Marie Kondo do património passou pelas reservas do Museu de Lisboa

Não, não está tudo no Google – e ainda bem. Ainda é possível descobrir tesouros do património e as reservas do Museu de Lisboa são uma caixa de surpresas. A partir de setembro, vão ser parcialmente visitáveis depois de uma intensa e eficaz operação de arrumação. Fomos espreitar as novidades escondidas.

Reportagem de Marina Almeida
Fotografias de Natacha Cardoso/Global Imagens e arquivo DN

É um cubo vermelho no Bairro de Palma, em Lisboa, que se esconde à vista de todos. Já foi a central informática de um banco e continua a ser uma fonte quase infinita de dados. Hoje alberga a reserva central do Museu de Lisboa – quer isto dizer que ali estão milhares de peças (entre 60 e 70 mil) que podem contar as muitas histórias da cidade: basta pô-las a falar. Desde outubro que esses diálogos se tornaram mais fáceis, após uma intensa e eficaz operação internacional de reorganização das reservas. Depois da casa arrumada, há uma joia da coroa a brilhar: 17 pendões usados no monumental cortejo histórico de 1947, que nunca foram mostrados em público.

Como boas contadoras de histórias, Joana Sousa Monteiro, diretora do Museu de Lisboa, e Aida Nunes, coordenadora de conservação e restauro, guardam os enormes pendões para o grande final, como um brinde. Antes, guiam-nos pelas salas do cubo, e explicam-nos que grande operação foi esta, de reorganização de precisamente 15816 objetos em duas semanas, que permitiram catalogar todo o acervo e torná-lo acessível: “para aceder a um objeto, não movimentamos mais do que outros dois objetos. Os objetos estão acessíveis não só para serem manipulados e transportados para outro lugar, mas para a visualização que é importante para a sua conservação”, explica Aida Nunes. As arrumações das reservas decorreram em outubro ao longo de duas semanas no âmbito do programa RE-ORG – e vamos ouvir falar muito dele.

“É um programa extremamente importante a nível nacional, promovido pelo ICCROM que é o conselho internacional para a salvaguarda do património móvel e imóvel, afiliado da UNESCO”, explica Joana Sousa Monteiro. “Conseguimos promover um RE-ORG com 20 pessoas de vários países, todos das áreas de conservação e restauro, liderados por três super profissionais e com um especialista internacional muito importante desta área chamado Gael de Guichen, que é francês mas vive em Roma e faz programas destes pelo mundo inteiro”. O resultado, é a casa arrumada – e imensos sorrisos no rosto destas duas mulheres.

Esta zona da sala de mobiliário será alvo de nova arrumação para receber visitas à reserva no segundo semestre do ano (Natacha Cardoso/ Global Imagens )

As equipas não andaram a dobrar peças de roupa em três ou a despedir-se de objetos supérfluos com carinho, como faz a guru das arrumações japonesa Marie Kondo, mas andaram a pôr em prática vários princípios deste método infalível de arrumação de reservas de museus. A operação assenta em vários princípios, como a reutilização de materiais a usar no acondicionamento, e contempla cada peça e as suas especificidades – até porque aqui não há objetos dispensáveis. A organização é também fundamental para assegurar a conservação preventiva. Na sala de mobiliário, por exemplo, todos os objetos estão sobre rodinhas, para ser mais fácil a sua deslocação que para transporte, quer para verificação por parte dos conservadores.

É esta a sala que vai ser exposta aos olhares indiscretos dos visitantes a partir do segundo semestre do ano. “Vamos transformar esta sala numa reserva visitável, por marcação, para o público em geral. É sempre uma matéria de grande curiosidade aquilo que está escondido”, revela a diretora do Museu de Lisboa. “E vamos fazendo visitas mostrando a diversidade da nossa coleção e contando histórias de alguns objetos. A ideia é ser um processo relativamente dinâmico e deste modo vamos dando a conhecer ao público objetos que aqui e ali se veem em exposições temporárias, ou não”, conta. O espaço é dominado por enormes pinturas de dois vice-reis da Índia, que o super especialista em organização do património intencionalmente ali deixou. “Foi uma graça que Gael de Guichan, que tem um humor muito particular, nos quis fazer, para nos receber. ‘Vasco da Gama e Dom João de Castro, olhem para nós, vejam o que fizemos, deixámos esta sala tão bonita com estes senhores a receber-vos’”, conta Joana Sousa Monteiro.

Três minutos para chegar a um objeto

O RE-ORG está em toda a visita – até porque à entrada de cada uma das salas estão fotografias de como estava o espaço antes deste Marie Kondo do património ali passar. As salas estão organizadas por materiais: mobiliário, pintura, materiais gráficos, têxteis, cerâmica. “Convém não haver mistura entre tipos de materiais”, explica Aida Nunes, a guardiã do património da cidade. O Museu de Lisboa, tutelado pela EGEAC (empresa municipal que gere os espaços culturais de Lisboa) é polinucleado e espalha-se pelo Palácio Pimenta, Museu de Santo António, Teatro Romano, Casa dos Bicos e Torreão Poente do Terreiro do Paço.

