O ilustrador português que desenha para a Apple, a Nike e The New York Times

Bráulio Amado vive em Nova Iorque há dez anos e trabalha como designer e ilustrador em nome próprio para algumas das maiores marcas mundiais, como a Apple e a Nike. Sim, é mais uma história de um português com sucesso lá fora.

Texto de Filipe Gil

Há cerca de dez anos, ainda Portugal vivia calmamente o pré-crise, Bráulio Amado decidiu sair do país. Candidatou-se a um estágio numa das agências de design considerada das mais criativas do mundo, a Pentagram, e nunca mais voltou. Agora, com 32 anos, ilustra para a Apple, Nike e Adidas. Mas há mais. Muito mais. Como, por exemplo, toda a imagem gráfica do filme sobre António Variações, a estrear em breve.

A “aventura” nova iorquina conta-se assim: depois de quatro meses como estudante na cidade, Braúlio Amado, formado em design na Ar.Co de Lisboa, conseguiu um estágio na agência Pentagram – talvez o sonho de muitos designers.

Por lá notou logo a diferença dos mercados. Primeiro porque o estágio foi pago, o que raramente acontece em Portugal. E o frenesim do dia a dia.

“Em Nova Iorque as pessoas estão focadas no trabalho e há mesmo muita competição em prol da carreira”. Depois de um ano e meio na Pentagram foi para a revista Bloomberg Businessweek, reconhecida pela sua abordagem estética experimental às temáticas, por vezes mais aborrecidas, das finanças e economia. “Trabalhei como um dos diretores de arte. E apesar dos dias de fecho de edição serem uma loucura, foi o melhor trabalho que já tive. Tinha muita liberdade para criar”.

O ritmo de trabalho não o fez afastar de Portugal, pelo menos em termos criativos. E se antes de ir para os Estados Unidos já tinha criado capas para bandas de música – entre os quais os Linda Martini. Continuou a fazê-lo a partir dos Estados Unidos. Desde a direção gráfica de revistas, a mais capas para bandas, como os Paus, ou mesmo projetos mais independentes que já fazia desde os tempos em que vivia em Almada e tocava em bandas punk rock.

Richard Turley, o responsável do tal design disruptivo da Bloomberg Businessweek saiu ao fim de três anos e meio e levou Bráulio consigo para a Wieden+Kenedy, outras das agências de publicidade e design no topo das mais criativas. Bráulio conta que não foi um regresso ao trabalho mais metódico de agência, antes pelo contrário. “Estive num departamento onde se trabalhava de uma forma muito experimental. Era uma espécie de laboratório criativo em que alguns trabalhos poderiam eventualmente ir para clientes, mas o objetivo não era esse, mas sim criar e testar coisas diferentes, estranhas e meio doidas”.

E os trabalhos não param de chegar. Adidas e Apple, por exemplo, entraram no seu portefólio.

Mesmo com o tal ritmo de trabalho elevado, paralelamente nunca deixou de fazer trabalhos em nome próprio. E começa a ter cada vez mais solicitações de trabalhos como freelance. A certa altura, na agência, aconteceu algo curioso, conta. “Fazia projetos de design de um dos clientes da agência, a Nike. E depois, quando chegava a casa, fazia trabalhos de ilustração como freelancer…para o mesmo cliente. Decidi que era altura de lançar-me em nome próprio”.

E assim o fez, em Nova Iorque, o português de Almada criou o BAD Studio, “que não quer dizer mais do que Bráulio Amado Design”, diz divertido. E os trabalhos não param de chegar. Adidas e Apple, por exemplo, entraram no seu portefólio. Aliás, a marca do iPhone ainda hoje trabalha com o português pedindo-lhe, regularmente, ilustrações para as listas de música da Apple Music.

E, talvez pelo trabalho feito na Bloomberg Businnessweek, Mais propostas de revistas e jornais começaram a chegar: Ilustrações para Wired, para o The New York Times, até da ecléctica The New Yorker. Algo que continua a fazer amiúde.

Uma das várias capas criadas por Bráulio Amado para a Bloomberg Businessweek.

Mais recentemente, e enquanto continuou a fazer trabalhos para bandas de música portuguesa (D’Alva, Moullinex, etc), tem trabalhado com a sueca Robyn e a irlandesa Roisin Murphy (ex-vocalista da banda de sucesso mundial Moloko) e também o músico norte-americano Frank Ocean. “No dia em que anunciei que estava de saída da Wieden+Kenedy recebo um e-mail do Frank Ocean a pedir-me trabalho. Ele viu os meus posters e quis trabalhar comigo.”

No caso de Roisin Murphy foi também a cantora que entrou em contacto com o português. Reparou no seu trabalho e pediu-lhe ilustrações. Aliás, Roisin acaba de escrever um texto para o novo livro de Braúlio, que resume os seus trabalhos de 2018 e que em breve vai ser lançado em Los Angeles. “É engraçado, no primeiro trabalho a Roisin Murphy pediu-me algumas coisas, mas hoje em dia dá-me liberdade total. Aos poucos parece que o o meu estilo vai sendo conhecido”.

Capa do novo livro de Bráulio onde reune os seus trabalhos de 2018.

A pergunta que se segue é óbvia, qual o estilo? Timidamente explica: “Não sei definir muito bem, mas acho que é um estilo esquizofrénico mas com humor. Sinceramente, gosto pensar que tenho três estilos diferentes e gosto de alternar entre eles, mas a influência é muito do punk e da onda psicadélica dos anos 1970”.

E continua a achar curioso que aquilo que antes criava por gozo lhe traga, hoje, mais reconhecimento.“Quando comecei a fazer capas e posters de bandas era uma brincadeira aliada ao meu trabalho de designer, mas foi essa brincadeira que me trouxe ao que estou a fazer hoje”

Um estúdio que é uma loja com sessões de terapia

Recentemente abriu um espaço ao público, em conjunto com o namorado, a SSHH, em East Village. É uma loja e estúdio, um espaço mutante como lhe chama. “Por lá acontecem várias coisas. Durante a semana é lá que trabalho, mas a partir das 19h temos aulas de línguas e workshops de arte, pintura e design e ainda um psicólogo que, uma vez por semana, dá terapia de grupo. E por vezes fazemos exposições e transformamos o espaço por completo. Por fim, ao fim de semana abrimos como loja para vender peças de design e ilustrações.”

E onde fica Portugal no meio disto tudo? Bráulio é bastante rápido a responder: “Dez anos depois estou muito habituado a este estilo de vida e ao que me pagam pelos trabalhos criativos. Mas adoro Portugal e gosto muito de lá ir. E sei que, definitivamente, é lá que vou gozar a reforma”.

Contudo, a ligação no presente mantém-se. Os próximos cartazes do novo filme sobre António Variações têm o traço de Bráulio Amado – que continua a estar entre Almada e Nova Iorque.

Veja na galeria de imagens mais trabalhos de Bráulio Amado.