Na Gulbenkian joga-se à bola com o cérebro e há robôs artistas

Mergulho no mundo do cérebro na entrada da exposição MÁRIO CRUZ/LUSA

Um derby em que ganha o jogador mais calmo, uma orquestra feita com os nossos cérebros, os deliciosos robôs pintores de Leonel Moura. A partir de sábado e até 10 de junho, arte e ciência cruzam-se numa exposição, em que o cérebro dá muito que pensar.

Reportagem de Marina Almeida

Rui Oliveira saiu do laboratório e trouxe algumas das experiências dos cientistas para a sala de exposições. O investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência e do ISPA é o comissário de Cérebro – Mais Vasto que o Céu e leva-nos por uma viagem ao interior das nossas cabeças. Uma viagem que se faz com um cérebro com 500 milhões de anos, um cérebro moderno, material científico e muitas provocações ao visitante.

Na sala principal do edifício sede ainda há escadotes e bancadas de trabalho, e alguns letreiros estão por colar. Mas rapidamente nos esquecemos do que está por fazer, nas últimas horas antes de a exposição abrir. Lá ao fundo da sala, está Leonel Moura. O artista já sabe que os seus robôs demoram a começar um desenho e por isso já os pôs sobre a tela em branco. Já fizeram uns rabiscos mas naqueles largos minutos em que a comitiva os mirou e fotografou, nem um traço para amostra. Leonel Moura explicou que os programou com a maior liberdade possível e baseados na inteligência das formigas, não dos homens – “a ideia é que máquinas muito simples podem gerar coisas complexas”.

De homens e de máquinas, de cérebros humanos e de animais se falará nesta exposição. Há muito que fazer e experienciar, razão pela qual o comissário alvitra (e com razão) que uma só visita não chegará. A mostra está dividida em três módulos. Somos recebidos pela instalação vídeo do norte-americano Greg Dunn, com música de Rodrigo Leão. Três minutos para mergulharmos dentro de nós mesmos, para “mostrarmos aos nossos cérebros o que é um cérebro”, dizia Rui Oliveira.

Neurónio gigante que interage com os visitantes MÁRIO CRUZ/LUSA

Neste módulo, o neurónio gigante de 12 metros sobrepõe-se às nossas cabeças e ilumina-se à nossa passagem. É também aqui que encontramos a representação da proporção das zonas do corpo humano no córtex cerebral. O humúnculo sensorial e o humúnculo motor são as duas novas espécies criadas para esta exposição e que mostram que quando acionamos determinada zona do cérebro, ela deita a língua de fora (por exemplo).

No segundo módulo da exposição chegamos ao presente e o corpo central do espaço é ocupado com uma linha do tempo de objetos documentais. A ideia foi representar que todas as ações que fazemos residem no cérebro. Apesar de no dia nos namorados se oferecerem corações – “ainda não temos pendente com o córtex pré-frontal, temos com o coração”, diz o cientista-comissário.

Também nos falou de memória, dois tipos de memória – procedural e fatual. E como há coisas que conseguimos fazer ao mesmo tempo e outras que não – e aí percebemos que é normal termos dificuldade em dar resposta quando na caixa do supermercado nos pedem o número de contribuinte enquanto ainda estamos a digitar o código PIN do multibanco. Mais um jogo, para nos testar. Este foi criado por um psicólogo, Stroop. Trata-se de acertar nas palavras escritas a cores diferentes, parece simples mas não é.

Objetos também contam histórias. MÁRIO CRUZ/LUSA

Jogar futebol com a concentração

Há vários desafios, simples, para testar o cérebro. Um deles é o jogo de futebol – Mindball – em que dois participantes colocam um sensor (EEG) na cabeça e concentram-se em mover a bola na mesa. Ganha o que estiver mais calmo, avisa Rui Oliveira. E ganhar significa fazer chegar a bola ao terreno do adversário. Para mostrar que a brincar se aprende muita coisa, o comissário explicou que esta tecnologia permitiu comunicar com doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), que têm as capacidades mentais e não se conseguem mexer.