No âmbito do programa RE-ORG tudo foi organizado e catalogado (Natacha Cardoso/ Global Imagens )

Aida trouxe uma cábula, cheia de números. Sabe que os jornalistas gostam deles – e ela, na realidade, também está orgulhosa do trabalho que foi feito naquelas duas semanas. “Movimentámos 15816 objetos e movimentar foi reagrupar as coleções e definir para cada objeto o seu código de localização, para sua atualização na base, o que significa que para um investigador que queira vir à reserva, na sua secretária sabe exatamente onde está o objeto. Em menos de três minutos vai conseguir aceder a esse objeto. Nesta sala de mobiliário movimentámos 699 objetos, na de pintura 924, nos gráficos 4251, sala têxteis I foram 2716, na têxteis II, 2100 e na cerâmica 4526 objetos”. A casa está arrumada.

Passamos por todas as salas. Nos gráficos está um mundo de desenhos e gravuras (estudos para a estátua do Marquês de Pombal? Estão aqui). Na cerâmica estão as reservas do Museu Bordallo Pinheiro catalogadas em caixas de madeira. Em algumas prateleiras estão peças à vista. Umas arrumadas, outras à espera de catalogação – como uma coleção de figurado de noivas de Santo António da autoria de um ceramista da Ericeira, António Sampaio, uma das aquisições mais recentes do Museu de Lisboa. “É uma das nossas linhas de trabalho – ir à procura de como é que as tradições de Lisboa estão a ser mantidas ou reinventadas ou transformadas noutras, ou noutro tipo de iconografia”, enquadra Joana Sousa Monteiro. Ali ao lado, dentro de caixotes embrulhadas em papel de seda está uma procissão de Santo António da autoria dos irmãos Baraça, de Barcelos. São mais de 300 peças.

Um imenso cortejo histórico por desvendar

Há muitas histórias em caixotes, gavetas, prateleiras. E em cabides. Chegamos à segunda sala dos têxteis e há fileiras de fatos pendurados, móvel atrás de móvel. Trata-se da coleção de fatos que foram usados no Cortejo Histórico de 1947, que celebrou o aniversário da fundação de Lisboa, em pleno Estado Novo. “É tudo isto que aqui estão a ver, são milhares”, diz a conservadora. “É uma coleção que nós temos mantida, mas não restaurada porque não temos uso imediato para lhes dar. O que é fundamental para nós é guardarmos bem, conservarmos bem, todos os objetos que temos em torno do Cortejo Histórico, que um dia dará uma exposição, porque de facto é único na nossa história nacional”, refere a diretora. Aida continua a mostrar-nos roupas: “aqui temos cinco casaquinhas, camisas, coletes de criança”. Os figurinos repetem-se várias vezes, cabide após cabide. Não é difícil imaginar hordas de gente a desfilar pelas ruas de Lisboa.

Aida Nunes mostra os fatos do Cortejo Histórico de 1947 que estão nas reservas do Museu de Lisboa (Natacha Cardoso/Global Imagens )

Há mais de sete décadas que esta indumentária coletiva repousa nas reservas do museu municipal. Esteve sempre à guarda da Câmara Municipal de Lisboa. Mas as surpresas não se ficam por aqui.

Entramos na sala de pintura. “Esta é a nossa coroa de glória…”, dizem. “Explique, explique, Aida”. E a orgulhosa conservadora explica. Começa por falar da reorganização da sala: “Tínhamos uma coleção de 17 pendões no nosso acervo do Cortejo Histórico, com objetos de três por dois e meio empilhados. Desenvolvemos um projeto durante oito meses, envolvendo seis pessoas, prévio ao RE-ORG, para que os objetos estivessem estáveis. Criámos condições para serem de novo remontados nas placas de colocação pelos voluntários RE-ORG.”

Joana interrompe, enquanto começa a abrir as grades deslizantes, desvendando cada um dos pendões: “Estamos aqui a falar de papel pintado e têxtil, que torna mais complicado a sua conservação.” E volta Aida: “estabilizámos o objeto, permitimos que esteja acessível a quem quiser estudar ou intervir, conservar. Resolvemos um problema de conservação que tínhamos que era um empilhamento de objetos de grandes dimensões.”

A história podia acabar aqui, com um enorme aplauso e um olhar embasbacado para aqueles objetos de enormes dimensões com desenhos de santos. Que iconografia é aquela? Quem os fez? “Alguns destes pendões, se não a maioria, são de representação de santos que são padroeiros ou protetores de determinadas profissões ainda existentes nos anos 40 em Lisboa. Neste caso é a protetora dos livreiros, Santa Catarina”, explica Joana Sousa Monteiro. Mas também lá está Santa Rufina protetora dos oleiros ou São Brás, protetor dos cardadores. A autoria é desconhecida.

Os pendões do Cortejo Histórico foram preservados (Natacha Cardoso/ Global Imagens )

O monumental cortejo que assinalou os 700 anos da conquista de Lisboa aos Mouros foi coordenado por Leitão de Barros e levou milhares de pessoas às ruas. Aconteceu a 6 de julho de 1947 e está documentado em fotografia de Judah Benoliel no Arquivo Municipal (e, também, no arquivo do DN). Os pendões nunca foram expostos. “Nunca”, confirma Joana Sousa Monteiro. “Queremos vir a expô-los, tanto emprestando a algumas entidades como numa exposição própria nossa”, refere. São um dos tesouros que se revela nesta reorganização. “Sim!” Dois sorrisos.

Um dia sairão das reservas e vão mostrar-se em todo o seu esplendor. Até lá, estão criteriosamente organizados e catalogados na reserva central do Museu de Lisboa.

“É para isso que aqui estamos, para contar histórias de Lisboa”, diz a orgulhosa diretora.