das escamas da pele ao invés do corte ser a direito e criaram pulseiras únicas – porque não há um pedaço de pele igual a outro.
Pierre Hardy, diretor criativo da coleção de joalharia na Hermès viu, e teve vontade de recriá-los em prata e ouro. No fundo, criou-se uma coleção inteira inspirada num projeto que teve origem no «petit h».

Como pode o «petit h» comunicar com os novos consumidores, os Millennials?
Não temos uma estratégia por idade. Como Hermès, falamos a todas as gerações. Queremos surpreender, fazer sonhar e criar emoções acima de tudo. Ao propor objetos bem executados que fazem sentido e que têm utilidade. O «petit h» tem uma abordagem de bom senso que toca essa geração: não consumir excessivamente, prestar atenção aos materiais e não desperdiçar. O planeta é frágil, precisamos cuidar dele. Eu acho que os Millennials são sensíveis a esses valores.