«O artesanato precisa de sair do folclore, se quiser ser sempre inspirador»

Franco Cologni na abertura da Homo Faber em Veneza (Foto Agence SGP/Michelangelo Foundation)

É um dos fundadores da Michelangelo Foundation, que quer promover o artesanato de excelência europeu. O italiano Franco Cologni fez carreira nas grandes marcas de luxo e explica porque devemos olhar para o saber fazer na era da inteligência artificial.

Entrevista de Marina Almeida

Qual é a importância do craftsmanship na sociedade contemporânea?
Vivemos em uma época dominada por desafios tecnológicos e pelo rápido advento da Inteligência Artificial. No entanto, acreditamos que sempre haverá o desejo de objetos feitos pelo homem, capazes de fazer as pessoas apaixonarem-se graças à sua autenticidade, beleza e originalidade. Hoje em dia, o craftsmanship lembra-nos que o ser humano ainda está no centro de uma rede que transcende os objetos e foca-se nas relações: a cadeia produção / consumo deve ser desafiada pelos talentos dos mestres artesãos, que com sua destreza e paixão que nos lembra que temos de estar felizes e realizados com o que fazemos.

Acredita que artesanato de excelência e tecnologia podem funcionar em conjunto?
Os artesãos sempre usaram as melhores técnicas disponíveis; eles sempre adoraram experimentar. Acho que não devemos ver a tecnologia como uma ameaça, mas como uma possibilidade de comunicarmos melhor, de sermos mais eficientes, de ganhar visibilidade.

«os artesãos são convidados a renovar suas ideias, e os designers podem descobrir algumas técnicas raras e consagradas pelo tempo».

Conhece artesanato português? Como o vê no panorama europeu?
Portugal tem uma importante tradição na criação de excelentes produtos artesanais. E acho que o foco recente no design, que está a atrair para Portugal muitos nomes notáveis, beneficia todo o sistema: os artesãos são convidados a renovar suas ideias, e os designers podem descobrir algumas técnicas raras e consagradas pelo tempo. O artesanato precisa de sair do folclore, se quiser ser sempre inspirador.

A Homo Faber [evento que decorreu pela primeira vez em Veneza e juntou artesãos de toda a Europa durante duas semanas] ensinou-lhe algo novo?
Ensinou-nos que as pessoas ainda adoram ser surpreendidas e encantadas, e que observar os artesãos no trabalho é sempre uma experiência incrível, desde que o contexto seja o certo: tivemos que criar um quadro cultural plausível, para garantir que os metiers d’art foram devidamente percebidos no seu aspeto especial e precioso.

Como pode o artesanato de excelência melhorar a identidade de um país?
Os metiers d’art são uma vantagem competitiva relevante para muitas economias, porque representam um recurso de um território específico. Quando vai visitar um novo lugar, você espera encontrar algo autêntico e original: e o bom artesanato é a melhor expressão dessa identidade. Não é uma maneira invejosa de se proteger, mas uma forma generosa de mostrar ao mundo o melhor País pode fazer.

Se tivesse de escolher apenas um objeto para representar a beleza, qual seria?
Escolheria uma linda joia. Numa joia, os materiais preciosos já estão presentes, mas o objeto torna-se ainda mais valioso graças ao trabalho do artesão, que transforma o ouro, a platina e as pedras preciosas em algo único.