“Lutamos por manter o Museu de Arte Popular de portas abertas”

Paulo Costa dirige o Museu Nacional de Etnologia e o Museu de Arte Popular (Jorge Amaral/Global Imagens)

Aberto desde final de 2016, após anos de encerramento, o Museu de Arte Popular continua em risco. Quem o diz é Paulo Costa, diretor deste museu – e do Museu Nacional de Etnologia – que falou à DN Ócio, à margem do Summer Camp de cestaria, com que jovens e artesãos procuram um novo fôlego nesta arte tradicional ameaçada. Diz esperar que a nova lei da autonomia dos museus reponha um atraso orçamental de duas décadas e que permita contratar pessoal: deviam ser o triplo.

Entrevista de Marina Almeida | Fotografias de Orlando Almeida (Global Imagens)

Qual a importância de uma iniciativa como a Summer School de cestaria, que decorre no Museu de Arte Popular ao longo de três semanas?
Vejo com todo o interesse, com todo o entusiasmo, como todos os jovens e menos jovens que são os artesãos que estão aqui. Acho que é uma excelente iniciativa de cruzar tradição e inovação, de colocar em diálogo artesãos e jovens de vários países da Europa a trabalhar com uma tecnologia portuguesa da cestaria, trazendo uma tecnologia tradicional para novos usos, para novas ideias, para novas funções. Acho que é uma iniciativa muito importante porque traduz não só a parceria estabelecida com a Michelangelo Foundation, com a tutela, o Ministério da Cultura, com a Direção Geral de Património Cultural, que financiou esta iniciativa em conjunto com a Fundação Michelangelo, e portanto estamos muito orgulhosos por acolher esta escola de verão, esperando que iniciativas similares se possam repetir.

E que ajudem a dar visibilidade ao Museu de Arte Popular e ao de Etnologia…
Sim. Eu considero que este tipo de iniciativas em torno do artesanato deve ser focalizado aqui no Museu de Arte Popular. Entendo também que não devem esgotar-se estas iniciativas em si próprias. Devo recordar que esta iniciativa foi suscitada porque o museu se encontra a organizar uma exposição em torno das coleções de cestaria do Museu de Arte Popular (MAP) e do Museu Nacional de Etnologia. É neste âmbito que estamos a trabalhar desde janeiro de 2018 com a [associação] Passa ao Futuro, que assegura a parte da curadoria desta exposição em conjunto com o museu, naturalmente, e foi deste processo, deste estudo da coleção que nasceu este encontro com a Fundação Michelangelo e a ideia de se fazer esta escola de verão.

Summer Camp de cestaria é iniciativa do Munistério da Cultura e da Fundação Michelangelo (Orlando Almeida / Global Imagens)

E o que é que falta para o Museu de Arte Popular ter uma presença constante nas agendas dos portugueses, dos que nos visitam? O museu é lindíssimo, fica num sítio de excelência, tem objetos porventura únicos na Europa.
Sim. Precisa que as energias que foram conseguidas para esta escola de verão nestas três semanas sejam conseguidas em permanência. Em primeiro lugar que possamos ter uma equipa adequada às necessidades do próprio museu. Temos muitas ideias, temos muitos projetos, somos muito solicitados para realizar parcerias e dentro do possível tentamos dar resposta, mas é preciso haver recursos humanos e financeiros. É nessa perspetiva que estamos com bastante expectativa que a nova lei, a chamada lei da autonomia dos museus, possa não apenas esgotar-se nos diplomas que estipulam formalmente essa autonomia, mas nos mecanismos efetivos e acompanhados dos recursos absolutamente indispensáveis para que os museus possam cumprir as suas normais funções: investigação das coleções, divulgação, valorização. Temos muitos projetos em curso, temos muitos projetos que gostaríamos de concretizar. Precisamos de ter esses recursos, no MAP e no Museu Nacional de Etnologia.