Na zona central da sala, quatro lugares para uma orquestra de cérebros. O visitante é convidado a colocar o EEG (aparelho de eletroencefalografia) que regista as ondas cerebrais produzidas e as traduz em sons (predefinidos por Rodrigo Leão).

Vários cérebros em exposição na Fundação Gulbenkian MÁRIO CRUZ/LUSA

Cérebro – Mais vasto que o Céu, convida a participar em vários desafios quanto se descobre mais sobre a história da ciência e as evoluções das viagens ao nosso centro que foram sendo feitas. O nome é baseado no poema de Emily Dickinson, Brain wider than the sky e a intenção foi que esta viagem se fizesse não só com ciência mas também com arte, como enfatizou Rui Oliveira. Entre cérebros está o quadro de Bridget Riley, Methamorphosis (1964). Ou os frenéticos robôs de Leonel Moura.

Rui Oliveira lançava o mote – será que o quadro é feito por robôs ou por Leonel Moura, que os programou? O artista diz que o papel dele também é esse, provocar a discussão, mas avisa que o algoritmo dos robôs lhes dá a máxima liberdade. “Interessa-me dar autonomia à máquina”, explicou. Uma autonomia que se traduz nos movimentos que escolhem fazer sobre a tela, e nos desenhos que fazem, quando fazem, enquanto continuamente monitorizam o desenho que está a ser feito, por eles e pelos outros. Têm sensores que os impedem de chocar uns com os outros e com os limites do espaço de trabalho, explica-nos. Vai demorar uma semana, mais coisa menos coisa, a terminarem o quadro. “Eles demoram muito tempo a começar e ainda bem. Eu não gosto de produção industrial, só gosto de produção artística”.

Cérebro – Mais Vasto que o Céu
Edifício Sede, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
De 15 de março a 10 de junho
Das 10.00 às 18.00, exceto terça-feira
Bilhetes: 5 euros

Programação complementar:

Quarta, 20 março, 18:30, Auditório 2
A complexidade do cérebro
Greg Dunn – Artista e Neurocientista, EUA
Suzana Herculano-Houzel – Vanderbilt University, EUA

Quarta, 3 abril, 18:30, Auditório 2
O Cérebro e o Olfato
Gun Semin – ISPA-Instituto Universitário, Portugal
José Bento dos Santos – Especialista de vinhos, Portugal

Quarta, 8 maio, 18:30, Auditório 2
O Cérebro Social
Hunter Halder – ReFood, Portugal
Larry Young – Emory University, EUA

Quarta, 15 maio, 18:30, Auditório 2
Cérebros e Robôs
José Santos-Victor – IST, Portugal
Leonel Moura – Artista conceptual, Portugal

Quarta, 22 maio, 18:30, Auditório 2
Criar Memórias
José Eduardo Agualusa – Escritor, Angola
Nicky Clayton – Cambridge University, Reino Unido

Quinta, 30 maio, 18:30, Auditório 2
Mentes Animais
Carla Flanagan – Zoomarine, Portugal
Tetsuo Matsuzawa – Kyoto University, Japão

Sexta, 31 maio, 18:30, Auditório 2
Extensões da Mente
Amy Sterling – Eyewire, USA
Alaa Abi Haidar – Artista e cientista, França

Sábado, 1 junho, 18:30, Auditório 2
O Cérebro e a Dieta
Carlos Ribeiro – Champalimaud Research, Portugal
José Avillez – Chef, Portugal

Domingo, 2 junho, 18:30, Auditório 2
O Cérebro, o Corpo, e a Naturalidade da Consciência
António Damásio – University of Southern California, EUA

 

Um cérebro humano plastinado recebe os visitantes MÁRIO CRUZ/LUSA