Estamos a falar de quê em concreto?
Estamos a falar de todos os tipos de técnicos de que um museu normalmente precisa, ao nível da conservação e restauro, ao nível do serviço educativo, ao nível do inventário e da gestão das coleções, ao nível do inventário e gestão de fundos dos arquivos fotográficos, de filmes, sonoros, porque o museu reúne todos estes espólios. O MAP tem uma coleção de 12 600 peças, tem uma biblioteca que nós já organizámos, catalogámos, tem um arquivo fotográfico com cinco mil imagens, de que já digitalizámos 1600 no decurso do último ano. O Museu Nacional de Etnologia tem muito mais património. Tem 40 mil peças, tem fundos documentais na ordem das várias dezenas de milhar de peças, a nível do arquivo fotográfico, ao nível do arquivo sonoro, do arquivo fílmico. É património nacional, é património de um museu nacional que por princípio deve ser um museu de referência na sua área, todos os museus nacionais têm vivido em regime de suborçamentação crónica desde há muito tempo, diria desde há 20 anos e os efeitos de tal suborçamentação têm de ser enfrentados com montantes e recursos correspondentes. Diria que está na hora de fazer-se mais em termos orçamentais ao nível da Cultura pelos museus.

Quantas pessoas tem e quantas precisa de ter? Estamos sempre a falar para os dois museus em conjunto…
Sim, estamos a falar da gestão dos dois museus porque quando o Museu Nacional de Etnologia foi incumbido de assegurar a reabertura do MAP em 2016, o MAP tinha apenas três pessoas. Portanto toda a gestão do MAP tem sido feita sobretudo pela equipa do Museu Nacional de Etnologia. Nós somos um total de 21 pessoas. É insustentável continuarmos assim porque o Museu de Arte Popular não tendo exposição permanente, todas as energias são consagradas em prioridade para manter as suas portas abertas. Está aberto desde dezembro de 2016 em resultado de uma enorme dedicação desta equipa. Somos 21 pessoas, devíamos ser o triplo. Eu diria que para funcionarmos nos níveis mínimos, devíamos ser o dobro, ligeiramente mais do dobro. Essa contabilização está feita, foi entregue ao gabinete da senhora Ministra da Cultura no início deste ano, portanto diria que é insustentável continuarmos a fazer o que tem sido feito durante mais tempo. A equipa do Museu Nacional de Etnologia já é muito pouca para o Museu Nacional de Etnologia, é muito, muito pouca para trabalhar os dois museus, sobretudo quando o que estamos a tentar fazer é de uma forma integrada. As coleções do Museu de Arte Popular são coleções homologas que antecedem o Museu de Etnologia, mas do ponto de vista científico estão muito pouco informadas e nunca poderão ser convenientemente estudadas sem ser por recurso à informação que a fantástica equipa que fundou o Museu de Etnologia produziu em torno da cultura popular portuguesa, ao longo de 40 anos.

Está tudo disponível.
Está tudo disponível. Nós sabemos o que devemos fazer. Não são precisos muitos meios, mas são necessários mais meios do que os que temos.

Reservas de cestaria do MAP têm peças dos anos 30 e 40 (Orlando Almeida / Global Imagens)

A nível de orçamento, o que está em causa?
O orçamento nem vale a pena falar dele. Isso tem de ser enfrentado e com a lei da autonomia dos museus todos os museus tenham um incremento correspondente. A questão dos museus nacionais tem de ser enfrentada em bloco. Num momento em que o país está a ser projetado internacionalmente, em que o país tem de ter nos museus o eixo fundamental de projeção internacional, de mostrar a qualidade da cultura, tem de haver um investimento correspondente.

E no caso destes dois museus temos fatores absolutamente distintivos da cultura portuguesa. Que feedback tem das pessoas que os visitam?
Todas as pessoas ficam muito contentes. São dois museus únicos. O MNE tem as coleções mais importantes do ponto de vista etnográfico de Portugal. No caso do MAP que tem esta grandiosidade arquitetónica, que tem esta localização absolutamente central nesta zona de Belém, tem uma visibilidade por si próprio, que suscita bastantes atenções.

O designer Jasper Morrison encantou-se tanto com a coleção do Museu Nacional de Etnologia, que fez um livro [The Hard Life, Lars Muller Publishers, 2017] e estava inclusive prevista para este ano uma exposição…
Sim, mas não tem podido acontecer porque como acabei de referir temos que ter centrado as nossas energias em sobreviver e em manter o Museu de Arte Popular de portas abertas.

 

Até 22 de setembro o Museu de Arte Popular tem patente a exposição Físicas do Património Português. Arquitetura e Memória. De quarta a domingo, das 10 às 18.00.

O Museu de Arte Popular foi inaugurado em 1948 e nasceu da reformulação do pavilhão criado para a Exposição do Mundo Português de 1940. (Orlando Almeida / Global Imagens)